Person manipulated by dark figures using phishing to steal personal data and trust
A person unknowingly falling victim to phishing and data theft schemes

RESUMO: O presente ensaio teórico, fundamentado na Análise do Comportamento, examina a vulnerabilidade a golpes como produto de contingências ambientais específicas, em vez de mera falha moral individual. Propõe-se o conceito de “esfolamento no caráter” como um processo de enfraquecimento progressivo de repertórios de autoproteção sob condições de privação e exposição a reforçamento intermitente. Discute-se o papel do reforço positivo imediato, dos esquemas de razão variável e da baixa sensibilidade à punição na manutenção de práticas fraudulentas, sem reduzir tais comportamentos a diagnósticos psiquiátricos específicos. Por fim, são apresentadas implicações preventivas baseadas em evidências, com ênfase na educação comportamental e na reorganização de contingências sociais protetivas.

Palavras-chave: Análise do Comportamento. Estelionato. Vulnerabilidade social. Reforço intermitente. Prevenção.

1 INTRODUÇÃO

A crescente incidência de fraudes e golpes no contexto contemporâneo, especialmente em ambientes digitais, demanda uma análise que ultrapasse explicações moralizantes ou exclusivamente jurídicas. Sob a perspectiva da Análise do Comportamento, tais práticas podem ser compreendidas como padrões operantes selecionados por contingências específicas de reforçamento.

Na prática clínica, observa-se que indivíduos em condições de vulnerabilidade econômica, emocional ou social apresentam maior probabilidade de responder a estímulos associados a promessas de ganho imediato. Este ensaio tem como objetivo analisar funcionalmente tanto o comportamento fraudulento quanto a suscetibilidade a ele, bem como propor diretrizes preventivas baseadas em evidências.

2 FUNDAMENTOS COMPORTAMENTAIS DO COMPORTAMENTO FRAUDULENTO

O comportamento de aplicar golpes pode ser compreendido como uma classe de respostas mantidas por reforço positivo imediato, tipicamente financeiro, em que as consequências aversivas (como sanções legais) são atrasadas e, muitas vezes, inconsistentes.

A formulação clássica da Lei do Efeito (Thorndike, 1911) estabelece que respostas seguidas de consequências satisfatórias tendem a ser fortalecidas. Esse princípio foi expandido por Skinner (2003), ao demonstrar que o comportamento operante é selecionado por suas consequências imediatas. No contexto do estelionato, o reforço positivo (ganho rápido) supera funcionalmente o impacto de punições tardias, arranjo que favorece a manutenção e a recorrência da prática delituosa.

Embora traços associados ao Transtorno de Personalidade Antissocial (APA, 2023) possam elevar a probabilidade de engajamento em manipulações, a fraude não deve ser reduzida a um diagnóstico clínico; trata-se de um fenômeno multideterminado por variáveis ambientais. Sobre a natureza desse agente, Robert Hare esclarece:

O psicopata não é um indivíduo desorientado ou que perdeu o contato com a realidade; ele não sofre de delírios, alucinações ou da ansiedade intensa que caracteriza outros transtornos mentais. Diferente do indivíduo psicótico, o psicopata é racional, possui plena consciência do que está fazendo e de por que o está fazendo. Seus atos resultam de uma escolha deliberada, livremente exercida. (HARE, 2013, p. 43).

Para Hare, criador do PCL-R — escala diagnóstica de 20 itens para mensuração de traços psicopáticos, esse quadro é marcado por frieza emocional e ausência de remorso. Orientado pela lógica do reforço positivo, o psicopata empenha-se em uma busca obsessiva pelo benefício próprio, reduzindo as vítimas a meros instrumentos funcionais; ele permanece plenamente consciente da natureza e das consequências de suas ações deliberadas.

3 O “ESFOLAMENTO NO CARÁTER” COMO PROCESSO COMPORTAMENTAL

O golpe se consuma quando o agressor percebe a vítima desarmada de seus repertórios defensivos. Frequentemente, esse estado decorre de uma predisposição à generosidade e empatia, características que dificultam a concepção da maldade intrínseca no outro.

Diante de carências financeiras ou afetivas, a vítima pode carecer de repertórios críticos para identificar sinais de perigo. Ao ser exposta a promessas de ganho fácil e manipulada por esquemas de reforço intermitente, ela falha na discriminação de estímulos enganosos. Nesse cenário, a empatia torna-se a porta de entrada para a exploração. Hoffman (2000) aponta que a inclinação afetiva, quando desacompanhada de julgamento crítico sobre as intenções alheias, leva o indivíduo a ignorar sinais de alerta em prol da manutenção do vínculo social.

4 ESQUEMAS DE REFORÇO E PERSISTÊNCIA DO COMPORTAMENTO

Ambientes digitais potencializam a eficácia de esquemas de reforço intermitente, especialmente os de razão variável (VR). Nestes, as respostas são reforçadas de forma imprevisível, gerando alta resistência à extinção. Conforme Catania (2013), o comportamento humano resulta de múltiplas contingências simultâneas. No estelionato, isso se traduz em uma alta frequência de tentativas frustradas compensadas por reforços ocasionais de grande magnitude, o que mantém o comportamento do golpista e captura a vítima através de narrativas de urgência e escassez.

5 VIGILÂNCIA COMPORTAMENTAL E PREVENÇÃO

A superação da vulnerabilidade exige o desenvolvimento de uma vigilância ativa sobre eventos privados. Para contrapor o esfolamento no caráter, é essencial validar a “voz interior” — aqui definida como a atenção a comportamentos encobertos em resposta a estímulos sutis que precedem a percepção imediata do perigo.

A vulnerabilidade, enquanto produto de aprendizagem, deve ser combatida por meio de cinco eixos preventivos:

  1. Treino de discriminação de estímulos: Identificação de padrões linguísticos e narrativas sedutoras.
  2. Modelagem de respostas de verificação: Ensino sistemático de checagem de fontes e validação de dados.
  3. Treino de respostas incompatíveis: Fortalecimento do hábito de desconfiar de ofertas desproporcionais.
  4. Treino de atraso de resposta: Aumento do intervalo entre a oferta e a decisão para análise do comportamento privado.
  5. Reforçamento de comportamentos preventivos: Valorização da cautela como ferramenta de autoproteção.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise comportamental do estelionato permite compreender tanto o agente quanto a vítima como produtos de contingências específicas, afastando explicações simplistas baseadas em moralidade ou culpa individual. O conceito de “esfolamento no caráter” contribui ao descrever a vulnerabilidade como um processo dinâmico, passível de intervenção. Ao reconhecer que o comportamento é sensível às condições ambientais, abre-se espaço para estratégias preventivas mais eficazes, baseadas no ensino e na reorganização de contingências sociais.

REFERÊNCIAS

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. 5. ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.

BAUM, William M. Compreender o behaviorismo: comportamento, cultura e evolução. Porto Alegre: Artmed, 2019.

CATANIA, A. Charles. Aprendizagem: comportamento, linguagem e cognição. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013.

HARE, Robert D. Sem consciência: o mundo perturbador dos psicopatas que vivem entre nós. Porto Alegre: Artmed, 2013.

HOFFMAN, Martin L. Empathy and moral development: implications for caring and justice. Cambridge: Cambridge University Press, 2000.

KAPLAN, Harold I.; SADOCK, Benjamin J. Compêndio de psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica. 11. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.

SKINNER, Burrhus Frederic. Ciência e comportamento humano. 11. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

SKINNER, Burrhus Frederic. Sobre o behaviorismo. São Paulo: Cultrix, 2006.

THORNDIKE, Edward Lee. Animal intelligence: experimental studies. New York: Macmillan, 1911.


Adriano Nicolau da Silva
, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Uberaba, MG. Colunista do Factótum Cultural. E-mail: adrins@terra.com.br

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