Escrever Para Não Enlouquecer – Por Neemias

Vivemos uma época curiosa.
Nunca tivemos tanta liberdade… e nunca vimos tanta gente perdida.
É como soltar todo mundo no meio de um deserto e dizer: “Agora você pode ir pra qualquer lado.”
Resultado? A maioria senta na areia, pega o celular e abre o Instagram como se fosse um oásis — mas é só um espelho com filtro.
Antigamente, a vida vinha com manual.
Religião, tradição, família, moral… tudo bem embalado, com instruções claras:
“Faça isso.”
“Não faça aquilo.”
“Seja assim.”
Era pesado? Muito.
Mas pelo menos ninguém precisava pensar tanto. Era quase um GPS existencial: recalculando rota direto, mas sempre mandando você obedecer.
Esse é o primeiro tipo de pessoa: o Camelo.
O Camelo carrega tudo:
- expectativa da família
- regra da sociedade
- culpa que nem sabe de onde veio
Ele vive dizendo:
— “Eu tenho que…”
E vai indo. Aguentando firme.
Se sofrimento desse medalha, o Camelo já estava patrocinado.
Até que um dia… ele cansa.
E quando cansa, ele não vira alguém equilibrado.
Ele vira o Leão.
O Leão é aquele que acorda num belo dia e decide:
— “Não quero mais nada disso.”
Ele questiona tudo.
Destrói tudo.
Desconfia de tudo.
É o especialista em desmontar sentido.
Aqui entra o tal do niilismo — aquele momento em que você percebe que talvez… nada tenha um significado pronto.
E aí vem a parte engraçada (ou trágica, depende do humor do dia):
O Leão sabe dizer “não” pra tudo.
Mas não sabe dizer “sim” pra nada.
Ele fala:
— “Isso é mentira.”
— “Aquilo não presta.”
— “Nada faz sentido.”
E depois… fica parado.
Como quem derrubou a própria casa e agora reclama que está sem teto.
E sejamos honestos:
o mundo hoje está cheio de Leões.
Gente que desconstruiu tudo…
e agora não sabe o que fazer com os pedaços.
É o niilista moderno:
não acredita em nada,
não constrói nada,
mas tem opinião sobre tudo.
É o sujeito que diz:
— “Nada importa.”
Mas sofre profundamente porque, no fundo, queria que importasse.
E é aqui que quase todo mundo trava.
Só que Nietzsche não parou no Leão.
Se ele tivesse parado, seria só mais um pessimista bem articulado.
Ele falou de uma terceira transformação.
A mais difícil.
A mais rara.
A Criança.
A Criança não carrega como o Camelo.
Não destrói como o Leão.
Ela cria.
Simples assim — e absurdamente difícil.
Ela entende que, se o mundo não vem com sentido pronto…
então alguém vai ter que inventar um.
E esse alguém, sinto informar, é você.
A Criança não pergunta:
— “Qual é o sentido da vida?”
Ela decide:
— “Eu vou fazer disso aqui alguma coisa que valha a pena.”
Ela cria valores.
Cria caminhos.
Cria motivos para acordar.
Sem pedir autorização.
Sem esperar aplauso.
Sem terceirizar a própria existência.
E é isso que Nietzsche chamou de Além-do-Homem.
Calma, não é um super-herói de capa nem alguém superior olhando os outros de cima.
É só alguém que saiu do automático.
Alguém que:
- não vive só obedecendo
- não vive só reclamando
- mas assume a responsabilidade de construir a própria vida
Em resumo:
o Camelo obedece,
o Leão nega,
a Criança cria.
E o Além-do-Homem é quem chegou nesse terceiro estágio — ainda errando, ainda caindo, mas criando.
Agora, deixa eu te contar uma coisa sem pose filosófica:
Eu já fui o Camelo.
Carregando peso que nem era meu.
Já virei o Leão.
Quebri tudo por dentro e fiquei olhando o vazio como quem espera que ele peça desculpa.
E sei exatamente como é perigoso parar ali.
Porque o vazio não grita.
Ele convence.
Convence você de que nada vale a pena…
enquanto, no fundo, você só não sabe por onde recomeçar.
O que mudou não foi uma resposta mágica.
Foi começar pequeno.
Quase ridículo de pequeno.
Dar um passo sem certeza.
Criar um motivo simples.
Seguir, às vezes, só porque alguém que eu amo merecia que eu continuasse.
E, aos poucos, você percebe uma coisa curiosa:
o sentido não aparece antes do caminho.
Ele aparece enquanto você anda.
Então, se você está nesse deserto hoje, aqui vai a verdade sem enfeite:
o problema não é que nada faz sentido.
O problema é esperar que ele venha pronto.
O deserto não foi feito para morar.
Nem para postar frase bonita.
Foi feito para atravessar.
E, no meio da travessia,
quase sem perceber,
você deixa de perguntar qual é o sentido da vida…
e começa a dar sentido a ela —
do seu jeito, torto, imperfeito…
mas finalmente seu.
Se essa travessia te cutucou por dentro, se você percebeu que já carregou peso demais, já quebrou tudo e talvez esteja tentando reconstruir, então meu livro “Nietzsche para Todos: Filosofia com Humor para o Dia a Dia” pode ser um bom companheiro de jornada — não para te dar respostas prontas, mas para te ajudar a pensar, rir e, aos poucos, aprender a criar o seu próprio sentido no meio do caos.
📖 E não deixe de ler nosso conteúdo anterior:
E não se esqueça: Sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, professor, filósofo míscômico, psicanalista em formação e editor-chefe do Factótum Cultural.





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