Compreenda o que é Brahman: não é sutil nem grosseiro; não é curto nem longo; não tem nascimento nem mudança; não tem forma, qualidades e nem cor.” (ŚAṄKARĀCĀRYA. Atmabodha. Verso 60).

O comentário desse verso afirma que ele convida todo buscador sincero a abandonar suas projeções mentais e a repousar no reconhecimento de Brahman como a consciência sempre presente e ilimitada que subjaz toda a existência.

Confesso que esse ensinamento ficou ecoando em minha mente durante dias.

Talvez porque a pergunta sobre Deus, e a busca por Ele, nunca me abandonaram.

Há uma frase de Bertrand Russell que me acompanha há muitos anos:

Três paixões, simples mas irresistivelmente fortes, governam minha vida: o desejo imenso de amar, a procura do conhecimento e a insuportável compaixão pelo sofrimento da humanidade.”

Se eu tivesse que resumir minha jornada, talvez fosse isso.

Amar.

Conhecer (e autoconhecer-se).

E tentar compreender por que sofremos.

Talvez seja justamente por isso que a reflexão proposta pelo Advaita Vedanta me fascine tanto.

Nessa antiga tradição filosófica da Índia, Deus não é um ser sentado em algum lugar do universo observando a humanidade. Não julga, não pune, não recompensa e não toma partido.

A primeira reação costuma ser de estranhamento.

Se Deus não toma partido, então de que lado Ele está?

A resposta do Advaita é surpreendente:

De lado nenhum.

Porque Deus não seria um personagem dentro da história.

Seria a própria realidade onde a história acontece.

Imagine o oceano.

As ondas nascem, crescem, colidem e desaparecem. Algumas são gigantescas. Outras quase invisíveis. Algumas parecem lutar umas contra as outras.

Mas nenhuma delas está separada do oceano.

Talvez nós sejamos as ondas.

E Deus, o oceano.

Outra imagem me marcou.

Quando assistimos a um filme, choramos pelos personagens, vibramos com os heróis e odiamos os vilões. No entanto, quase nunca prestamos atenção na tela.

Sem ela, porém, nada existiria.

Os personagens mudam.

A história muda.

A tela permanece.

Talvez Deus seja essa presença silenciosa sustentando tudo.

Confesso que essa visão me atrai e me incomoda ao mesmo tempo.

Ela me atrai porque explica por que tantas tradições espirituais falam de unidade, consciência e conexão.

Mas também me incomoda.

Porque ao longo da vida senti algo que parecia mais do que uma simples consciência neutra.

Senti amor.

Senti direção.

Senti uma inteligência misteriosa operando por trás de coincidências improváveis, encontros inesperados e momentos de profunda transformação.

Talvez por isso eu ainda não consiga acreditar em um Deus completamente indiferente.

Por outro lado, também não consigo ignorar uma pergunta que acompanha a humanidade desde sempre:

Se Deus toma partido do bem, por que existe tanto sofrimento?

Por que crianças adoecem?

Por que pessoas boas sofrem?

Por que tantas injustiças parecem permanecer sem resposta?

Quanto mais estudo filosofia, religião, psicologia e espiritualidade, menos respostas prontas encontro.

E talvez isso não seja uma derrota.

Talvez seja maturidade.

Os fanáticos costumam ter respostas para tudo.

Os buscadores aprendem a conviver com os mistérios.

Hoje não sei se o fundamento da realidade é apenas consciência ou consciência e amor.

Não sei se Deus observa a existência ou participa dela.

Não sei se somos ondas separadas ou o próprio oceano esquecendo temporariamente sua natureza.

Mas continuo acreditando que existe algo extraordinário por trás do véu das aparências.

E continuo sendo movido pelas mesmas três paixões de Russell:

O desejo de amar.

A busca pelo conhecimento.

E a compaixão pelo sofrimento humano.

Talvez seja justamente nesse encontro entre amor, conhecimento e compaixão que a presença de Deus se torne mais perceptível.

Não como uma resposta definitiva.

Mas como um mistério que vale a pena ser vivido.

📖 E não deixe de ler nosso conteúdo anterior:

E não se esqueça: Sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

Neemias Moretti Prudente é escritor.

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