O que uma fazenda, um filme, Um Ritual e os animais me ensinaram sobre consciência

Há alguns dias, passei um tempo em uma fazenda.

Entre cavalos, vacas, bezerros, carneiros, cães e gatos, aconteceu algo curioso: não consegui enxergar apenas animais. Vi indivíduos.

Um bezerro aproximava-se com curiosidade. Um cavalo observava cada movimento com uma serenidade quase desconcertante. As vacas permaneciam atentas aos filhotes. As ovelhas caminhavam juntas, mas cada uma parecia carregar sua própria personalidade. Um cachorro mantinha certa desconfiança, como quem ainda avaliava minhas intenções. Já um gato ignorava qualquer protocolo e aproximava-se apenas em busca de um bom chamego.

Enquanto contemplava aquela cena, lembrei-me de uma palestra a que havia assistido algumas semanas antes, durante uma semana pedagógica para professores da instituição onde leciono. Um professor, respeitado e repleto de títulos acadêmicos, afirmou que os animais não são conscientes. Segundo ele, merecem proteção e cuidado, mas não podem ser sujeitos de direitos.

A frase ficou ecoando na minha mente.

Será?

Talvez a pergunta mais importante seja outra.

O que significa, afinal, ser consciente?

Costumamos associar consciência à linguagem, à razão abstrata e à capacidade de construir uma narrativa sobre quem somos. Mas talvez estejamos confundindo consciência com autobiografia.

Consciência, em seu sentido mais simples, talvez seja apenas isto: ter ciência de si e do mundo que nos cerca.

É perceber.

É sentir.

É experimentar a existência.

Se for assim, os animais não apenas possuem consciência. Eles vivem mergulhados nela.

Talvez não contem histórias sobre o passado nem façam planos para o futuro como nós. Não escrevem livros, não discutem filosofia nem criam religiões. …E, até onde sabemos, também não pagam boletos nem vivem preocupados com a segunda-feira. Mas sentem medo, alegria, dor, afeto, curiosidade e segurança.

Vivem o presente.

E isso me levou a uma pergunta incômoda.

Será que os animais não são conscientes…

…ou apenas não falam a nossa língua?

Porque, sejamos honestos, se uma vaca pudesse conversar conosco, se um cavalo escrevesse poemas ou se uma ovelha explicasse seus sentimentos, alguém ainda ousaria dizer que lhes falta consciência?

Talvez o problema nunca tenha sido a consciência deles.

Talvez tenha sido a nossa dificuldade de enxergá-la.

Essa reflexão ganhou ainda mais força quando conheci a história do filme As Ovelhas Detetives. Aliás, fica a recomendação: vale muito a pena assisti-lo, não apenas pelo mistério, mas pela delicada reflexão que faz sobre a forma como enxergamos os animais.

Na trama, um pastor lê romances policiais para suas ovelhas todas as noites, acreditando que elas não entendem absolutamente nada. Quando ele é assassinado, porém, são justamente as ovelhas que passam a investigar o crime.

É uma fábula.

Mas toda boa fábula faz uma pergunta que a realidade evita.

E se os animais compreendessem muito mais do que imaginamos?

Talvez lhes falte apenas uma linguagem que consigamos entender.

Dias depois dessa reflexão, lembrei de uma experiência profundamente pessoal.

Durante uma cerimônia com ayahuasca, olhei para um pelego de carneiro e o abracei.

Não tive uma visão sobrenatural.

Tive uma sensação.

Uma gratidão imensa. Um amor profundo.

Não porque imaginei que aquele animal tivesse escolhido morrer por mim. Não foi isso.

O que senti foi algo muito mais profundo.

Percebi que minha vida, como a de qualquer ser vivo, é sustentada pela vida de outros seres.

Tudo vive porque algo se transforma.

Naquele instante, o pelego deixou de ser um objeto.

Era a lembrança silenciosa de uma vida que existiu.

Não senti culpa.

Senti responsabilidade.

Desde então, nunca mais consegui olhar para um animal da mesma forma.

Talvez por isso, outra inquietação passou a fazer ainda mais sentido. Ao longo dos últimos anos, tenho visto pessoas tratarem animais com carinho, mas também presenciado situações de crueldade e indiferença, até mesmo contra cães e gatos, que sequer representam qualquer interesse econômico. Isso me fez perceber que o problema não é o dinheiro. É a forma como escolhemos enxergar a vida.

Lembrei-me, então, de uma frase de Plutarch, escrita há quase dois mil anos:

“Por um pequeno pedaço de carne, privamos uma criatura do sol, da luz e do tempo de vida a que ela tinha direito.”

Independentemente das escolhas alimentares de cada um, a frase nos obriga a recordar algo que costumamos esquecer:

Antes da carne…

…havia uma vida.

Foi então que outra frase veio à minha memória:

“Se os animais tivessem uma religião, o homem seria o diabo.”

É uma frase dura.

Quase cruel.

Mas talvez sua intenção nunca tenha sido ofender a humanidade.

Talvez tenha sido apenas inverter a perspectiva.

Se uma vaca pudesse escrever sua história, como descreveria os currais e os frigoríficos?

Se um porco escrevesse um livro sagrado, quem seriam seus demônios?

Se uma ovelha julgasse nossa espécie, veria em nós protetores… ou predadores?

Essas perguntas não existem para produzir culpa.

Existem para despertar consciência.

Porque a mesma espécie que escreve poemas, descobre vacinas, contempla galáxias e sonha com outros mundos também é capaz de transformar bilhões de vidas sencientes em números de produção.

Talvez a grandeza humana não esteja apenas na inteligência.

Talvez esteja na capacidade de ampliar o círculo da compaixão.

No fim das contas, talvez a pergunta nunca tenha sido se os animais são conscientes.

Talvez a verdadeira pergunta seja:

Quando foi que deixamos de perceber que eles também experimentam o mundo?

Acredito que evoluir não seja apenas acumular conhecimento.

É ampliar a capacidade de reconhecer a vida onde antes víamos apenas utilidade.

No dia em que olharmos para um cavalo, uma vaca, um carneiro, um bezerro, um cachorro, um gato ou qualquer outro ser vivo e enxergarmos não uma coisa, mas alguém vivendo sua própria experiência da existência, talvez tenhamos dado um dos passos mais importantes da nossa própria humanidade.

Porque, no fundo, talvez exista apenas uma grande comunidade chamada vida.

E todos nós, humanos ou não, pertencemos a ela. 🌿

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Neemias Moretti Prudente é escritor.

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