Por Adriano Nicolau da Silva

O álcool faz parte da vida social de muitas pessoas. Está presente em encontros, comemorações, momentos de lazer e diferentes práticas culturais. O problema começa quando beber deixa de ser apenas uma prática social e passa a funcionar como uma resposta recorrente para aliviar tristeza, ansiedade, frustração, solidão ou conflitos. Nesse ponto, olhar apenas para a substância é insuficiente. É preciso perguntar o que o comportamento de beber produz na vida daquela pessoa e por que ele continua acontecendo.
A Análise do Comportamento oferece uma maneira particularmente útil de fazer essa pergunta. Em vez de explicar o consumo problemático como falta de força de vontade ou falha de caráter, procura compreender as relações entre o comportamento e suas consequências. Skinner (2003) demonstrou que o comportamento operante é selecionado pelas consequências que produz. Assim, quando uma resposta produz uma consequência importante para a pessoa, aumenta a possibilidade de que ela volte a ocorrer em situações semelhantes.
É nesse ponto que aparece a armadilha. Imagine alguém que chega em casa depois de um dia marcado por conflitos. Está triste, irritado e cansado. Bebe algumas doses para “desligar a cabeça” e percebe que a tensão diminui. Naquele momento, beber parece funcionar. O problema aparece depois: o sono pode ser prejudicado, a disposição pode piorar, uma discussão pode continuar ou novas dificuldades podem surgir. Quando o sofrimento retorna, o álcool volta a parecer uma saída rápida. O circuito pode se repetir: sofrimento, consumo, alívio imediato, consequências posteriores e novo sofrimento.
Do ponto de vista comportamental, esse processo pode envolver reforçamento negativo. Isso não significa que o comportamento seja “negativo” no sentido de ruim. Significa que uma resposta aumenta de probabilidade porque reduz ou remove, naquele momento, uma condição aversiva. Se beber diminui a angústia, a tensão ou a preocupação, o alívio pode fortalecer o comportamento, mesmo que seus custos apareçam somente mais tarde (SKINNER, 2003).
Essa compreensão muda a pergunta. Em vez de perguntar apenas “por que essa pessoa não para de beber?”, torna-se mais produtivo perguntar: “o que ela consegue quando bebe?”. A resposta pode revelar uma tentativa de escapar de pensamentos dolorosos, diminuir a ansiedade, suportar a solidão ou interromper temporariamente uma experiência emocional difícil. DeMartini e Carey (2011) destacam a relevância dos motivos relacionados ao enfrentamento de estados internos desagradáveis na compreensão do uso de álcool. O comportamento, portanto, precisa ser entendido dentro da história e das condições atuais de cada pessoa.
Isso não significa afirmar que todo consumo de álcool tenha essa função ou que toda pessoa que bebe esteja desenvolvendo dependência. Quantidade, frequência, contexto, história de aprendizagem, características individuais e consequências precisam ser considerados. A análise funcional não procura uma explicação única para todos os casos. Procura descobrir o que mantém aquele comportamento naquele contexto.
A relação entre álcool e depressão também não deve ser apresentada como uma relação simples de causa e efeito. Sintomas depressivos podem favorecer o uso do álcool como tentativa de enfrentamento, enquanto o consumo problemático pode estar associado ao agravamento ou à manutenção de dificuldades emocionais. Estudos de coorte e revisões sistemáticas apontam justamente para essa relação complexa, recomendando cautela diante de explicações lineares (FOULDS et al., 2015; LI et al., 2020). A literatura também mostra que a coexistência entre transtornos por uso de álcool e depressão é clinicamente relevante e exige atenção às duas condições (GRANT et al., 2021).
A neurobiologia acrescenta outra parte da explicação, mas não substitui a análise do comportamento. O álcool interfere em diferentes sistemas do organismo e do cérebro, envolvendo mecanismos relacionados, entre outros, ao GABA, glutamato, dopamina, serotonina e sistemas opioides. A exposição repetida pode produzir adaptações que participam do desenvolvimento da tolerância e da dependência em determinadas condições (KOOB et al., 1994). Esses mecanismos ajudam a compreender por que alguns padrões de consumo podem se tornar persistentes, mas não explicam sozinhos a função que beber assume na história de cada indivíduo.
O sono mostra com clareza como uma consequência imediata pode enganar. Uma pessoa pode beber porque acredita que isso a ajudará a dormir. Adormecer mais rapidamente, entretanto, não significa necessariamente descansar melhor. A literatura associa o consumo de álcool a problemas de sono e também descreve alterações nos ritmos circadianos relacionadas ao uso de álcool (HU et al., 2020; MEYREL; ROLLAND; GEOFFROY, 2020). Assim, uma resposta escolhida para buscar descanso pode contribuir para novas dificuldades no dia seguinte.
As consequências também ultrapassam o indivíduo. O consumo problemático pode atingir relações familiares, trabalho, saúde, finanças e participação social. Pense novamente na pessoa que bebe depois de uma discussão para não sentir a tristeza provocada pelo conflito. A bebida pode diminuir a dor naquele momento, mas a intoxicação pode provocar outra discussão, comprometer o trabalho ou afastar pessoas importantes. A mesma resposta que produz alívio no curto prazo pode criar novas condições aversivas no longo prazo.
Por isso, apenas apresentar os prejuízos do álcool nem sempre é suficiente para produzir mudança. A informação sobre o futuro precisa competir com uma consequência que acontece agora. Se beber é a maneira mais rápida disponível para reduzir o sofrimento, dizer que haverá prejuízos amanhã pode ter pouca força diante do alívio experimentado hoje. É nesse ponto que uma intervenção comportamental precisa ir além da simples retirada do comportamento-problema: é necessário construir alternativas.
Fortalecer relações de apoio, reorganizar rotinas, retomar atividades que produzam consequências reforçadoras, desenvolver formas mais eficazes de lidar com situações difíceis e ampliar possibilidades de enfrentamento são caminhos que podem modificar as condições nas quais o consumo ocorre. A questão não é simplesmente substituir uma resposta por outra, mas criar um ambiente no qual novas respostas tenham condições reais de se manter.
Quando depressão e transtorno por uso de álcool aparecem juntos, o cuidado precisa ser individualizado e considerar as duas condições. A revisão sistemática e a meta-análise de Grant et al. (2021) mostram que existem diferentes possibilidades de intervenção, embora a qualidade e a força das evidências variem conforme o tratamento e o desfecho analisado. Isso reforça a importância de avaliação profissional e de escolhas terapêuticas baseadas nas necessidades de cada pessoa.
Também é importante não transformar este texto em uma recomendação para interrupção abrupta do consumo em qualquer situação. Em pessoas com uso intenso e prolongado, a abstinência alcoólica pode apresentar complicações graves e exige avaliação adequada. A diretriz da American Society of Addiction Medicine (2020) destaca a necessidade de reconhecer e manejar os riscos da abstinência conforme as características clínicas de cada caso.
A recuperação, portanto, não deve ser entendida apenas como retirada de uma substância. Do ponto de vista comportamental, ela pode envolver a reconstrução de repertórios, relações, rotinas e fontes alternativas de reforçamento. Quanto mais alternativas uma pessoa possui para lidar com o sofrimento, menor tende a ser sua dependência de uma única resposta para produzir alívio.
O álcool pode parecer um “antídoto” porque responde rapidamente à urgência de não sentir determinada emoção. Seu caráter ilusório aparece quando esse alívio não modifica as condições que produziram o sofrimento e passa, em determinadas circunstâncias, a participar da sua manutenção. A pergunta deixa de ser apenas “como faço para parar de sentir isso agora?” e passa a ser “que outras formas de agir podem me ajudar a enfrentar aquilo que estou vivendo?”.
Essa mudança de pergunta resume uma contribuição importante da Análise do Comportamento. Em vez de moralizar o indivíduo, procura compreender a função do comportamento e as contingências que o mantêm. Em vez de exigir apenas que a pessoa pare de beber, procura criar condições para que ela possa aprender e manter outras formas de responder ao sofrimento.
A armadilha, portanto, não está somente no álcool. Ela pode estar na aprendizagem de que o alívio imediato é a única saída possível. Romper esse ciclo significa construir outras saídas. Quando novas formas de enfrentamento passam a produzir consequências relevantes, o álcool deixa de ocupar sozinho o lugar de resposta ao sofrimento. A mudança, nesse sentido, não é apenas abandonar uma substância; é ampliar as possibilidades de viver para além dela.
REFERÊNCIAS
AMERICAN SOCIETY OF ADDICTION MEDICINE. The ASAM clinical practice guideline on alcohol withdrawal management. Journal of Addiction Medicine, Hagerstown, v. 14, n. 3S, p. 1-72, 2020. DOI: 10.1097/ADM.0000000000000668.
DEMARTINI, Kelly S.; CAREY, Kate B. The role of anxiety sensitivity and drinking motives in predicting alcohol use: a critical review. Clinical Psychology Review, Oxford, v. 31, n. 1, p. 169-177, 2011. DOI: 10.1016/j.cpr.2010.10.001.
FOULDS, James A. et al. Depression in patients with alcohol use disorders: systematic review and meta-analysis of outcomes for independent and substance-induced disorders. Journal of Affective Disorders, Amsterdam, v. 185, p. 47-59, 2015. DOI: 10.1016/j.jad.2015.06.024.
GRANT, Sean et al. Clinical interventions for adults with comorbid alcohol use and depressive disorders: a systematic review and network meta-analysis. PLoS Medicine, San Francisco, v. 18, n. 10, e1003822, 2021. DOI: 10.1371/journal.pmed.1003822.
HU, Nan et al. Alcohol consumption and incidence of sleep disorder: a systematic review and meta-analysis of cohort studies. Drug and Alcohol Dependence, Amsterdam, v. 217, 108259, 2020. DOI: 10.1016/j.drugalcdep.2020.108259.
KOOB, George F. et al. Alcohol, the reward system and dependence. In: JANSSON, Bo et al. (ed.). Toward a molecular basis of alcohol use and abuse. Basel: Birkhäuser, 1994. p. 103-114. DOI: 10.1007/978-3-0348-7330-7_11.
LI, Jiande et al. Effect of alcohol use disorders and alcohol intake on the risk of subsequent depressive symptoms: a systematic review and meta-analysis of cohort studies. Addiction, Oxford, v. 115, n. 7, p. 1224-1243, 2020. DOI: 10.1111/add.14935.
MEYREL, Manon; ROLLAND, Benjamin; GEOFFROY, Pierre A. Alterations in circadian rhythms following alcohol use: a systematic review. Progress in Neuro-Psychopharmacology & Biological Psychiatry, Oxford, v. 99, 109831, 2020. DOI: 10.1016/j.pnpbp.2019.109831.
OTTEN, Roy; VAN DER ZWALUW, Carmen S.; ENGELS, Rutger C. Testing bidirectional relationships between alcohol use and depressive symptoms: what is the role of the serotonin transporter gene? Alcohol, New York, v. 66, p. 69-75, 2018. DOI: 10.1016/j.alcohol.2017.08.003.
SKINNER, Burrhus Frederic. Ciência e comportamento humano. Tradução de João Carlos Todorov e Rodolfo Azzi. 11. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Global status report on alcohol and health and treatment of substance use disorders. Geneva: World Health Organization, 2024.
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Adriano Nicolau da Silva, Professor, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Pós-Graduando em Física. Uberaba, MG. Colunista do Factótum Cultural. E-mail: adrins@terra.com.br
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