Por Txayn

Conta-se — mas ninguém sabe ao certo quem contou primeiro —
que um dia os homens ouviram dizer que Deus desceria à Terra.
A notícia correu rápido, tropeçando de boca em boca, inflando o medo e a esperança como balões frágeis. Uns limparam as roupas. Outros levantaram templos. Alguns decoraram palavras bonitas para dizer quando Ele chegasse.
Txayn, porém, achou estranho.
Se Deus vinha mesmo… por que tanto barulho?
Enquanto os outros olhavam para o céu, Txayn olhou para dentro.
Começou pelo óbvio: cuidou do corpo, porque corpo abandonado vira ruído. Depois arrumou a casa, jogando fora o que já não servia — inclusive algumas ideias antigas que ainda ocupavam espaço demais. Abriu janelas, deixou o ar circular. Doeu um pouco. Sempre dói.
Depois foi ao quintal. Podou excessos, regou o que ainda tinha raiz. Aprendeu ali que nem tudo que cresce precisa ser mantido, e que algumas flores só aparecem depois do corte.
Ao cuidar dos animais, percebeu algo curioso: quanto mais atenção dava, mais vivo se sentia. Como se a vida fosse contagiosa.
Quando achou que estava pronto, sentou em silêncio.
E então percebeu o que ainda faltava.
Chamou os vizinhos. Não para ensinar — Txayn nunca gostou disso — mas para escutar. Cada um trouxe uma virtude no bolso: paciência, coragem, humildade, alegria. Logo começaram a discutir qual era a maior. Txayn sorriu.
— Virtude que precisa competir já perdeu o nome — disse, baixo.
Decidiram então testar: cada virtude só valeria se ajudasse o outro. E foi assim que a paciência sustentou a coragem, a humildade abriu espaço para a alegria, e nenhuma quis ser mais do que era.
Naquela noite, ninguém viu Deus descer.
Mas algo estranho aconteceu.
As pessoas dormiram leves.
Os rostos amanheceram mais inteiros.
E um silêncio bom — desses que não assustam — pousou sobre o lugar.
Txayn entendeu.
Deus não veio porque nunca esteve fora.
A festa não era no céu.
Era dentro.
Desde então, Txayn caminha.
Não anunciando deuses,
mas lembrando pessoas.
E dizem que, por onde passa,
as casas ficam mais simples,
os corações mais espaçosos,
e o mundo… um pouco menos esquecido de si mesmo.
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🧙♂️ Txayn
🌿 Originário, viajante entre mundos. Guardião de histórias e símbolos.
🌓 Caminho entre luz e sombra, onde tudo se mistura.
🌀 Sigo rastros invisíveis e deixo perguntas — nunca respostas.
🦎 Cada história é uma lanterna acesa no escuro.
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