Existe uma parte do corpo que não recebe elogios, não ganha homenagens e quase nunca protagoniza conversas de bar — a não ser quando tudo dá errado.
É o guardião silencioso da fronteira entre o mundo interno e o externo.
O porteiro cósmico.
O centinela do inconsciente: o esfíncter.

Pois foi exatamente ele que me ensinou a espiritualidade da segunda-feira.

Tudo começou com um incômodo.
Sempre começa com um incômodo.
Uns recebem mensagens divinas em sonhos.
Outros têm crises existenciais profundas.
Eu ganhei… um pequeno nó na região sagrada.
Um aviso silencioso do universo:
“Meu filho, sente-se. Mas sente-se com cuidado.”

E quando o universo manda você sentar, você senta.

De repente, percebi que aquela pequena saliência — aparentemente tão banal — estava me revelando um mapa simbólico da vida.
Porque é fácil falar de iluminação espiritual enquanto se medita num topo de montanha.
Difícil mesmo é tentar alcançar a paz interior sentado no trono do banheiro, respirando fundo, pedindo serenidade para uma região que nunca estudou filosofia.

Ali, naquela postura humilde e inevitável, percebi uma verdade que livros raramente anunciam:
a vida também acontece onde dói.
Onde incomoda.
Onde aperta (às vezes literalmente).
Onde a gente não quer olhar.

Aprendi que a jornada espiritual não começa com cristais, incensos ou mantras em sânscrito.
Ela começa quando a gente é obrigado a reduzir a velocidade porque o corpo pediu pausa.
Quando algo nos faz lembrar que somos humanos demais para fingir divindade.

E foi naquele pequeno desconforto — quase uma parábola anatômica — que entendi a mais paciente das lições:
tudo na vida inflama, incha, irrita… e depois murcha.
Nada permanece.
Nem a dor, nem o orgulho, nem os dramas épicos que inventamos no cotidiano.

Há um silêncio sagrado no ato de perceber que a cura opera sozinha.
Que existe um tempo da carne e um tempo da alma.
E que forçar a vida, assim como forçar o corpo, nunca dá certo.

No final, aquela jornada inesperada me trouxe uma estranha gratidão.
Porque às vezes é preciso que o universo pegue a gente pelo excesso de humanidade — ou pela falta de humildade — para ensinar que até o que existe na sombra do corpo tem algo a revelar.

E assim começou minha segunda-feira:
não com produtividade, motivação ou inspiração…
mas com uma pequena iluminação anatômica que eu não pedi, mas que me fez rir, pensar e respirar fundo.

Sim, o caminho espiritual é cheio de símbolos.
Alguns são estrelas.
Outros são flores de lótus.
E, às vezes, o símbolo da semana é apenas um lembrete de que a vida também entra pela porta que a gente menos espera.

Não deixe de ler nosso texto anterior:

E não se esqueça: segunda, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” traz humor para os dias difíceis. Sábado a gente fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio.

Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, filósofo, professor, místico, cômico e editor-chefe do Factótum Cultural.

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