Por Livros & Grimórios

Poucos livros de Freud são tão ambiciosos quanto Totem e Tabu. Publicado entre 1912 e 1913, o livro nasce de uma pergunta quase gigantesca demais para um único homem: o que existe em comum entre a vida psíquica do indivíduo e a formação das primeiras sociedades humanas?
Freud olha para os costumes descritos pela antropologia de seu tempo e encontra algo que lhe parece familiar. Os tabus, as proibições, os rituais, o medo diante do sagrado e a relação ambivalente com determinadas figuras lembram, para ele, mecanismos encontrados na neurose. O que acontece dentro do indivíduo talvez também possa ajudar a compreender aquilo que aconteceu na formação da cultura.
É aí que Freud começa a construir sua hipótese mais ousada.
O totem seria uma figura central para determinado grupo, frequentemente associado a um animal ou ancestral simbólico. Ao redor dele surgem proibições, principalmente a de matá-lo e a de manter relações sexuais com membros do mesmo grupo. Para Freud, essas duas proibições apontam para dois desejos fundamentais: o desejo de eliminar a autoridade paterna e o desejo sexual dentro da família.
A partir daí, o autor apresenta sua famosa hipótese da horda primeva.
Em algum momento remoto, imagina Freud, existiria um pai poderoso que monopolizaria as mulheres e manteria os filhos afastados delas. Os filhos, revoltados contra essa autoridade, uniriam forças para matá-lo. Depois do assassinato, porém, viria algo inesperado: a culpa.
Eles haviam eliminado justamente aquele que odiavam, mas também aquele que admiravam e amavam.
O pai morto passaria então a ser ainda mais poderoso no plano simbólico. A proibição de matar o pai e a proibição do incesto surgiriam como uma espécie de pacto entre os irmãos. O crime seria transformado em lei. A culpa, em ritual. E o pai morto, em figura sagrada.
É uma hipótese quase mitológica. E Freud sabe que está pisando em terreno especulativo.
Mas é justamente aí que Totem e Tabu fica fascinante.
Freud não está apenas tentando descobrir se um grupo de homens realmente matou um pai milhares de anos atrás. O que interessa é o mecanismo que a história representa: desejo, violência, culpa, proibição e criação da ordem social.
A religião também entra nessa engrenagem. Para Freud, a figura de Deus preserva algo da antiga autoridade paterna. O ser humano adulto continuaria carregando, em uma escala muito maior, a relação ambivalente que a criança estabelece com o pai: amor, medo, dependência, admiração e desejo de liberdade.
A religião seria, nessa perspectiva, uma maneira coletiva de organizar esses sentimentos.
E aqui aparece uma das frases mais provocadoras que podemos extrair do livro: aquilo que é proibido com tanta força talvez seja justamente aquilo que, em algum nível, é desejado.
É por isso que o tabu interessa tanto a Freud.
O tabu não apenas impede um comportamento. Ele denuncia a existência de um desejo que precisa ser contido.
A grande questão de Totem e Tabu, portanto, não é simplesmente saber de onde veio uma determinada religião. É compreender como o ser humano transformou seus desejos em proibições e suas proibições em cultura.
O livro também revela algo que atravessaria toda a obra posterior de Freud: a civilização exige renúncia.
Não podemos simplesmente fazer tudo aquilo que desejamos. Vivemos juntos porque existem limites. A sociedade transforma impulsos individuais em regras, e essas regras acabam sendo incorporadas pelo próprio indivíduo.
A autoridade deixa de estar apenas do lado de fora.
Ela passa a morar dentro de nós.
É aí que Totem e Tabu ganha uma dimensão muito maior. Freud está começando a construir uma teoria sobre a passagem da autoridade externa para a autoridade psíquica, algo que posteriormente seria desenvolvido de maneira mais sofisticada em sua compreensão do superego e, sobretudo, em O Mal-Estar na Civilização.
É também por isso que o livro continua interessante mesmo quando suas hipóteses antropológicas já não podem ser aceitas como explicações históricas comprovadas. A antropologia contemporânea questionou profundamente a ideia de uma horda primordial universal e muitas das interpretações utilizadas por Freud precisam ser lidas dentro do contexto intelectual do início do século XX.
Mas talvez o valor de Totem e Tabu não esteja em ter descoberto literalmente o primeiro assassinato da humanidade.
Está em ter criado uma poderosa narrativa sobre a origem da culpa, da lei, da religião e da civilização.
Freud transforma a pré-história humana em uma espécie de drama psicanalítico.
O pai é morto.
Os filhos sentem culpa.
O morto torna-se sagrado.
O desejo transforma-se em tabu.
O tabu transforma-se em lei.
E a lei passa a viver dentro do próprio sujeito.
No fundo, Totem e Tabu é uma história sobre aquilo que fazemos com nossos desejos quando descobrimos que não podemos realizá-los livremente.
E talvez seja justamente essa a pergunta que continua viva mais de um século depois:
quanto daquilo que chamamos de civilização nasceu da necessidade de controlar aquilo que existe de mais indomável dentro de nós?
Freud não oferece uma resposta confortável.
Talvez porque nunca tenha sido esse o seu objetivo.
Ele queria abrir a porta do inconsciente.
Em Totem e Tabu, tentou abrir também a porta da própria civilização.
E encontrou, atrás dela, algo que conhecia muito bem:
desejo, medo, amor, ódio e culpa.
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✍️ Editores do Factótum Cultural




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