Entre os rituais mazatecos, a dissociação e uma das experiências psicodélicas mais estranhas conhecidas pela ciência

Existe uma pequena planta mexicana capaz de produzir uma das experiências psicoativas mais incomuns já estudadas pela ciência.

Seu nome é Salvia divinorum.

Ela pertence à mesma família botânica da sálvia utilizada na culinária, mas a semelhança praticamente termina aí.

Enquanto muitos psicodélicos conhecidos atuam principalmente sobre o sistema serotoninérgico, a Salvia possui como principal composto psicoativo a salvinorina A, uma substância que ativa fortemente os chamados receptores opioides kappa.

E é justamente aí que começa a estranheza.

Uma planta com uma história muito antiga

A Salvia divinorum é nativa de uma região do estado mexicano de Oaxaca e possui uma longa história de utilização tradicional entre os povos mazatecos.

As folhas eram utilizadas em contextos medicinais, religiosos e de adivinhação. A planta era conhecida por seu potencial de produzir estados alterados de consciência e experiências consideradas espiritualmente significativas.

Portanto, muito antes de entrar na cultura psicodélica contemporânea, a planta já fazia parte de uma cosmologia na qual a alteração da consciência podia ter função ritual.

Aqui aparece uma questão antropológica fascinante:

a experiência psicodélica existe apenas dentro do cérebro ou também dentro da cultura que fornece significado para aquilo que acontece?

O estranho caso da salvinorina A

A salvinorina A é uma molécula bastante peculiar.

Ela não contém nitrogênio, algo incomum entre os principais compostos psicoativos conhecidos, e não exerce seu efeito por meio do receptor serotoninérgico 5-HT2A, que desempenha papel central nos efeitos de substâncias como LSD e psilocibina.

Seu principal alvo conhecido é o receptor opioide kappa.

Isso faz da Salvia uma espécie de “intrusa” na família dos psicodélicos.

Ela chega à festa por outra porta.

E o que acontece com a consciência?

As experiências podem ser extremamente intensas.

Estudos com seres humanos encontraram alterações profundas na percepção, dissociação, mudanças na sensação corporal e espacial, fenômenos visuais e auditivos e uma espécie de desligamento da realidade externa.

Alguns participantes relatam perder temporariamente a sensação de possuir um corpo.

Outros descrevem mudanças radicais na orientação espacial, sensação de serem transportados para outro lugar, transformação do ambiente e encontros com figuras ou “entidades”.

Há também relatos curiosos de memórias, ambientes recorrentes e imagens com características quase oníricas.

É uma experiência difícil de colocar em palavras porque não se trata simplesmente de “ver coisas”.

É uma alteração da própria estrutura pela qual a pessoa percebe onde está, quem é e o que está acontecendo.

Não é simplesmente uma versão da maconha ou do LSD

Essa comparação costuma gerar confusão.

A experiência produzida pela Salvia possui características predominantemente dissociativas, e sua farmacologia é radicalmente diferente daquela dos psicodélicos serotoninérgicos clássicos.

Por isso, descrevê-la simplesmente como “um alucinógeno” é correto, mas insuficiente.

O fenômeno envolve percepção, consciência corporal, orientação espacial, memória e sensação de identidade.

É quase como se o cérebro temporariamente perdesse algumas das peças utilizadas para montar aquilo que chamamos de realidade.

Uma viagem curta, mas não necessariamente pequena

Quando a salvinorina A é inalada, os efeitos podem surgir rapidamente e desaparecer relativamente rápido.

Em estudos controlados, os efeitos subjetivos atingiram o pico aproximadamente dois minutos após a administração e, em geral, já não eram claramente perceptíveis por volta de 20 minutos.

Isso não significa, entretanto, que a experiência seja “leve”.

Pelo contrário.

A intensidade subjetiva pode ser enorme.

A duração de uma experiência não determina sua profundidade.

Uma tempestade pode durar quinze minutos e ainda assim reorganizar uma paisagem inteira.

Por que ela é tão interessante para a ciência?

Porque a Salvia oferece aos pesquisadores uma oportunidade rara.

Ela permite investigar como o sistema opioide kappa participa da percepção, da consciência corporal, do humor e da experiência subjetiva.

Pesquisas recentes continuam investigando a salvinorina A e seus análogos para compreender mecanismos relacionados à dor, dependência, depressão e outros fenômenos neuropsiquiátricos. Entretanto, grande parte desse potencial terapêutico ainda está no campo experimental e pré-clínico.

Ou seja:

não temos uma nova medicina pronta.

Temos uma molécula extraordinária que pode ajudar a compreender mecanismos extraordinários do cérebro.

A Salvia mostra outra realidade?

Aqui entramos no território onde ciência e filosofia começam a se encarar.

Algumas pessoas interpretam as experiências com Salvia como acesso a dimensões espirituais ou realidades independentes da mente.

A ciência não possui evidência suficiente para afirmar isso.

Mas existe uma questão igualmente importante:

também não devemos confundir a explicação neurobiológica da experiência com a explicação de seu significado.

Dizer que uma experiência possui uma causa cerebral não determina automaticamente aquilo que ela significa para quem a viveu.

Uma experiência religiosa também acontece em um cérebro.

Uma paixão também.

Uma obra de arte também.

Nem por isso reduzimos necessariamente seu significado à atividade neuronal que a acompanha.

Talvez a pergunta mais interessante seja outra

A Salvia não precisa ser uma porta dimensional para ser fascinante.

Talvez seu verdadeiro valor esteja justamente em mostrar que aquilo que chamamos de realidade é uma construção extraordinariamente delicada.

Basta alterar um determinado sistema molecular e, por alguns minutos, o corpo pode deixar de parecer nosso.

O espaço pode perder sua estabilidade.

O mundo pode deixar de parecer familiar.

E o próprio “eu” pode se tornar uma coisa estranha.

Talvez seja por isso que a Salvia divinorum seja tão interessante.

Ela não nos mostra necessariamente outro mundo.

Ela nos mostra que o mundo que experimentamos todos os dias depende de mecanismos que normalmente permanecem invisíveis.

E isso já é suficientemente desconcertante.

Talvez a planta não abra uma porta para outra realidade.

Talvez ela apenas nos faça perceber que a porta sempre esteve dentro da nossa própria percepção.

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✍️ Editores do Factótum Cultural

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