Olha o Barco da Criminologia passando…

Tenho a impressão de que a criminologia sofre de um problema curioso: ela pensa demais.

E pensar, convenhamos, nunca foi uma atividade muito popular em certos ambientes.

Outro dia alguém me disse, com a segurança de quem já resolveu metade dos problemas da humanidade:

— Criminologia é interessante… mas não serve para muita coisa.

Pedi que desenvolvesse a tese.

— Não cai na OAB.

Pronto. Argumento definitivo. Caso encerrado. Arquivem Lombroso, esqueçam Durkheim, devolvam Foucault à estante e tragam os códigos.

Mas a frase ficou ecoando na minha cabeça.

E eu comecei a imaginar um barco.

Nada sofisticado. Um barco simples, desses que atravessam rios grandes carregando gente, sacolas de mercado, histórias e uma ou outra galinha dentro de caixa de papelão.

No casco estaria escrito: Barco da Criminologia.

E ali dentro não viajariam apenas juristas.

Estariam também sociólogos, psicólogos, filósofos, economistas, antropólogos, jornalistas e talvez até aquele tio do churrasco que sempre tem uma teoria pronta sobre “como resolver o problema da criminalidade em cinco minutos”.

Porque o crime, gostemos ou não, é apenas uma parte da história.

A criminologia também observa o criminoso, a vítima, o sistema penal, a polícia, as prisões, a mídia, as políticas de segurança e aquele curioso fenômeno social que faz certas condutas virarem crime enquanto outras — igualmente destrutivas — recebem nomes mais elegantes.

Enquanto o jurista tradicional pergunta:

— Qual é o artigo?

O criminólogo costuma perguntar algo um pouco mais desconfortável:

— Como chegamos até aqui?

De repente, o rio fica mais largo.

Porque o crime não nasce dentro do Código Penal.

O Código Penal e de Processo Penal chega depois, de terno e gravata, tentando organizar a bagunça.

O crime nasce em lugares muito mais complexos: nas desigualdades, nos conflitos internos e sociais, nas estruturas de poder, nos medos coletivos e nas histórias que a própria sociedade conta para explicar seus monstros.

Talvez por isso a criminologia não seja muito popular em certos ambientes jurídicos.

Ela faz perguntas demais.

E perguntas têm um problema grave: fazem pensar.

Pensar exige tempo. Exige dúvida. Às vezes exige até rever certezas.

Decorar artigo é muito mais rápido.

Por isso imagino que o Barco da Criminologia navegaria meio vazio em muitos lugares.

A maioria das pessoas prefere ficar na margem da lei, com o código na mão e a confortável impressão de que o mundo é simples.

Mas quem decide embarcar nessa travessia descobre algo curioso.

O crime diz menos sobre monstros isolados…

e muito mais sobre o tipo de sociedade que construímos – ou queremos construir (Vai que alguém acorda!).

No fim das contas, o Barco da Criminologia não navega apenas atrás do crime.

Ele navega pelo rio inteiro da vida social.

E talvez seja justamente por isso que tanta gente prefira ficar na margem.

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✍️ Neemias, Professor de Criminologia e Editor do Factótum Cultural.

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