Por Adriano Nicolau da Silva

O burnout é frequentemente apresentado como consequência de “estresse excessivo” no trabalho. Essa formulação descreve o problema, mas pouco explica sobre as relações que mantêm o comportamento do trabalhador quando o custo do trabalho já se tornou elevado. Por que alguém continua trabalhando além do horário mesmo estando exausto? Por que estabelecer limites pode tornar-se difícil? E por que comportamentos como descanso, lazer e autocuidado podem perder espaço justamente quando se tornam mais necessários? A Análise do Comportamento permite tratar essas questões sem transformar o burnout em uma causa interna do comportamento. O foco passa a ser a relação entre indivíduo, ambiente, comportamento e consequências.
A Organização Mundial da Saúde reconhece o burnout na CID-11 como fenômeno ocupacional decorrente de estresse crônico no trabalho que não foi adequadamente manejado. A definição envolve exaustão, distanciamento mental ou cinismo em relação ao trabalho e redução da eficácia profissional. A OMS ressalta, entretanto, que burnout não é classificado como doença ou transtorno mental, mas como fenômeno especificamente relacionado ao contexto ocupacional (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2019).
O modelo de Maslach contribuiu para a descrição sistemática do fenômeno ao organizar seus principais componentes em exaustão, cinismo e redução da eficácia profissional (MASLACH; JACKSON; LEITER, 1996). Essa descrição permanece importante, mas uma perspectiva comportamental acrescenta outra pergunta: quais contingências aumentam e mantêm os padrões de comportamento associados ao esgotamento?
QUANDO TRABALHAR PASSA A SER A RESPOSTA MAIS PROVÁVEL
Na Análise do Comportamento, comportamentos operantes são selecionados e mantidos por suas consequências. Isso significa que a frequência de uma resposta não pode ser compreendida apenas pela sua aparência ou pela intenção atribuída ao indivíduo. É necessário identificar as condições antecedentes e, principalmente, as consequências que tornam aquela resposta provável.
Considere um profissional que recebe uma mensagem do superior fora do expediente. Ele responde imediatamente e recebe um elogio: “Você é sempre muito comprometido”. A resposta de permanecer disponível pode, assim, ser fortalecida por uma consequência social positiva. Em outra ocasião, porém, o profissional demora a responder e recebe uma cobrança. Nesse caso, responder rapidamente também pode adquirir função de evitar uma consequência aversiva.
Se situações semelhantes se repetem, o trabalhador pode passar a responder mensagens durante a noite, nos finais de semana e durante períodos destinados ao descanso. A descrição “ele não consegue desligar do trabalho” não explica o processo. Uma análise funcional pergunta: o que acontece depois que ele trabalha além do horário e o que acontece quando tenta não o fazer?
Essa distinção é fundamental. O comportamento pode ser mantido por reforçamento positivo, quando produz consequências reforçadoras, ou por reforçamento negativo, quando aumenta por produzir a remoção ou prevenção de uma condição aversiva. Trabalhar além do horário para receber reconhecimento e trabalhar para evitar uma cobrança são comportamentos topograficamente semelhantes, mas funcionalmente diferentes.
O burnout, portanto, não pode ser explicado simplesmente pela quantidade de trabalho. A questão científica está na organização das contingências que estabelecem e mantêm determinadas respostas.
CONTROLE AVERSIVO E O CUSTO DE NÃO PRODUZIR
Ambientes profissionais podem conter contingências aversivas importantes: críticas, ameaças de perda, cobranças, conflitos, insegurança financeira ou desaprovação social. Quando determinadas respostas reduzem ou evitam esses eventos, elas podem ser fortalecidas por reforçamento negativo.
Um exemplo simples ocorre quando um trabalhador permanece conectado ao celular durante todo o dia porque teme que uma mensagem não respondida gere uma cobrança. A resposta de verificar o aparelho produz alívio imediato: “ainda está tudo sob controle”. Esse alívio pode aumentar a probabilidade de novas verificações. O comportamento, porém, tem um custo cumulativo: interrupção do descanso, redução da atenção e dificuldade de contato com outras atividades.
É importante não confundir reforçamento negativo com punição. No primeiro caso, uma resposta aumenta porque produz ou mantém afastamento de uma condição aversiva; no segundo, uma resposta diminui em função de suas consequências. Essa distinção é básica para uma análise comportamental precisa e impede que todo ambiente de trabalho desagradável seja genericamente denominado “punitivo”.
Também é necessária cautela com a afirmação de que burnout seria resultado de esquemas de razão variável elevados ou de extinção operante. Esses princípios podem constituir hipóteses funcionais em situações específicas, mas não estão estabelecidos como explicação universal da síndrome. Uma análise científica não deve transformar uma possibilidade teórica em evidência empírica.
REGRAS RÍGIDAS E PERFECCIONISMO
Além das contingências diretamente presentes no ambiente, o comportamento profissional pode estar sob controle de regras. Frases como “preciso dar conta de tudo”, “um bom profissional não pode errar” ou “se eu parar, ficarei para trás” podem participar do controle do comportamento mesmo quando as consequências imediatas não favorecem sua emissão.
Regras não são, por si mesmas, prejudiciais. Elas permitem organizar comportamentos complexos e podem facilitar a aprendizagem. O problema aparece quando uma regra permanece rígida apesar das consequências produzidas pelo comportamento.
Imagine uma profissional que termina uma tarefa dentro do prazo e recebe avaliação positiva. Ainda assim, permanece trabalhando durante horas para corrigir detalhes que ninguém solicitou. A regra “preciso entregar tudo perfeitamente” pode controlar seu comportamento. A consequência imediata pode ser a redução da insegurança ou da culpa; o custo posterior pode ser perda de sono, redução do lazer e aumento da exaustão.
A literatura oferece suporte para distinguir excelência de preocupação perfeccionista. Em uma meta-análise de 43 estudos, envolvendo 9.838 participantes, preocupações perfeccionistas apresentaram associação mais consistente com burnout do que esforços perfeccionistas isoladamente considerados (HILL; CURRAN, 2016). O dado é importante porque mostra que estabelecer padrões elevados não deve ser automaticamente tratado como fator patológico.
Do ponto de vista comportamental, interessa investigar quais consequências mantêm a resposta e o que ocorre quando a pessoa não cumpre a regra. Se não produzir no nível esperado gera culpa, medo de crítica ou sensação de fracasso, a própria regra pode participar de um repertório rígido de excesso de trabalho.
QUANDO O REPERTÓRIO SE ESTREITA
O trabalho não é a única fonte possível de reforçamento. Relações sociais, lazer, atividade física, descanso, hobbies e convivência familiar também participam do ambiente comportamental. Quando essas atividades são progressivamente reduzidas, diminuem as oportunidades de contato com consequências reforçadoras alternativas.
Pense em uma professora que, depois do expediente, corrige atividades, prepara aulas e responde mensagens de alunos. Inicialmente, o comportamento produz sensação de competência e reconhecimento. Com o tempo, ela deixa de encontrar amigos, reduz atividades de lazer e dorme menos. Quando finalmente dispõe de algumas horas livres, utiliza-as para antecipar tarefas da semana seguinte.
Não é necessário afirmar que o trabalho “viciou” essa profissional. A análise funcional é mais precisa: determinadas respostas relacionadas ao trabalho continuam produzindo consequências imediatas, enquanto respostas concorrentes foram enfraquecidas pela redução das oportunidades de emissão ou pelo menor contato com suas consequências.
Nesse contexto, a esquiva também pode participar da manutenção do problema. Adiar uma tarefa difícil pode produzir alívio imediato. Esse alívio aumenta a probabilidade de que a esquiva seja repetida. Entretanto, o adiamento pode acumular tarefas e elevar posteriormente a pressão para realizá-las. Forma-se uma relação em que uma resposta eficaz no curto prazo contribui para condições mais aversivas no longo prazo.
O AMBIENTE DE TRABALHO TAMBÉM FAZ PARTE DA ANÁLISE
Uma análise comportamental do burnout não deve transformar o trabalhador em único responsável por seu sofrimento. O comportamento ocorre em ambientes organizados por contingências sociais e econômicas.
O modelo de Demandas e Recursos do Trabalho demonstra que demandas elevadas e recursos insuficientes estão relacionados ao burnout, enquanto recursos como autonomia, apoio e feedback podem reduzir determinados impactos das demandas (DEMEROUTI et al., 2001; BAKKER; DEMEROUTI, 2007).
Assim, ensinar apenas estratégias individuais de manejo do estresse pode ser insuficiente quando a organização mantém jornadas excessivas, baixa autonomia, pressão permanente e ausência de pausas efetivas. Por outro lado, alterar a organização também pode não bastar quando o trabalhador desenvolveu repertórios rígidos de esquiva, excesso de responsabilidade ou dificuldade persistente de estabelecer limites.
A intervenção precisa, portanto, considerar diferentes níveis. No indivíduo, podem ser utilizados avaliação funcional, psicoeducação, treinamento de habilidades, resolução de problemas, assertividade e, quando indicado, estratégias da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT). Revisões da literatura indicam resultados promissores da ACT para profissionais, embora ainda existam limitações metodológicas e necessidade de estudos mais robustos (TOWEY-SWIFT; LAUVRUD; WHITTINGTON, 2023).
No ambiente, é necessário modificar contingências: distribuir adequadamente as demandas, garantir pausas, ampliar autonomia, melhorar supervisão e feedback e evitar que a disponibilidade permanente seja sistematicamente recompensada.
UMA MUDANÇA NA PERGUNTA
Compreender o burnout pela Análise do Comportamento significa evitar duas explicações igualmente insuficientes. A primeira responsabiliza exclusivamente a organização e ignora o repertório individual que participa da manutenção do problema. A segunda responsabiliza exclusivamente o trabalhador e desconsidera das contingências que tornam determinados comportamentos mais prováveis.
O burnout não precisa ser tratado como uma entidade interna que causa o comportamento. É possível analisá-lo como um conjunto de mudanças no repertório do indivíduo em interação com condições ocupacionais específicas. Excesso de trabalho, dificuldade de estabelecer limites, esquiva, redução de atividades concorrentes e persistência diante de consequências negativas podem possuir funções diferentes e precisam ser analisados caso a caso.
A pergunta mais produtiva, portanto, não é simplesmente “por que essa pessoa não consegue parar de trabalhar? ”. É: “quais contingências tornam a continuar trabalhando mais provável do que descansar, estabelecer limites ou buscar outras fontes de reforçamento? ”
Essa mudança de pergunta tem consequências práticas. Uma intervenção de qualidade não deve apenas ensinar o trabalhador a suportar melhor condições que permanecem inalteradas. Deve identificar as relações que mantêm o padrão, ampliar repertórios comportamentais e, quando necessário, modificar as contingências organizacionais responsáveis por sua manutenção.
Sob essa perspectiva, compreender o burnout é compreender uma relação: o comportamento não ocorre isoladamente do ambiente que o seleciona. É justamente nessa relação entre trabalhador, trabalho e consequências que a Análise do Comportamento pode oferecer uma contribuição específica para a compreensão e a prevenção do esgotamento profissional.
REFERÊNCIAS
BAKKER, A. B.; DEMEROUTI, E. The job demands-resources model: state of the art. Journal of Managerial Psychology, v. 22, n. 3, p. 309-328, 2007.
DEMEROUTI, E. et al. The job demands-resources model of burnout. Journal of Applied Psychology, v. 86, n. 3, p. 499-512, 2001.
HILL, A. P.; CURRAN, T. Multidimensional perfectionism and burnout: a meta-analysis. Personality and Social Psychology Review, v. 20, n. 3, p. 269-288, 2016.
MASLACH, C.; JACKSON, S. E.; LEITER, M. P. Maslach burnout inventory manual. 3. ed. Palo Alto: Consulting Psychologists Press, 1996.
TOWEY-SWIFT, K. D.; LAUVRUD, C.; WHITTINGTON, R. Acceptance and commitment therapy (ACT) for professional staff burnout: a systematic review and narrative synthesis of controlled trials. Journal of Mental Health, v. 32, n. 2, p. 452-464, 2023.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Burn-out an “occupational phenomenon”: International Classification of Diseases. Geneva: WHO, 2019.
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Adriano Nicolau da Silva, Professor, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Pós-Graduando em Física. Uberaba, MG. Colunista do Factótum Cultural. E-mail: adrins@terra.com.br
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