Por Adriano Nicolau da Silva

Tenho observado, em diferentes contextos da vida cotidiana, que grande parte das dificuldades humanas não está simplesmente naquilo que fazemos, mas na maneira como nosso comportamento passa a funcionar dentro das relações que construímos. Família, escola, trabalho, amizades e relacionamentos afetivos possuem algo em comum: em todos esses ambientes, o comportamento de uma pessoa modifica as condições diante das quais outra pessoa passa a agir. Para mim, é justamente nesse ponto que a Análise do Comportamento oferece uma maneira particularmente interessante de compreender as relações humanas.
O Behaviorismo Radical permite abandonar uma pergunta muito comum — “que tipo de pessoa é essa?” — e substituí-la por perguntas mais úteis: o que essa pessoa aprendeu? Em quais situações determinado comportamento ocorre? O que acontece depois? Que consequências aumentam ou diminuem sua probabilidade futura? Quais estímulos passaram a controlar esse comportamento? Skinner (1953, 1974) propôs compreender o comportamento a partir de sua relação com o ambiente e de sua história de seleção por consequências. Quando levamos essa perspectiva para as relações humanas, percebemos que o outro também faz parte desse ambiente.
Uma relação, portanto, não começa quando duas pessoas simplesmente decidem estabelecer um vínculo. Cada indivíduo chega a uma nova relação com uma história de aprendizagem. Aprendeu, ao longo da vida, maneiras de pedir, recusar, aproximar-se, afastar-se, demonstrar afeto, lidar com críticas, procurar ajuda, resolver conflitos e responder à frustração. Quando essas duas histórias entram em contato, começa uma nova história: a história daquela relação.
É possível imaginar uma situação simples. Uma pessoa expressa uma dificuldade e recebe atenção e ajuda. Em outra ocasião, volta a procurar aquela pessoa. Se a consequência continua favorecendo essa aproximação, o comportamento de pedir ajuda pode tornar-se mais provável. Ao mesmo tempo, quem oferece ajuda também recebe consequências produzidas pela interação: reconhecimento, aproximação, cooperação ou satisfação. O comportamento de um passa, assim, a participar das condições que influenciam o comportamento do outro. Não precisamos recorrer à ideia de uma “essência” da relação para compreender o que está acontecendo. Temos uma sequência de comportamentos e consequências.
É nesse sentido que considero particularmente importante o conceito de contingência. Todorov e Henriques (2013) destacam que, na Análise do Comportamento, as interações podem ser compreendidas por meio da análise de contingências. A relação humana deixa de ser tratada como uma entidade abstrata e passa a ser investigada como uma história de interações. (Periódicos UFPA)
Isso também ajuda a compreender por que algumas relações se mantêm durante muitos anos, mesmo quando seus participantes afirmam estar insatisfeitos. Uma relação não é necessariamente mantida pelo que as pessoas dizem sobre ela, mas pelas consequências que efetivamente ocorrem. Uma pessoa pode reclamar constantemente de outra e, ainda assim, continuar procurando sua companhia porque recebe atenção, apoio, companhia ou outras consequências importantes. Em outro caso, alguém pode evitar conversar sobre determinado assunto porque a conversa geralmente produz conflito; afastar-se reduz imediatamente o desconforto e, dessa forma, a esquiva pode tornar-se cada vez mais provável.
Esse último exemplo mostra a importância do reforçamento negativo. Quando uma resposta aumenta porque produz a retirada ou redução de uma condição aversiva, temos um processo de reforçamento negativo (SKINNER, 1953). Nas relações, isso pode aparecer de formas muito simples: alguém evita conversar para não discutir; outro cede para encerrar uma briga; alguém deixa de expressar uma opinião porque já aprendeu que será criticado. O comportamento pode produzir alívio imediato e, justamente por isso, tornar-se mais frequente. O problema é que aquilo que funciona no curto prazo pode produzir custos importantes no longo prazo.
O comportamento verbal ocupa lugar central nesse processo. Pedir, elogiar, criticar, agradecer, prometer, justificar, perguntar e recusar são comportamentos que produzem consequências mediadas por outras pessoas. Skinner (1957) mostrou que o comportamento verbal também pode ser analisado funcionalmente. Isso significa que não basta observar o conteúdo de uma fala. É preciso compreender em quais circunstâncias ela ocorre e que consequências produz.
Uma mesma frase pode exercer funções diferentes dependendo da situação. “Está tudo bem” pode ser uma resposta sincera, uma tentativa de encerrar uma conversa, uma esquiva de exposição ou uma forma de evitar uma consequência aversiva. A forma da resposta é semelhante, mas sua função pode ser diferente. Essa distinção, para mim, é fundamental quando tentamos compreender os conflitos humanos.
Outro processo importante é a generalização. Uma pessoa pode ter aprendido, em determinado contexto, que expressar vulnerabilidade produz rejeição. Posteriormente, diante de situações que apresentam algumas características semelhantes, pode passar a evitar novamente a exposição. Não significa necessariamente que tenha “medo das pessoas” ou que possua uma característica interna responsável pelo comportamento. Como aponta Silva (2026), “a confiança pode favorecer a aproximação de uma tarefa, a persistência e a disposição para tentar novamente. Entretanto, ela precisa encontrar oportunidades reais para produzir comportamento competente”. Nas relações humanas, isso se reflete na necessidade de que o vínculo ofereça um ambiente de reforçamento adequado para que repertórios novos possam emergir, superando a ideia de que o comportamento é governado apenas por traços internos.
O contrário também acontece. Quando uma nova resposta é reforçada em diferentes situações, ela pode generalizar-se. É o que ocorre quando alguém aprende a expressar uma discordância de maneira adequada e passa a utilizar esse repertório não apenas com uma pessoa, mas também na família, na escola e no trabalho. A mudança comportamental, nesse sentido, não depende apenas de conhecer uma nova maneira de agir. É necessário que existam oportunidades para praticá-la e consequências que favoreçam sua manutenção.
É justamente aqui que encontro uma das contribuições mais interessantes das terapias comportamentais contemporâneas. A Psicoterapia Analítico-Funcional (FAP), desenvolvida por Kohlenberg e Tsai, utiliza a própria relação terapêutica como contexto para observar comportamentos interpessoais e favorecer novos repertórios por meio de consequências sociais contingentes. Tsai, Yard e Kohlenberg (2014) descrevem a FAP como uma abordagem relacional de base comportamental na qual a interação terapêutica assume papel central na mudança. (PubMed) A literatura de revisão considera promissora a evidência sobre seus mecanismos, especialmente o papel do terapeuta como reforçador social, embora ainda não seja adequado apresentar a FAP como tratamento empiricamente estabelecido para transtornos psiquiátricos específicos (KANTER et al., 2017). (PubMed)
Essa perspectiva me leva a uma ideia que considero especialmente importante: as pessoas levam suas histórias para as relações, mas as relações também passam a fazer parte da história das pessoas.
Quando duas pessoas convivem durante muito tempo, seus comportamentos passam a funcionar como estímulos e consequências uns para os outros. Um determinado tom de voz pode antecipar uma discussão. Uma determinada expressão pode sinalizar acolhimento. Uma mensagem pode aumentar a aproximação. O silêncio pode produzir busca de contato ou afastamento. Com o tempo, essas relações repetidas constroem padrões relativamente estáveis.
Isso não significa que uma relação seja permanente. Como o comportamento é sensível às contingências, mudanças nas condições podem produzir mudanças nos repertórios. Se uma maneira antiga de agir deixa de produzir a consequência que a mantinha, ela pode diminuir. Se uma nova resposta passa a ser reforçada, pode aumentar. A transformação de uma relação, portanto, não depende apenas de desejar que ela seja diferente. Depende também de modificar as condições que sustentam os comportamentos que desejamos transformar.
Essa compreensão é especialmente relevante nas organizações. Muitas vezes, conflitos no trabalho são explicados pela incompatibilidade entre pessoas. Entretanto, duas pessoas podem comportar-se de maneiras muito diferentes dependendo das consequências existentes naquele ambiente. Se comunicar um problema produz punição, esconder o problema pode tornar-se funcional. Se pedir ajuda produz apoio, a comunicação pode aumentar. O mesmo princípio pode ser observado na escola e na família.
No ambiente digital, a questão ganha novas dimensões. Mensagens, curtidas, comentários, visualizações e respostas constituem eventos sociais capazes de participar de contingências. Não devemos, entretanto, chamar automaticamente uma curtida de reforçador. Sua função precisa ser demonstrada pelo efeito que produz sobre o comportamento. Essa precisão conceitual é justamente o que impede que a Análise do Comportamento seja reduzida a metáforas sobre a vida cotidiana.
Minha proposta, portanto, é simples: quando uma relação humana apresentar dificuldades, talvez seja mais produtivo perguntar menos sobre “quem é o culpado” e mais sobre o que está acontecendo entre as pessoas. Que comportamento está sendo reforçado? O que está sendo evitado? Quais respostas desapareceram porque deixaram de produzir consequências? Quais estímulos passaram a controlar determinadas reações? Que comportamentos precisam ser ensinados e reforçados para que a relação possa adquirir uma nova história?
Não acredito que essa perspectiva elimine a complexidade das relações humanas. Ela oferece, porém, uma maneira concreta de investigá-la. Relações não são apenas sentimentos, pensamentos ou discursos sobre o outro. São também histórias de comportamento, consequências, aprendizagem, discriminação, generalização e mudança.
Talvez uma das maiores contribuições do Behaviorismo Radical para as relações humanas esteja justamente nessa mudança de olhar: não precisamos descobrir que tipo de pessoa alguém “é” para compreender como ela está se comportando. Precisamos investigar a história que trouxe aquele comportamento até aqui e as contingências que continuam mantendo-o.
E, se as contingências podem mudar, novas formas de relacionamento também podem ser aprendidas.
REFERÊNCIAS
KANTER, Jonathan W. et al. A comprehensive review of research on Functional Analytic Psychotherapy. Clinical Psychology Review, v. 58, p. 141-156, 2017. DOI: 10.1016/j.cpr.2017.09.010. (PubMed)
SILVA, Adriano Nicolau da. Quando acreditar em si não basta: autoeficácia, aprendizagem e comportamento. Portal Comporte-se, 25 ago. 2026. Disponível em: <https://comportese.com/2026/08/25/quando-acreditar-em-si-nao-basta-autoeficacia-aprendizagem-e-comportamento-2/>.
SKINNER, Burrhus Frederic. Science and human behavior. New York: Macmillan, 1953. (Google Livros)
SKINNER, Burrhus Frederic. Verbal behavior. New York: Appleton-Century-Crofts, 1957.
SKINNER, Burrhus Frederic. About behaviorism. New York: Alfred A. Knopf, 1974.
TODORov, João Claudio; HENRIQUES, Marcelo Borges. O que não é e o que pode vir a ser comportamento. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, Belém, v. 9, n. 1, p. 74-78, 2013. DOI: 10.18542/rebac.v9i1.2133. (Periódicos UFPA)
TSAI, Mavis; YARD, Samantha; KOHLENBERG, Robert J. Functional analytic psychotherapy: a behavioral relational approach to treatment. Psychotherapy, Chicago, v. 51, n. 3, p. 364-371, 2014. DOI: 10.1037/a0036506. (PubMed)
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Adriano Nicolau da Silva, Professor, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Pós-Graduando em Física. Uberaba, MG. Colunista do Factótum Cultural. E-mail: adrins@terra.com.br
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