Escrever Para Não Enlouquecer – Por Neemias

Um olhar humano, público e íntimo sobre o vício mais aceito do mundo
O álcool é a única droga que você precisa se justificar quando não usa. Bebida é item obrigatório em festas, encontros, jantares, reuniões de trabalho e até funerais. Beber é visto como normal. O que não é normal — mas deveria ser — é parar para perguntar: por que estamos bebendo tanto?
Mais do que um vício, o álcool é uma anestesia social legalizada. Mais do que um problema individual, é um sintoma coletivo de uma sociedade que produz sofrimento e vende alívio engarrafado.
Gabor Maté, médico húngaro-canadense e referência no estudo da dependência química, aponta em seu livro “Vício: o reino dos fantasmas famintos” que todo vício é, antes de tudo, um sintoma de dor não resolvida. O vício é uma tentativa de autocura. Uma tentativa falha de preencher um vazio interior, muitas vezes herdado de traumas, negligências emocionais e realidades insuportáveis.
Não se trata apenas de uma falha moral ou de uma “falta de força de vontade”, como o senso comum gosta de repetir. Trata-se de um colapso emocional, espiritual e existencial. A fuga do mundo é, na verdade, a fuga de si.
“O vício não é sobre drogas, álcool ou comportamentos. É, antes de tudo, um sintoma de dor não escutada. É a tentativa do corpo e da mente de acalmar feridas, inclusive da infância.”
Homens, historicamente, carregam os maiores índices de consumo abusivo. Mas as estatísticas não contam a história por inteiro. Desde cedo, aprendem a calar, conter, resistir, suportar. E quando a dor precisa escapar por algum lugar, o copo vira válvula. Muitos só chegam ao sistema de saúde quando o corpo colapsa. Antes disso, o álcool é companheiro de silêncio.
As mulheres, por sua vez, estão bebendo mais — e mais cedo. Um estudo apontou que 15,2% das mulheres com mais de 18 anos consomem álcool em excesso (ante 27,3% dos homens). Não estão apenas bebendo. Estão tentando suportar. O álcool, nesse contexto, é anestesia contra a sobrecarga, a cobrança, a solidão.
O álcool aparece nas estatísticas de violência, crimes e internações. É cúmplice silencioso de brigas, agressões, acidentes e tragédias. E, ao mesmo tempo, é ignorado nas políticas públicas, mal tratado pelo sistema penal, romantizado nas propagandas.
Nos bastidores, há uma realidade pouco falada: a mistura entre álcool e medicamentos como o Zolpidem, entre outras Drogas Z. Apagões, surtos, comportamentos impulsivos, impulsos suicidas e lapsos de memória têm sido registrados em consultórios e emergências psiquiátricas. Mas a combinação é banalizada — como se fosse normal apagar à noite e levantar sem lembrar do que se fez.
Frente a tudo isso, o Estado avança pouco. Em 2025, o Senado aprovou um programa de apoio a mulheres alcoólatras. É um passo, mas tímido. A dependência química ainda é vista como fraqueza moral, quando deveria ser tratada como sofrimento emocional e trauma social.
Há caminhos. Os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) acolhem com humanidade. Os Alcoólicos Anônimos escutam sem julgar. Retiros, terapias, espiritualidades integrativas, rodas de conversa, práticas de reconexão — tudo isso salva. O mais importante é: ninguém precisa passar por isso sozinho.
Falo de dentro: uma vida tocada pelo álcool
Escrevo este artigo não apenas como advogado, pesquisador ou observador do problema.
Escrevo como alguém que viveu, na pele e na alma, os efeitos do álcool.
Por muitos anos, o copo foi meu escudo, minha fuga e meu anestésico. Eu não bebia só por prazer, mas por alívio. Bebi para socializar, para ficar alegre, mas também para calar a dor, para apagar a memória, para suportar o peso de uma vida que parecia não fazer sentido.
O álcool me afastou de mim mesmo, da minha essência, de alguns vínculos. Fiquei doente, caí, me perdi. Mas também me levantei. Sou, antes de tudo, um sobrevivente.
Hoje entendo que foi necessário, assim como o Zolpidem (e tenho até gratidão por essas ferramentas – mas isso é história para outro conteúdo).
E é por isso que escrevo: falo daqui, de dentro — e não de fora.
Sei o que significa se perder em garrafas e acordar sem lembrar de si mesmo. Mas também sei que há vida depois do abuso ou dependência. Que é possível recomeçar. E que cada um de nós carrega dentro de si uma força que, quando encontra apoio, pode transformar até a maior das quedas em caminho de cura.
Lembre-se: Você não é fraco. Você é humano. E a libertação começa quando você se permite ser ajudado.
Conclusão: um brinde à consciência
Beber é fácil. Viver é mais difícil.
Mas viver com consciência, mesmo em meio à dor, é possível.
O álcool pode até aliviar a dor por algumas horas. Mas a verdadeira cura vem do reencontro com o que fomos, com o que somos, e com o que ainda podemos ser.
Que o brinde seja à lucidez.
Que o reencontro com a vida seja mais forte do que a fuga dela.
E que a gente nunca esqueça: ninguém precisa enfrentar isso sozinho.
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E se você quiser, pode escrever pra mim. A escuta já é cura.
O uso excessivo ou vício não é seu fim. É apenas um capítulo. E todo capítulo pode ser reescrito.
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E não se esqueça: Sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, filósofo cômico, professor e editor-chefe do Factótum Cultural.






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