Small altar with candles, statues, and liquor bottles at a cozy bar
Um pequeno altar com velas e estátuas em um bar brasileiro aconchegante, repleto de iluminação calorosa e clientes.

Ao alcançar a marca dos cinquenta e um anos, encontrei no espelho do tempo o mesmo paradoxo que inquietou Liev Tolstói nesta exata idade: o confronto entre as vaidades humanas, os abismos da existência e a busca inevitável por um sentido que a finitude não possa apagar. O peso dos anos nos coloca diante do absurdo de Albert Camus e sua capital reflexão sobre o suicídio, bem como diante do pregador de Eclesiastes, com sua desilusão para com os valores do mundo e sua insana moralidade. Contudo, em vez de lamento, escolho o pragmatismo poético de Cícero e a loucura lúcida de Dom Quixote — aventurar-se com uma carcaça cansada, mas com disposição para criar mundos imagináveis.

Este texto é um manifesto de reconciliação com o meu próprio percurso. Olhar para trás é enxergar uma colcha de retalhos moldada pelo trabalho, pelo estudo e por frentes tão distintas quanto os dias de garçom, balconista, vendedor de picolé e moleque de rua, que mais tarde se transformaram nos caminhos de militante político, policial, professor e padre, além das vivências na Umbanda e no Evangelho protestante. Não há espaço para o arrependimento onde o tempo já estendeu seu manto santo, concedendo bênçãos e perdões para um espírito confuso, mas autêntico. Um espírito que viveu e vive cercado de nobres amigos que desfrutam do mesmo sentimento: a filosofia de boteco, aquela que despesa monólogos professorais.

Entre o balcão e o silêncio das memórias, festejo um passado de histórias que os deuses e os melhores amigos testemunham. Deixo a pressa com a juventude, que tem sede do agora, e recebo o abraço charmoso do tempo. Sigo ciente de que viver é, acima de tudo, a teimosia de saborear até o último gole da vida — seja nos templos sagrados, nos balcões sujos ou nos copos assépticos.

Uma poesia botequia..

Uma poesia para o momento…

Cinquenta e um invernos no espelho.
A exata idade em que Tolstói sentou-se à mesa,
Com a lâmina do fim tocando o pescoço,
Pesando o luxo, o desencanto e a realeza.
Na mão do mestre, o fio que a vida tece;
Na mente, a sombra que o vazio traz.
“Que sentido há”, ele assim padece,
“Que a própria morte não desfaça em pó?”

É a velha dor de quem amou demais o mundo:
Saber que o tempo é um carrasco lento.
Camus enxergou esse poço fundo,
O suicídio como o único questionamento.
E o pregador de Eclesiastes clama,
Farto de ouro, gozo e vaidade:
Se o corpo é cinza e a juventude é flama,
Resta render-se à divindade,
Como um consolo para não satisfazer
A alma humana que clama por prazer.

Mas não serei feito de lamentos,
Nem das esperanças que o herdeiro cria.
Cícero ensina a modular os ventos,
Viver do agora a sutil centelha fria.
Por isso, renego as cartilhas e os conselhos vãos:
Meu templo será o balcão de um boteco,
Onde abrigo as verdades que me cabem nas mãos.

Vou me embriagar da seiva que nunca sacia,
Dedicar minha verve aos prazeres do copo,
Mesmo sob o protesto daqueles que tanto amo.
Sei que sofrerão, mas um dia, na minha ausência,
Vão me abençoar com o seu perdão,
Já que sou feito de sonho e liberdade — um cervantino.

Sei que a aurora trará o peso da ressaca,
O corpo cobrando o preço do excesso.
Mas restará a certeza do erro exato, do pacto feito,
A calmaria de quem viveu o que quis,
Fazendo do instante presente só mais um pouco de vida.

Contemplo a história que cruzou mundos:
Fui padre, policial, professor, umbandista, evangélico…
Quem me dera o Charles do passado pudesse aqui sentar
Para uma prosa filosófica e franca.
Dividir a mesa com o rapaz que fui,
Celebrar as lutas e as dores antigas.
Houve o peso bruto da renúncia,
O suor do estudo e do trabalho pesado.
Mas recuso o arrependimento.
O que foi duro virou memória,
E o tempo estende sobre ela suas asas santas,
Aquietando o pranto para dar lugar às histórias.

Histórias em que tive na minha mãe o maior exemplo:
Professora de vida, parceira de glórias,
Que nunca negligenciou o estímulo de que podemos mais,
Mostrando que o estudo seria o aceno para ser gente.

A memória não é um baú feito apenas de cinzas,
Ela guarda também o ouro das vivências raras.
Por isso, entre um gole e outro deste aniversário,
Ergo o copo e saúdo os que já partiram.
Sei que a viagem é de ida e o reencontro é certo,
Para repetirmos, no tempo devido, novas doses etílicas.
Espero visitá-los para novos risos,
Ganhando de volta os abraços de menino.

Diferente de Tolstói, não peço a juventude eterna.
Deixo que os anos sigam seu compasso.
A mocidade teve sua glória e sua pressa,
mas a velhice me saúda com o charme do seu abraço:
Mais longo, cansado, mas afetuoso.

Por último, busco em Dom Quixote as minhas armas:
viver o sonho impossível, marchar contra o vento,
Arriscar na ideia de que existir é guerrear
Contra os encantadores que tramam nossa derrota.
Eu, no afã maduro da minha vaidade,
Deixo a mim mesmo os sinceros parabéns.
Felicidades, meu amigo Charles.
Não deixe de saborear o último gole desta aguardente,
O elixir humano que te faz eterno no instante passageiro.
E nunca desista de algo novo,
Mesmo que pareça longínquo e impossível.

📝 Não deixe de ler nosso artigo anterior:


Charles Santiago, escritor da Factótum Cultural e professor de filosofia e sociologia.

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