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“Contos de Boteco: uma Prosa literária”

Por Charles Santiago

O boteco padrão de Reinaldo Moraes | Biblioteca Pública do Paraná

Sexta feira, não como as de outrora, pois a vida, timidamente, vem retomando sua rotina e resgatando sua normalidade ilusória, ainda que assombrada com as incertezas pandêmicas. Mesmo assim, foi possível, no melhor dos sítios, o boteco, confabular com uma belle de Jour sobre nossas fontes de devaneios: “prosas literárias”.

Ali, entre um gole e outro do néctar dionisíaco, com ventos favoráveis à filosofia de boteco, de ouvidos atentos, absorvi, em tom sarcástico e manhoso de Fräulein[1], um de seus queixumes: “o papel pintado já não faz tamanhos milagres”. O pensamento pode parecer insólito, fugaz, mas, é importante dizer, com a licença dos paladinos, a assertiva auspicia para outro tempo – “o novo normal”, que há de ser diferente e menos cruel. Como disse Anatole France, “o dinheiro é somente um dos fins para se viver feliz: os homens transformaram-no no único fim”, e que sejamos felizes em nossas loucuras, fantasias…

Os incautos, os moralistas da economia política hão de desprezá-la, pois para esses indivíduos o dinheiro ainda é o deus moderno, seus tentáculos auferem poder, prazer, riqueza e, com ele, tudo é praticável, possível, ou, pelo menos, era assim. São desconhecedores de Drummond, “o cofre do banco contém apenas dinheiro; frustra-se quem pensa que lá encontrará riqueza”.

É justo dizer: agora, revisando a memória e de olhos abertos, esbugalhados pela epidemia nossa de cada dia, compreendemos que a moeda é somente um metal e seu valor é simbólico – “valor de compra/valor de venda” – e, para o nosso bem, graças a Oxalá, parafraseando Gabriel García: “o valor das coisas encontra-se em seu significado”, impossível mensurá-lo pelo poder calculista do metal.

É sabido que no passado, não tão distante, misteriosamente, quando havia “normalidade” no mundo, um orbe sem pandemia, com a moeda comprávamos tudo, inclusive sonhos. Realizávamos os mais ardorosos desejos, dos quais não nos esqueçamos do sisudo jornalista, personagem de Gabriel García[2], que em seus devaneios, adverte-nos sobre seus desejos e sonhos: “no ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem”.

No boteco, a partir das palavras da professora do amor, a mais bela das filósofas, fora possível granjear que o deus do tempo presente se vê aturdido e limitado, um espectro que amarga e chora, pois com os infortúnios da pandemia, seus adoradores, os já desencantados, estão perdendo a condição de sonhar, desejar e querer o supérfluo, o passageiro, o cotidiano… agora, desesperadamente, querem, a qualquer custo, o essencial  – “sobreviver” – entre tantos que partiram e ainda partem abruptamente e sem qualquer despedida. No entanto, esse desejo, faço coro com a melhor das companhias: “é um milagre que o deus-dinheiro não satisfaz”. Sua sanha é amofinada no que é singular e egrégio: “a vida como pode ser”.

O certo é que a noite seguia o seu curso. Entre um trago e outro da aguardente que nunca sacia, na mesa do bar, a prosa ganhava cores e sabores. A literatura se lambuzava com os goles etílicos e, entre flertes e risos, autores, bem como personagens, o momento botequiano, por um tempo, obscureceu o enlutamento pandêmico. Naquela noite de céu enluarado e de estrelas coloridas,  a existence presenteou-nos com sonhos, pensamentos, sentimentos… de que a vida, ah, esta pode e deve ser gostosa, intensa, poética e ficcional.

Lembro-me, com muita paixão, do exato momento em que, de Gabriel García, ela, a companheira de boteco, sacou da cachola, com os dentes abertos e olhar fito, os seguintes versos: “descobri que a minha obsessão de que cada coisa estivesse no seu lugar, cada assunto no seu tempo, cada palavra no seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente ordenada mas, pelo contrário, um sistema completo de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza”.

Como num ato cênico, nesse momento alvissareiro, após o recital de Fräulein, aquela que enlouquecia o ambiente, embalado por um sotaque manhoso e chameguento, ao som de Cezar Amaral, um nobre amigo em terras paranaenses, amassei nas mãos o caneco, despejei goela abaixo todo o seu conteúdo e, com os meus botões, foi possível ajuizar sobre a assertiva:

“Que desgraça de vida!” vida negada, ocultada e reprimida. Vida indigna e infeliz – subornável – encenação espectral – esta é a vida de todos nós! Independentemente do gênero, da condição social – o quanto temos ocultado a desordem de nossa natureza? Qual é o seu tamanho e peso para mantermos o disfarce?

Ela, espalhafatosamente, riu. Mas o fez de forma divinamente encantadora que, no mesmo instante, com sotaque nuançado, mais do que isso, compartilhando, nos dizeres aristotélicos, a mesma alma em corpos diferentes, nossa felicidade incomodou os homens de moral e bons costumes. Tanto que, a nossa mesa, arrodeada de outras tantas que se espalhavam pela calçada do boteco, foi fulminada por olhares alheios em julgamentos:

“Como pode? Uma mensalina e um galinha! Que falta de vergonha!”

Não tardou para que, num dado momento, já pelas horas, uma senhora, polida e versada nos bons costumes da moralidade aparente, atordoada com nossa amizade, pediu que o garçom, personagem de rara gentileza, entregasse-nos um bilhete. Na verdade, era uma citação religiosa em papel de guardanapos – o Livro dos Hebreus – “o casamento deve ser honrado por todos; o leito conjugal, conservado puro; pois Deus julgará os imorais e os adúlteros”. 

Surpreso com o disparate, mas com indiferença frente ao insulto – celebrávamos a felicidade e embriagávamo-nos de prosa literária. Por isso ríamos de forma gulosa. Mas, para não ficar gratuita a ofensa, o mesmo garçom fez a devolutiva – entregou um recado, também em guardanapos – eram os escritos do eterno Belchior, que minha parceira de boteco fez questão de versar:

“Meu bem, o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente, tome um refrigerante, coma um cachorro quente. Sim, já é outra viagem, e o meu coração selvagem tem essa pressa de viver”.

 E o recado emendava: lembre-se de García, “cuide de seu coração…Você está apodrecendo viva”.

O certo é que a querelante, a senhora dos bons costumes, aperreada com nossa presença e alegria, deu por encerrada a troca de bilhetes e, feito um mangangá do sertão, deixou o ambiente com resmungos.

É importante dizer que o momento, por mais que aparentasse um encontro libidinoso, era, no fundo, um tempo fraternal, botequiano, poético. A mesa do bar, ostentando cervejas e livros, era como o quarto especial do prostíbulo de Rosa Cabarcas – lugar de grandes imaginações.

Naquela noite, a prosa, espargindo risos, poesias e conversas que eram largadas ao vento, fora como o amor primeiro do velho jornalista – demasiadamente humano – em que o sexo era o que menos importava no momento, o essencial estava na descoberta do eu-humanidade, dilema de Gabriel García.

Ali, no bar, no momento botequiano, de algum modo, semelhávamos as memórias de minhas putas tristes, em que, pela primeira vez, o cronista de noventa anos, sujeito inveterado nas ousadias mundanas, dorme com uma mulher e não permite luxúrias, como é sabido nas palavras do autor: “o sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança”. O bar era mais do que um lugar de bebedeiras – espaços de devaneios e loucuras, mas sim um ambiente literário – lugar de vida nobre – vida ficcional.

Não tardou para que o garçom, advertindo sobre o horário, deu cabo de nossa prosa, mas como todo bom garçom, permitiu-nos a “saideira”, que veio acompanhada com a conta e, como agradecimento, a belle de jour o retribuiu com uma piscadela e Mário Quintana: “se me esqueceres, só uma coisa, esquece-me bem devagarinho”.

Estupefato com a nossa prosa, cuidado pelos olhares alheios, largamos o boteco, mas antes de nossa partida, ela abraçou o garçom e com um tom sério, o único da noite, disse alto, em bom som:

“ah, preconceito! Não te cansas um só minuto? De que és feito tu? Como saciar tuas loucuras e tantas infâmias? Como alentar tua fome voraz? Descansas um pouco e concede-nos clemência para que possamos, mesmo que seja por alguns instantes, erguermos outras pontes e fazermos longas travessias”.

Rindo, como foi toda a noite, despedimo-nos com abraços e beijos, eternizando uma memória botequiana.


[1] Cf. ANDRADE, Mário de. Amar, Verbo Intransitivo: Idílio.

[2] Cf. Memórias de Minhas putas tristes.

Charles Santiago é professor, filósofo e escritor. Colunista da Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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