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A filosofia como avexamento, um amor perambulante

Dom Quixote de La Mancha – Cervantes | Livro para download ...

Por Charles Santiago

A cortesia da filosofia, diz Ortega, é ser viva e perambulante, em outros termos, é o avexamento do amor. Não se trata, é certo, de uma filosofia de gabinete, sequestrada do cotidiano, instrumento postiço dos intelectuais: os paladinos do saber. Tampouco, pode ser bestializada como utensílio ideológico e politiqueiro, tão malograda pelos bexiguentos, aqueles que são “os donos” do erário público, patronos da família e dos bons costumes. Ah, não!  Filosofia é avexamento, amor adoidado, vida autêntica, paixão afoitada!  É a maneira que faz o tempo viver, a vida como deve ser ― pura, simples, intensa… uma faina poética.

Talvez, por isso,  o autor espanhol dedicou-se, primeiramente, à atividade jornalística, fez com que a filosofia de seu tempo reconquistasse a praça, retomasse as ruas e se chamegasse com o povo, que se fizesse gente,  a qual tem carência de vida, vontade de amor: gente filosófica.  

Belchior, versado em poesia, foi, a meu ver, quem melhor traduziu a expressão orteguiana, “o amor é uma coisa mais profunda que um encontro casual”.

Filosofia não é casual, legado de camarim, posse de gente chata e amostrada. Também não é politiqueira, apombaiada, como é vista pelos idiotas, no sentido platônico, os prisioneiros de seus umbigos. Não, a filosofia é, para nosso espanhol, o amor, ou melhor, “a essência da escolha profunda”, muito próximo de Machado de Assis: “cada qual sabe amar a seu modo; modo, pouco importa; o essencial é que se saiba amar”, ou seja, que se saiba ser filósofo, ser gente.  

 Logo, a  filosofia de Ortega se avizinha da literatura, promove mais do que um diálogo, filosofia e literatura, pois ajuntadas tornam-se buliçosas, mexem com as estruturas de um pensamento calcificado que, antes de qualquer coisa, é vaidoso, empalmado pelos arautos do saber, isso quando não é gorado, conduzido por néscios. Por isso, sua primeira obra, Meditações de Quixote, publicada em 1914, nos moldes cervantinos, faz da literatura um apetrecho imagético – que auspicia um mundo, a vida desembestada, à luz de Quixote, “amar um amor casto à distância, enfrentar o inimigo invencível, tentar quando as forças se esvaem, alcançar a estrela inatingível”. A proposta era publicar dez meditações, todavia o projeto não se consolidou, mas a parte publicada, Meditações de Quixote, impacientou um promissor debate conceitual no mundo filosófico e literário: a vida como dilema existencial, eucircunstância.  Esse conceito perseguiu sua filosofia e sobretudo nos textos El espectador, publicados entre os anos de 1916 e 1934, fora ampliado e amadurado.

Mas é na obra Meditações de Quixote, que se encontra: “eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela não me salvo a mim[1]”. Circunstância como o entorno do homem, movimento que circunscreve a sua carcaça humana. Na primeira parte, “eu sou eu e minha circunstância”, tem como mote o homem e seu mundo, “eu” como ser em construção, sujeito de ação que é intransferível e insubornável, eu que se faz vivente, agoniado, que na busca de sua essência se debate como náufrago, “onde anda o meu amor? A circunstância, de antemão, realidade em que cada sujeito se encontra fixado, não significa vida, mas o seu elemento nodal – constructos para uma vida biográfica, o mundo de possibilidades.

O segundo momento da assertiva, “se não salvo a ela não me salvo a mim”, reclama do sujeito um fazer-se, perspectivar outras realidades, constituir sentido circunstancial, fazer-se filósofo, um amor perambulante.  Na meditação preliminar, da obra aqui memorada, o autor busca desnudar as árvores para ver o bosque, pois semelhante ao cavaleiro da triste figura, aquele que despia os moinhos para ver os gigantes, “o bosque está sempre um pouco mais além de onde estamos. De onde chegamos acaba de sair, restando somente suas pegadas ainda frescas. […] de qualquer um dos pontos o bosque é, a rigor, uma perspectiva”[2], horizonte ocultado pelas árvores, o drama do filósofo, “a batalha como repouso”.

Outrossim, circunstância é dilema, realidade provocativa que entorna o ser existente. O homem, encarcerado em sua realidade vital, é obrigado a relacionar-se com ela, devendo salvá-la, vivê-la, de outro modo, garantir-lhe sentido. Por isso, nessa relação do eu com a circunstância, o sujeito é tensionado entre os limites da fantasia e do sonho, tragédia e aventura; à luz do quixotismo, a biografar-se como filósofo. Nas palavras de Ortega, pensador arretado, a vida como reabsorção de uma realidade imaginativa: na contramão da fantasia, é sonho; da tragédia, é aventura, como diz Belchior, “é amar e mudar as coisas”.

É certo que, ao nascer, o homem encontra seu mundo já constituído, um lugar de possibilidades. A circunstância é um mundo de coisas em que o eu, conjunção aberta, carece constituir sua identidade, a partir dos caminhos ofertados, definir-se, fazer-se cavaleiro andante.  Com relação a isso, é preciso dizer que o homem é prisioneiro de um tempo-lugar, não é cativo de sua circunstância, mas um eu agente, que ficciona uma realidade, constitui um caminho e, como filósofo, é amante do amor, o amor perambulante.


[1] Cf. ORTEGA Y GASSET, José. Meditações de Quixote. São Paulo: Livro Ibero Americano LTDA, 1967, p. 52.

[2] Cf. ORTEGA Y GASSET, José. Meditações de Quixote. São Paulo: Livro Ibero Americano LTDA, 1967, p. 68.

Charles Santiago é professor, filósofo e escritor. Colunista da Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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