Escrever Para Não Enlouquecer – Por Neemias

Existe uma metáfora bastante conhecida chamada Teoria da Estação de Trem.
Segundo ela, a vida seria uma grande viagem ferroviária. Pessoas entram e saem dos vagões o tempo todo. Algumas permanecem apenas algumas paradas. Outras seguem conosco por muitos quilômetros. E há aquelas raras almas que parecem ter comprado uma passagem quase tão longa quanto a nossa.
Bonito.
Poético.
Inspirador.
Também é uma das formas mais elegantes já criadas para dizer uma verdade que o ser humano passa a vida inteira tentando ignorar: ninguém é obrigado a ficar.
O problema é que nós embarcamos nessa viagem acreditando exatamente no contrário.
Conhecemos alguém na estação e, cinco minutos depois, já estamos decorando o vagão. Dez minutos depois estamos escolhendo as cortinas. Vinte minutos depois estamos planejando envelhecer juntos observando vacas pela janela do trem.
Então a pessoa desce na próxima parada.
E nós ficamos olhando pela janela com a mesma expressão de quem acabou de descobrir que o universo não consultou nossos planos antes de seguir funcionando.
A verdade é que somos péssimos passageiros.
Queremos transformar encontros em contratos vitalícios.
Uma amizade agradável vira uma expectativa.
Um namoro vira um projeto de eternidade.
Um emprego vira identidade.
Um cargo vira propósito de vida.
Até nossos problemas, quando permanecem tempo suficiente, ganham status de familiares. Tem gente que reclama da ansiedade há tanto tempo que, se ela desaparecesse, provavelmente registraria boletim de ocorrência.
Sentimos dificuldade em aceitar que tudo está em movimento.
As pessoas mudam.
Os sonhos mudam.
As opiniões mudam.
Até as músicas que um dia juramos amar para sempre acabam virando trilha sonora de supermercado.
Mas existe algo curioso sobre as partidas.
Quando alguém deixa nosso vagão, quase sempre prestamos atenção apenas no vazio que ficou. Raramente observamos aquilo que foi deixado para trás.
Um conselho.
Uma memória.
Uma lição.
Uma cicatriz.
Uma nova forma de enxergar o mundo.
Talvez o grande erro não seja sofrer pelas despedidas. Isso é inevitável. O erro é acreditar que a utilidade de alguém em nossa vida depende do tempo que permaneceu nela.
Algumas pessoas ficam vinte anos e não nos transformam em nada.
Outras aparecem durante três meses e mudam completamente nossa trajetória.
A alma não usa relógio.
Ela usa profundidade.
Com a idade, comecei a suspeitar que a verdadeira sabedoria não está em impedir que os trens partam.
Está em aprender a acenar.
Sem drama.
Sem perseguição pelos trilhos.
Sem tentar convencer o maquinista a voltar porque você ainda tinha coisas importantes para dizer.
A vida segue.
Novos passageiros chegam.
Novas paisagens aparecem pela janela.
Novas histórias começam.
E, se tivermos sorte, aprenderemos algo que a Teoria da Estação de Trem tenta nos ensinar desde o início:
não fomos colocados nesta viagem para possuir pessoas.
Fomos colocados aqui para compartilhar trechos do caminho.
Alguns duram uma estação.
Outros duram décadas.
Mas todos deixam marcas.
Inclusive nós.
Porque, enquanto estamos preocupados com quem entrou ou saiu do nosso vagão, esquecemos de um detalhe importante:
também somos passageiros na viagem de alguém.
E talvez, neste exato momento, exista uma pessoa lembrando de nós com carinho, gratidão ou saudade.
Ou reclamando de nós.
O que, convenhamos, também é uma forma de permanência.
Por fim, talvez a vida seja mais sábia do que imaginamos. Enquanto insistimos em entender por que algumas pessoas partiram cedo demais ou por que outras permaneceram tanto tempo, esquecemos que cada encontro carrega um propósito. Há pessoas que chegam para nos acolher, outras para nos desafiar, algumas para caminhar ao nosso lado por muitos anos e outras apenas por algumas estações. Mas, olhando para trás, percebemos que quase nunca estiveram ali por acaso. A vida tem esse curioso talento de colocar as pessoas certas no lugar certo e no momento certo, mesmo quando só entendemos isso muito depois que o trem já seguiu viagem. 🚂✨
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Deus Toma Partido?
E não se esqueça: Sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor.





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