Escrever Para Não Enlouquecer – Por Neemias

Há momentos em que a vida nos espreme até o osso.
Momentos em que tudo perde o brilho, os sentidos entram em colapso e o mundo parece um conjunto de sombras repetindo o mesmo loop.
E, nesse terreno seco, uma pergunta nasce com força de terremoto:
O que realmente existe?
Não as crenças, não as doutrinas, não as dezenas de espíritos com nomes inventados.
Não a fantasia mística, nem a arrogância espiritual, nem as listas intermináveis de guias e entidades que tentam substituir o silêncio com ruídos.
Há algo muito mais simples — e por isso tão difícil de aceitar.
**Só existe a Consciência.
E tudo o resto é a Consciência sonhando.**
O corpo é um sonho.
A mente é um sonho.
A história pessoal é um sonho escrito dentro de outro sonho.
E até as dores mais profundas são movimentos dentro de um campo de presença que não se altera.
Chamaram-no de Deus, de Eu Sou, de Atman, de Brahman, de Espírito, de Luz, de Vazio, de Fonte.
Dá no mesmo.
Porque nomes são etiquetas coladas sobre o infinito.
O que existe é o que observa.
Não o que muda.
Não o que sofre.
Não o que deseja.
O que observa.
A testemunha silenciosa que permanece intacta enquanto o personagem — esse fragmento que chamamos de “eu” — vive dramas, lutas, quedas, fugas, recaídas, conquistas e desilusões.
A crítica que ninguém faz (mas precisa fazer)
O problema é que, ao longo dos séculos, cobrimos a espiritualidade com uma cortina de personagens. Criamos espíritos de catálogo, guias com sobrenomes extravagantes, orixás transformados em avatares folclóricos, anjos com estética de anime e “mestres estelares” que soam mais como séries de ficção científica do que como expressões reais do mistério. É como se a nossa incapacidade de suportar o silêncio do sagrado nos obrigasse a inventar barulho: quanto mais insegura a alma, mais ela precisa de entidades, mediadores, intérpretes, mensageiros, manifestantes, intermediários e mitologias para preencher o vazio que teme encarar. A espiritualidade virou teatro — bonito às vezes, perigoso outras — mas ainda teatro.
E, no meio desse espetáculo, esquecemos do essencial: se existe algo como “espírito”, “guia” ou “mentor”, ele não está fora. Não é uma entidade com CPF astral nem uma personalidade flutuante no além. É sempre uma camada da própria Consciência se comunicando com ela mesma, filtrada pelas lentes culturais da época. O resto é projeção psicológica, fantasia simbólica ou necessidade emocional de dar forma ao informe. O sagrado não grita nomes. Não precisa. Ele é simples. Sóbrio. Silencioso. O barulho — esse sim — é criação humana.
E então, o que sobra?
O que sobra é a percepção clara, quase brutal, de que só existe a Consciência.
Tudo o mais é sonho dentro de sonho.
**Até o personagem está dentro do Eu Sou.
Tudo, absolutamente tudo, está dentro do Eu Sou.**
Não existe separação.
Não existe “eu aqui” e “Deus lá”.
Não existe alma solta, espírito solto, mundo solto.
O que chamamos de “vida” é apenas o movimento da própria Consciência dentro de si mesma.
Somos ondas acreditando ser diferentes do oceano.
Mas a onda nunca foi separada.
Nunca existiu sem o mar.
Nunca teve identidade própria.
Nunca nasceu de verdade — apenas emergiu.
Quando isso é visto… alguma coisa muda para sempre.
A busca perde a urgência.
O medo perde a mordida.
O passado perde o veneno.
O futuro perde o domínio.
E, pela primeira vez, sentimos algo que sempre esteve aqui:
um silêncio que não depende de circunstâncias.
Uma lucidez tranquila que não exige nada.
Uma presença que não precisa se provar.
Não é iluminação.
É apenas o reconhecimento do óbvio:
O Eu Sou é tudo que existe.
E o personagem é o papel que Ele escolheu viver por um tempo.
Quando essa verdade é percebida — mesmo que por um segundo — percebemos que nunca estivemos sozinhos.
Porque não há dois.
Nunca houve dois.
O resto é teatro.
A Consciência não precisa de templos, gurus, listas de entidades, dogmas, lideres, salvadores, fundadores, deusses, mensageiros mitologias ou medo.
Ela precisa apenas de si mesma.
E ela já está aqui.
Agora.
Lendo isso.
Sendo isso.
Sendo você.
Não existe mais mistério do que isso.
E nenhum mistério é maior do que esse.
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E não se esqueça: Sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, filósofo, professor, místico, cômico e editor-chefe do Factótum Cultural.






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