Foi em silêncio que Deus plantou o amor. É no silêncio que Ele o faz crescer. É no silêncio que se faz poesia. Escutando o que Deus tem a dizer.” (Wilson Tranin)

 Criar é viver com presença. Cada gesto, cada conversa, cada encontro tem o poder de convidar outros a experimentar um padrão mais elevado de consciência. Aquilo que somos se transmite; quanto mais tocamos o mistério do coração, mais convidamos os demais a se unirem a nós nessa espiral evolutiva.

As tradições lembram que a criação nasce do silêncio. O Rig Veda descreve o Uno respirando no abismo antes de tudo existir; Blavatsky fala do “ovo do mundo” emergindo do caos primordial. Criar, em nós, requer um reencontro com esse ponto interno: uma quietude fértil de onde brotam ideias, sentidos e novos caminhos.

Quando a energia cai, a criatividade seca; quando a energia se eleva, as ideias florescem. Estar “vivo por dentro” significa enxergar novos caminhos e recriar a própria vida em seus ciclos: mudanças, perdas, inícios. Ser filósofo é cultivar essa capacidade de recompor sentidos e abrir sendas.

A tradição hindu ensina o brahmamuhūrta —, aproximadamente uma hora e trinta e seis minutos antes do amanhecer — como momento privilegiado para práticas internas. Com a mente calma e o coração em paz, a lucidez se acende. Criar pede silêncio, contemplação e uma atenção que escuta a vida por dentro.

Na Nova Acrópole, busca-se “despertar o olho interior”: observar pensamentos, emoções e atos com imparcialidade. A mente, como um espelho limpo, reflete a realidade sem deformá-la. Em vez de repetir padrões, essa atenção abre espaço para a autenticidade e o novo.

Criar não é privilégio dos ateliês. É cozinhar com cuidado, arrumar a casa com sentido, encontrar soluções mais justas, percorrer rotas diferentes, reposicionar-se diante dos desafios. O universo é mental: existe uma Mente Universal e um reflexo dela em nós; nossa tarefa é criar no plano da vida diária, elevando padrões de consciência.

Brahmā cria; Śiva transforma. Tudo flui. Antecipar a mudança é mais sábio do que ser arrastado por ela. A vida nos convoca a recriar atitudes e estruturas para que a roda gire de modo ascendente: rumo ao bem, à justiça, à beleza e à paz.

Como os dervixes girantes, a arte eleva a consciência e a traz de volta transfigurada. A imaginação — “ponte para o espiritual”, como ensina Blavatsky, — enobrece o cotidiano. Colocar imagens belas na mente educa a sensibilidade e afina o gesto criador.

Vivemos uma cultura muito “solar”: útil, mas insuficiente. É preciso resgatar o “lunar”: imaginação, intuição e simbolismo. Jung recorda que ignorar a alma adoece; reconhecer sombras e integrá-las amadurece. Práticas simples ajudam: revisão diária das vivências, acolhimento dos sonhos, expressão simbólica (poesia, desenho, música).

Criatividade é algo que somos, não apenas algo que fazemos. O objetivo da arte é compartilhar o verdadeiro, não ostentar perfeição. Sucesso real é aliviar o coração ao colocar nele cada obra — por menor que seja — e viver em coerência com a própria consciência.

A consciência é sutil; precisa de contexto. Rituais cotidianos — ao despertar, antes de dormir, ao iniciar o trabalho — preparam o terreno para a expressão interior: espaço limpo, ar fresco, ordem, silêncio. A natureza educa: a aurora, o céu amplo, o ritmo dos seres restituem medida e energia.

Criar requer estar no centro: lucidez que não se perde em ansiedade, ira ou pressa. A imagem de Tirésias — cego por fora, vidente por dentro — ensina a ver com o coração. Na Árvore da Vida (Cabala), a harmonia nasce do encontro entre rigor e misericórdia: objetividade e sensibilidade; ordem e compaixão.

Criar é ofertar presença e beleza ao mundo. Somos mais unidos do que supomos; partilhar o que é verdadeiro em nós eleva a roda da vida. Que cada biografia se torne uma obra: nobre, justa, simples e exemplar.

Melissa Andrade, Aluna e Professora da Nova Acrópole. Artigo adaptado da palestra Acorde a Alma. Lago Sul – Brasília/DF

Nova Acrópole.

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