Por Charles Santiago

Filosofia botequiana é uma reflexão que abraça almas livres e atormentadas que buscam sentidos para uma existência inquieta.
Nunca é demasiadamente tarde para escrever, isto é, retomar práticas auspiciosas, dialogar com o público do Factótum Cultural, projeto filosófico do meu nobre amigo, Neemias Prudente, especialmente sobre temas que, por vezes, ficam à margem do debate acadêmico, bem como das discussões arrazoadas pelo senso comum.
Pois bem, ocioso, após um bom período de trabalho burocrático-administrativo, gerir o Centro das Ciências Humanas e da Educação da Universidade Estadual do Paraná, direciono minha atenção para as reflexões interpeladas como Filosofia de Boteco e publicadas aqui mesmo, neste vultoso folhetim.
Todavia, não ambiciono fazer correções ou mesmo ajuizamentos dos escritos sobre o assunto já publicado, mas perspectivar ficcionalidades no entorno dessa prosa que é emblemática, já que quase sempre ela é distorcida e até policiada por agentes da moralidade que não reconhecem que o espaço boteco supera os limites da comercialização do líquido maltado.
Então, o que dizer do espaço boteco, o que significa o filosofar de botequiano?
Seria uma espécie de barateamento da reflexão filosófica? A construção professoral de monólogos identitários? Conversas desconexas, articuladas com fragmentos prometedores? Ou o imagético espaço de pensamento autônomo?
Pois bem! Longe de uma resposta poética e aligeirada, como também de uma posição dogmatizada na experiência de quem conhece um bom balcão, intento versar, ombreado com ilustres personagens, um carreiro que consiga pretextar sobre o enigmático pensamento botequiano. E para começo de nossa discussão, faço uso aqui das trovas de Belchior: “e o que há algum tempo era jovem e novo, hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer”.
Não nego que o conceito de rejuvenescimento é polissêmico, simbólico… mas qual sua importância para a tese aqui proposta, confabular sobre o filosofar de boteco?
Explico: Para nosso poeta nordestino, rejuvenescer não se trata de nascer novamente, tampouco recomeçar um destino, mas, a partir das labutas memoriais, sem qualquer valor moral e histórico, constituir ficcionalidades: um imperativo existencial para além do corpo físico e metafísico. Filosofia de boteco é uma proposição em que o que era jovem e novo, hoje é antigo, mas também é novo – é, dialeticamente, um constituir-se reconstituindo.
Para fortalecimento da tese, a querela acima exposta, um bom personagem que pode nos auxiliar nesta compreensão é, sem dúvida, Dom Quixote, o fidalgo transloucado que se recusa a ver uma dimensão da vida em que tem como objetivo central a banalidade; pelo contrário, o nosso herói elege os sonhos como travessias.
O personagem cervantino não deixa de ser quem ele é, continua sendo o velho cansado que suporta o peso da idade, não obstante, constitui-se como ficção – “sonhar o sonho impossível, pisar onde os bravos não ousariam, reparar o mal irreparável e atingir a estrela inatingível”.
Dom Quixote, cansado de sua realidade, aventura-se contra um destino ameaçador – a vida como tem que ser. Por isso, como náufrago, debate-se e busca horizontes. E, nesta jornada edílica, entre tantas coisas, o amor, mesmo ridicularizado pelos incautos, ficcionou uma existência perspectivista, superou as verdades da moral vigente e fez-se vagueiro andante. Para compreendê-lo melhor nesta aventura amorosa, basta buscar em Nietzsche uma assertiva: “e aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música”.
A dança como criação, resistência e que simboliza um propósito: peregrinar-se em um mundo imagético, singular… Dom Quixote dançou e seus adversários o condenaram como louco.
Filosofia de Boteco é uma dança nietzschiana, mas também é um poema cervantino. Ousaria dizer, mesmo correndo o risco de vagar, que o filosofar no boteco é uma perspectiva.
Para uma justa explicação, é importante continuar cotejando Dom Quixote: pensemos no olhar perspectivista cervantino em que a ação do velho fidalgo desnuda uma realidade que é ilusória, o delírio caótico da modernidade que, dentre outras coisas, sequestra a subjetividade e encurrala o sujeito exclusivamente ao mundo da materialidade objetivista.
A partir do exposto, temos um vetor que faz sinais de interpretação: o boteco como palco para subjetivar a existência das verves humanas, já que no seu interior predomina um espectro de liberdade, dosada por um magnetismo de ficcionalidade em que o binômio prazer/dor se misturam e confraternizam, celebrando contradições. O prazer, segundo Schopenhauer, “depende do que temos em nossas cabeças”. E na continuação, “a dor é uma constância do mundo”.
Filosofia botequiana é uma reflexão que abraça almas livres e atormentadas que buscam sentidos para uma existência inquieta. No interior do boteco, o personagem ilustre, o garçom, oferta o que há de melhor: o ópio filosófico, desacelerando uma existência fadigada.
Ainda não é conclusivo que a realização existencial reside no encontro de almas em um bom boteco, acompanhado de doses filosóficas. Do mesmo modo não se nega que no boteco, acomodado por um espírito de liberdade, ciente da brevidade da vida e desacorçoado com o relógio do tempo, a vida ganha sentido: o direito cervantino, imaginar outros mundos e ficcionar uma existência que descobre eco nos versos de Raul Seixas: “a morte, surda, caminha ao meu lado e eu não sei em que esquina ela vai me beijar”.
Dito isso, após a confabulação esboçada, a questão ainda permanece aberta: o que dizer da filosofia de boteco?
Continuaremos no próximo texto. Outras ponderações serão importantes para sistematizar o nosso dilema, especialmente ampliando o conceito de boteco. Todavia, semelhante a um bom aperitivo servido em um balcão turvo que acalenta o estômago dos ébrios, deixo aqui um excerto conclusivo, “em um boteco tudo é possível, inclusive o impossível”.
📝 Não deixe de ler nosso artigo anterior:

Charles Santiago, Professor, Filósofo, Escritor, Surfista e Colunista do Factótum Cultural.
Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.





Deixe um comentário