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Casa-Grande & Senzala, Uma Escrita Nietzschiana

Por Charles Santiago

Casa Grande e Senzala de Gilberto Freyre | Livro para download ...

Quero dedicar esta coluna ao amigo e ex-companheiro de seminário que, com ternura, vem acompanhando e divulgando a Revista Factótum Cultural, o camarada Cristian Oliveira.  Em sua última leitura, do texto Tobias Barreto, um condor esquecido, fui provocado por ele para que escrevesse sobre Gilberto, uma vez que mencionei, ainda que ligeiramente, o poema gilbertiano: “Bahia de todos os Santos e quase todos os pecados”. É certo que, de algum modo, a poesia mexeu com sua memória, pela passagem como seminarista na cidade de céu mole, de gente chameguenta, na terra de todo os santos – Salvador – a capital colorida.

Gilberto Freyre é autor de pensamento original, dedicado à uma estilística própria e, sem dúvida, determinado a um projeto salutar de traduzir a realidade brasileira a partir das contradições que recortavam o seu Brasil, especialmente aquele dos trópicos. Pensador em movimento, Gilberto Freyre é hostilizado e, em algum momento, caricaturado como pensador elitista. Na teorização da cultura, enfrenta a incompreensão teórica, pois,  por vezes, é submetido a hipóteses desajustadas,  até mesmo desconexas por parte de um público pouco especializado na análise do perspectivismo e circunstancialismo  filosófico, cujo objetivo era, no seu mote intelectual, traduzir, assim como dar sentido à sua realidade histórica e cultural.

É sabido que o recifense, no quadro de suas obras, enaltece a plasticidade do português,  bem como sua liquidez na penetração do cotidiano indígena e africano, uma relação quase horizontal, entre o  lusitano para com os índios e africanos. De acordo com a obra Casa-Grande & Senzala, em alguns aspectos, especialmente da cultura, a vida se mistura e este amálgama é, no entendimento do autor, paradigma sociológico de uma vida privada que se constitui como identidade brasileira. Nas palavras de Freyre, “foi misturando-se gostosamente com mulheres de cor logo ao primeiro contato e multiplicando-se em filhos mestiços que uns milhares apenas de machos atrevidos conseguiram firmar-se na posse de terras vastíssimas e competir com povos grandes e numerosos”.

Esta interpretação harmoniosa dos conflitos é bastante cara, pois, descomprometida de uma intencionalidade, ao ressignificar o arquétipo brasileiro, Gilberto Freyre se torna uma caricatura escravocrata, mais do que isso, um idílico nos moldes de Quixote, uma vez que a narrativa sociológica parece perder-se em uma espécie de romance triangulado entre o português, o índio e o negro.

Faz-se premente, na leitura de Casa-Grande & Senzala, considerar a intencionalidade do autor e seu desassossego para com a interpretação da cultura brasileira, aquela de Paulo Prado e seu Retrato do Brasil, publicado em 1927: “o nosso próprio antepassado de Portugal, cantador de fados saudosos, enamorado e positivo, é um ser alegre quando comparado com o descendente tropical, vítima de doença, da pálida indiferença e do vício da cachaça”.

A realidade cultural brasileira é, para Freyre, muito longe dessa visão racista e preconceituosa, pauta-se no culturalismo de Franz Boas, bem como no pensamento filosófico nietzschiano, que “existe apenas uma visão perspectivista, apenas um conhecer perspectivo; e quanto mais afetos permitimos falar sobre uma coisa, quanto mais olhos, diferentes olhos, soubermos utilizar para essa coisa, tanto mais completo será nosso conceito dela, nossa objetividade”.

Gilberto Freyre, ao observar o povo brasileiro, seu objeto de conhecimento, não se limitou às formas tradicionais do saber sociológico, mas para além disso, no conjunto dos afetos, aqui tomado como prisioneiro de seu Brasil brasileiro, atinou, com Casa-Grande & Senzala, para um outro lugar, o país que deve ser, isto é, olhares diferenciados de uma sociologia tradicional, aquela que, segundo Guerreiro Ramos, trata o povo como tema e nunca como vida. Por isso, diz Freyre “tenho sido sociológico, muito mais vendo sociologicamente o social, do que lendo a respeito os escritos de outros sociólogos”. 

É certo que o Brasil de Freyre, apresentado em sua obra magistral, não existia, tampouco existe hoje: é um país porvir. Nas palavras dele, “eu ouço vozes, eu vejo cores, eu sinto os passos de outro Brasil que vem aí. Mais tropical, mais fraternal, mais brasileiro”. Um país visto na sua mistura, compreendido na sua pluralidade regional, aberto para múltiplas interpretações.

É preciso considerar como Freyre inverte a lógica, no Brasil, das ciências sociais: ao invés de reproduzir um discurso academicista, incorporado dos Estados Unidos e da Europa, elabora uma ciência do cotidiano, lida com a intimidade do povo e, por isso, faz uso de cartas, livros de receitas e causos do povo, funda uma nova metodologia para interpretar o Brasil.  

Mas, é digno de nota, que não devemos nos enganar com o fato de se utilizar de uma linguagem simples, enveredar em cozinhas, salas e redes: o nosso autor imagina seu destinatário. Semelhante a Nietzsche, no prefácio de sua Aurora, que busca um leitor desapressado e atento, assim é Freyre: faz uma escrita viva, aquela que imita a fala, provoca o seu leitor, embrenha-se em um Brasil que não é visto. Em outros termos, sua escrita gesticula para o seu destinatário e, por isso, alguns críticos de seu tempo a julgaram como absurda, extravagante, por vezes, chula.

Tratar de Gilberto é sempre espinhoso, pois o autor é multifacetado e sua leitura de Brasil é perspectivista. Assim, não se pretende participar de um interminável debate, docilização da escravidão e democracia racial, elementos controversos que parecem atravessar os textos de Casa-Grande & Senzala. Mesmo porque, de meu entendimento, esta é uma questão que foi superada, que considero primária e de caráter ultrapassado qualquer ilação nesse sentido.

Ciente da ambição teórica gilbertiana, sua missão cabralesca, redescobrir o Brasil, não é de todo errado que seus escritos contribuíram para, de algum modo, calcificar um racismo; mais do que isso, apaziguar tensões e obscurecer um fato: o racismo à brasileira. Aquele que, amolengado, escorrega nas palavras, no comportamento e em uma rotina com lugares e espaços simbolicamente demarcados, coisa de branco e coisa de preto. Todavia, com olhares acurados, é possível descartar leituras malogradas que entornam a obra gilbertiana e que insistem em uma clivagem ideológica, sobretudo oriunda de um marxismo importado.

Por último, é certo que Gilberto não é protagonista da causa racial, isto é fato. Nem poderia sê-lo, pois somente quem viveu e vive na pele o ser negro, como Matheus Pires Barbosa e tantos outros Matheus, podem, em um país como o Brasil, ser protagonistas desta causa, isto quando não têm sua história interrompida muito cedo, seja pela criminalidade ou pela violência do Estado Policial. É desesperador, deve se considerar, quando, poeticamente, Casa-Grande, de mãos dadas com a Senzala, auspicia para um Brasil que não existe e, à margem de sua intencionalidade, um movimento cultural empalma um país racista, feito indecentemente por uma elite branca e sádica.

É difícil, dirão os Matheus, com as marcas do chicote, confraternizarem com os seus algozes. É por tudo isso que, mesmo ciente de um Brasil perspectivado, lugar que pode ser, sem hesitação, é preciso engrossar fileiras de que não se deve, de maneira alguma, esquecer o Brasil que temos e que somos, indulgente para com o crime, aquele que se pratica cotidianamente contra a carne negra. Carne que, quando sobrevivente, pena, como verve humana, invisibilizada nos corredores do mercado profissional e estético. Imerso nesse vale de lágrimas, fazemos coro, ao lado de Freyre, quando não protagonista, mas simpatizante de um Brasil que deve nascer, país fraterno, igual – o Brasil dos mestiços – brasileiros.

Charles Santiago é professor, filósofo e escritor. Colunista da Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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