Por Criminologia PopY

Imagine uma criança ouvindo desde cedo:
“Você não presta.”
“Você é problema.”
“Vai acabar preso.”
“Marginalzinho.”
Agora imagine essa mesma criança crescendo dentro desse espelho quebrado.
Uma hora ela olha para si mesma e pensa:
“Talvez seja isso mesmo que eu sou.”
E aqui começa uma das teorias mais provocadoras da criminologia moderna: o Labeling Approach, também conhecido como Teoria do Etiquetamento ou Rotulação. Uma teoria que praticamente chega na sociedade e diz:
“Talvez o crime não esteja apenas no ato. Talvez esteja também no rótulo.”
O que é o Labeling Approach?
O Labeling Approach surgiu principalmente nos Estados Unidos, nas décadas de 1960 e 1970, influenciado pela sociologia interacionista.
Autores como:
- Howard Becker
- Edwin Lemert
- Erving Goffman
começaram a fazer uma pergunta quase proibida:
“E se o criminoso não nascesse criminoso… mas fosse transformado nisso pela reação social?”
Isso mudou o jogo da criminologia.
Até então, muitos estudos tentavam descobrir:
- por que as pessoas cometem crimes;
- o que há de errado no criminoso;
- qual defeito moral, psicológico ou biológico ele possui.
O Labeling Approach vira a câmera para outro lugar:
“Quem decide quem é criminoso?”
“Por que algumas pessoas são rotuladas e outras não?”
“Quem tem o poder de etiquetar?”
Aqui, o foco sai do crime e vai para a reação da sociedade.
Não existe crime sem reação social
Essa teoria parte de uma ideia desconfortável:
o desvio não é apenas o ato cometido.
o desvio é também a interpretação social sobre o ato.
Em outras palavras:
- duas pessoas podem fazer exatamente a mesma coisa;
- mas apenas uma será chamada de “criminoso”.
E geralmente:
- pobre recebe o rótulo;
- rico recebe “tratamento”;
- favela recebe polícia;
- condomínio recebe advogado.
A criminologia crítica depois mergulharia de cabeça nisso.
O criminoso fabricado pela etiqueta
Edwin Lemert criou uma distinção importantíssima:
Desvio primário
É o ato isolado.
Exemplo:
- um adolescente furta algo;
- alguém usa drogas;
- uma briga;
- um erro pontual.
Isso não define necessariamente a identidade da pessoa.
Desvio secundário
Aqui a coisa fica pesada.
O indivíduo começa a incorporar o rótulo imposto pela sociedade.
Ele deixa de pensar:
“eu cometi um erro”
e passa a pensar:
“eu sou um criminoso.”
A etiqueta vira identidade.
É o momento em que:
- a escola expulsa;
- a família rejeita;
- o mercado não contrata;
- a polícia aborda constantemente;
- a sociedade fecha portas.
O sujeito vai sendo empurrado para o papel que escreveram para ele.
É quase um feitiço social.
Howard Becker e a frase que explodiu a criminologia
Howard Becker escreveu algo revolucionário:
“O desvio não é uma qualidade do ato.
É uma consequência da aplicação de regras e sanções.”
Ou seja:
- o problema não é apenas o comportamento;
- o problema é quem tem poder para definir o que é desviante.
Isso explica muita coisa:
- criminalização da pobreza;
- guerra às drogas;
- perseguições morais;
- histerias coletivas;
- cancelamentos;
- pânicos sociais.
A sociedade escolhe seus “monstros favoritos”. 👁️
O sistema penal seleciona pessoas
O Labeling Approach desmonta uma fantasia muito comum:
“A polícia prende todos os criminosos.”
Não prende.
O sistema penal seleciona.
E normalmente seleciona:
- vulneráveis;
- pobres;
- periféricos;
- estigmatizados;
- pessoas sem poder político ou econômico.
Enquanto isso:
- crimes corporativos;
- crimes ambientais;
- crimes financeiros milionários;
muitas vezes recebem tratamento elegante, silencioso e até institucional.
O menino da periferia vira “bandido”.
O executivo vira “investigado”.
A palavra já entrega tudo.
Prisão: escola do etiquetamento
A prisão muitas vezes funciona como uma fábrica de identidade criminal.
O indivíduo entra:
- assustado;
- perdido;
- talvez recuperável.
Sai:
- rejeitado;
- marcado;
- sem oportunidades;
- conectado ao mundo criminal.
A sociedade coloca uma tatuagem invisível na testa:
“ex-presidiário.”
E depois pergunta:
“Por que ele reincidiu?”
A internet criou o etiquetamento infinito
O Labeling Approach nunca esteve tão atual.
Hoje:
- prints eternizam erros;
- cancelamentos viram execuções públicas;
- algoritmos amplificam humilhações;
- Lista pública;
- Cadastro nacional;
- pessoas são reduzidas ao pior momento da própria vida.
A internet transformou o rótulo em arquivo (cadastro/lista) permanente.
Antes o estigma morria na vizinhança.
Agora ele aparece no Google.
📚 Leitura essencial
Se existe um livro obrigatório para entender essa teoria, é:
Outsiders: Studies in the Sociology of Deviance

Na obra, Howard Becker praticamente desmonta a ideia tradicional de “desvio” e mostra como grupos sociais criam regras, selecionam quem será considerado desviante e fabricam identidades sociais através do estigma.
O livro é quase um raio-x sociológico da frase:
“o problema não é apenas o que você fez… mas quem disseram que você é.”
Mesmo décadas depois, continua absurdamente atual.
Principalmente na era do cancelamento, da hiperexposição digital e do julgamento instantâneo das redes sociais.
Dica de filme
Um filme que conversa profundamente com o Labeling Approach é:
The Outsiders (no Brasil: Vidas Sem Rumo)

Dirigido por Francis Ford Coppola, o filme mostra jovens marginalizados tentando sobreviver dentro de uma sociedade que já os enxergava como delinquentes antes mesmo de qualquer escolha real.
Os “Greasers” carregam o rótulo social de:
- pobres;
- perigosos;
- problemáticos;
- violentos.
Enquanto os “Socs”, ricos e privilegiados, recebem outro tratamento social.
O mais brilhante do filme é justamente isso:
a sociedade já decidiu quem merece empatia… e quem merece suspeita.
O etiquetamento aparece o tempo inteiro:
- na polícia;
- na escola;
- nas relações sociais;
- na violência;
- no olhar coletivo.
E talvez a frase mais dolorosa por trás do filme seja silenciosa:
“Quando o mundo inteiro espera que você seja um monstro… quanto tempo leva até você acreditar?”
E o Direito Penal nisso tudo?
O Labeling Approach não diz que crimes não existem.
Ele não defende impunidade.
O que ele questiona é:
- seletividade;
- estigmatização;
- desigualdade de tratamento;
- produção social da criminalidade.
Ele obriga o Direito Penal a olhar no espelho.
Porque às vezes o sistema não combate violência.
Às vezes ele organiza violência.
A pergunta que ninguém gosta de fazer
Talvez algumas pessoas tenham cometido crimes.
Mas talvez outras tenham sido empurradas para dentro de uma identidade da qual nunca mais conseguiram sair.
E isso muda tudo.
Porque o problema deixa de ser apenas:
“Por que alguém virou criminoso?”
e passa a ser:
“Quem lucra criando criminosos?”
🧩 Não deixe de ler o conteúdo anterior:
✍️ Neemias, Professor de Criminologia.





Deixe um comentário