Por Ecos do Mundo

A busca por uma nova direção, a necessidade de respirar com consciência e o mergulho interior como único caminho.
Vou te falar sobre paz. Mas antes preciso falar sobre dinheiro.
Que o sistema não quer te ver inteiro, você já deve estar cansada(o) de ouvir… e é até uma matemática fácil de entender: um ser humano pleno, conectado consigo mesmo, consome menos. E isso é um problema para quem lucra com os seus vazios.
A máquina registradora fica cheia quando nos distrai do lado de fora: comparando a vida real com a fantasia das redes sociais, consumindo, correndo atrás de uma versão melhor de você, que parece que só vai existir quando adquirir mais e quando chegar “lá” (mas onde raios é esse “lá”? Não importa, segue a boiada que a boiada está indo para “lá”). Aí, sim, o mecanismo está funcionando na sua melhor forma.

Sua insatisfação não é um acaso. É o produto. É exatamente o impulso que te faz consumir. Ou seja: vazio vende. Desconexão movimenta o caixa. Como mais posso te falar? Ansiedade fatura milhões! Até peço licença nesse breve momento para convidar a Anitta rapidinho aqui para esses nossos dois minutos de prosa. É porque a danada “chegou lá”. Lá… nesse tal lugar que a maioria das pessoas diz que mora o “sucesso” como destino final e um baú com moedas douradas. E disse, sem romantismo: “Não importava o sucesso que eu fizesse, nada preenchia esse vazio. Esse vazio estava dentro, não fora. E eu tentava preenchê-lo com coisas de fora.”
Pois é, Anitta. A gente passa mesmo uma vida achando que só vai ser completo quando possuir isso ou aquilo. Quase tudo fora, pouca coisa dentro. Obrigada por ir até lá e voltar para nos contar. Se não… perigava a gente continuar esgarçando os nossos limites físicos, mentais e espirituais na promessa das conquistas, desse “sucesso industrializado”.
Se Anitta, que foi aonde foi, voltou para contar que não tem nada ali, então, meus amigos, é hora de dar meia volta e buscar nova direção. O problema é que o mercado já percebeu essa debandada de “volta para a casa”, e não é de agora. Burnout. Exaustão. Depressão. Crise profunda de desconexão e cada vez mais gente se questionando: “Tem alguma coisa errada… isso não está fazendo sentido.” O mercado percebeu que saúde mental virou a maior crise do século. E fez o que sempre faz: trocou de roupa, vestiu a fantasia do mindfulness e voltou vendendo as (mesmas velhas) “soluções” para o problema que ele mesmo criou.

Um mercado inteiro lucrando muitas moedas vendendo o ideal de espiritualidade. A estética do autoconhecimento foi precificada, embalada e colocada na vitrine. Como se o acesso à paz interior fosse mais um privilégio de quem pode PAGAR por ele. E o mais perverso: continuamos consumindo do lado de fora o que só existe do lado de dentro. Continuamos reproduzindo o sistema que nos adoeceu, na esperança de agora ele nos salvar. Só mudamos o objeto do consumo. Só trocamos o figurino.
Retirar-se do mundo por alguns dias, mudar o cenário, ter novos estímulos num lugar paradisíaco pode ser realmente um baita incentivo para sair de cena um pouco, mudar a rotina e fazer mergulhos mais profundos quando preciso. Isso tem seu valor. Não estou dizendo o contrário. Trocar experiências e vivências com pessoas que podem te ajudar a olhar por novos ângulos — isso é maravilhoso! Mas veja o ponto: o problema começa quando acreditamos que esse é o ÚNICO caminho. Que, necessariamente, para alcançar a paz, teremos que pagar (e muitas vezes caro) por ela. Que silêncio tem ingresso. Que para viajar para dentro de nós mesmos, precisamos pegar um avião. Não precisamos. E, assim como eu, muita gente descobriu isso da forma menos glamourosa possível.

2020. Lockdown. Meu primeiro filho com 3 meses de vida e o puerpério batendo com tudo. Corpo transformado, identidade em fase de atualização, um medo maior do que todos os outros que já conheci, insegurança com o futuro… Não havia retiro. Não tinha a possibilidade de nenhum cenário paradisíaco além do meu apartamento de 70 m². Não havia nada fora para onde eu pudesse escapar. Era eu, um apartamento fechado, e o silêncio mais barulhento da minha vida. O único caminho possível era mergulhar para dentro. Só eu, aprendendo a não fugir de mim mesma. E foi a descoberta mais importante da minha vida: respirar.
Parar é desobedecer. Meditar é transgredir. Num mundo que mede seu valor pela sua produção, meditar é subversivo. Ir para dentro quando tudo grita para você olhar para fora é um gesto político. É recuperar o único território que ninguém pode te vender de volta porque ele sempre foi seu.
E o que acontece quando você para de verdade?
O sistema nervoso, que passou o dia inteiro em modo de sobrevivência, pronto para reagir, para performar, para não perder nada, começa a soltar. O cortisol cai. A respiração cria uma coerência cardíaca: ritmo, ordem, equilíbrio. E o mais poderoso não é só físico. É principalmente o que aparece quando o barulho diminui. Você começa a ouvir o que estava sendo silenciado. Aquela voz quieta que sabe o que você realmente precisa. Não o que o algoritmo decidiu que você quer. Não o que a vitrine mostrou. O que é seu de verdade.

Isso assusta no começo, assusta mesmo. O silêncio interno costuma ser incômodo quando a gente ainda não foi apresentado a ele. Mas é exatamente esse desconforto que o sistema quer que você evite. É ali que está o que eles não querem que você encontre: a percepção de que você já é suficiente. De que o vazio que te venderam está sendo alimentado por uma máquina supereficiente. E não precisa de uma hora de almofada no chão. Só do tempo que for possível: cinco minutos funcionam. Três minutos funcionam. Uma respiração consciente, feita de propósito, no olho do furacão, funciona.
A meditação não exige que sua vida pare. Ela exige apenas que você apareça, por um instante, para você mesmo. O acesso não depende da roupa que você vai vestir, do lugar paradisíaco, nem do momento perfeito em que a sua vida finalmente permitir. Está disponível agora. Onde você está. Do jeito que você está. E se você, assim como eu, aproveita mais quando alguém te ajuda nesse mergulho: na Aquarius, guio meditações para quem está começando do zero e para quem mais quiser companhia.

O sistema não quer que você descubra o que está do lado de dentro. E esse é o melhor motivo para ir lá. Confia na Anitta.
| Autora convidada – Paula Judice é artista formada em Artes Dramáticas pela CAL (Casa das Artes de Laranjeiras). Netuniana e trabalhadora do subjetivo, dedica-se a dar forma ao que vive oculto da consciência: da terapia através da arte à simbologia dos astros. Estudou astrologia com Claudia Lisboa, Marcia Mattos e Newton Schütz, e foi pupila de Waldemar Falcão por quase dois anos. É fundadora do Planner Astral, projeto que descomplica a astrologia e a traz para a prática do dia a dia. Culpa do Mercúrio conjunto a Vênus no mapa: a voz nasceu afetuosa, e é com ela que conduz suas meditações, convites a uma travessia pelo silêncio. |
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