Outro dia me deparei com uma imagem do budismo tibetano chamada Roda de Samsara. Segundo a tradição, ela representa o ciclo interminável de nascimento, morte e renascimento. Um eterno retorno onde os seres ficam girando entre desejos, sofrimentos, ilusões e novas oportunidades de aprendizado.

Olhei para a imagem por alguns segundos e tive uma revelação espiritual.

Aquilo não era uma representação do universo.

Era uma representação da minha segunda-feira.

Acordar. Trabalhar. Reclamar. Tomar café. Resolver problemas. Criar expectativas. Frustrar expectativas. Fazer planos. Adiar planos. Dormir. Repetir.

Se existe uma roda cósmica girando sobre nossas cabeças, ela certamente possui um departamento responsável pelos boletos.

O curioso é que muitas pessoas imaginam que a prisão está do lado de fora. Culpa do governo, do chefe, do vizinho, da economia, do clima, de Mercúrio retrógrado ou da conspiração intergaláctica da semana. Mas os budistas parecem sugerir algo mais desconfortável: a verdadeira roda está dentro da nossa cabeça.

Foi uma notícia decepcionante.

Sempre achei mais elegante culpar o universo.

Segundo a tradição budista, o centro da roda é movido por três forças: ignorância, apego e aversão. Traduzindo para o português contemporâneo, seria algo como: não sabemos direito o que estamos fazendo, queremos desesperadamente aquilo que não temos e reclamamos daquilo que temos.

Pensando bem, talvez os tibetanos conhecessem as redes sociais séculos antes de elas serem inventadas.

Passamos boa parte da vida correndo atrás de algo que acreditamos que finalmente nos fará felizes. Um novo emprego. Um novo relacionamento. Um carro novo. Uma casa nova. Um celular novo. Uma versão nova de nós mesmos.

Quando conseguimos, a felicidade dura aproximadamente o mesmo tempo que uma bateria de celular esquecida fora da tomada.

Então voltamos para a corrida.

Mais uma volta na roda.

O mais engraçado é que ninguém nos obriga. Não existe um carcereiro cósmico apontando uma arma metafísica para nossas cabeças. Em muitos casos, somos simultaneamente o prisioneiro, o guarda e o arquiteto da prisão.

Construímos as grades durante o dia e reclamamos delas à noite.

Talvez por isso as tradições espirituais insistam tanto na palavra “despertar“. Não porque exista um segredo oculto escondido em alguma montanha sagrada, mas porque passamos boa parte da vida funcionando no piloto automático.

Acordamos sem acordar.

Vivemos sem perceber.

Corremos sem perguntar para onde estamos indo.

E um dia descobrimos que demos milhares de voltas em torno do mesmo lugar.

Não sei se acredito literalmente em reencarnação. Não tenho como provar. Mas confesso que às vezes me pergunto se não reencarnamos várias vezes dentro da mesma vida.

O adolescente que fui morreu.

O jovem idealista morreu.

O servidor público que fui morreu.

O homem que enfrentou crises, perdas e recomeços também morreu algumas vezes.

E, no entanto, algo permaneceu observando tudo.

Talvez seja essa a verdadeira saída da roda.

Não fugir do mundo.

Não abandonar os boletos.

Não se tornar um monge nas montanhas.

Mas perceber quem é aquele que observa enquanto a roda gira.

Porque a vida continua girando. Os problemas continuam chegando. Os boletos continuam vencendo. Os grupos de família continuam enviando mensagens às seis da manhã.

Mas quando a consciência desperta, algo curioso acontece.

A roda continua girando.

Só que você para de girar junto.

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E não se esqueça: Sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

Neemias Moretti Prudente é escritor entre mundos!

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