Quem julga o outro esquece que o outro é só o espelho onde sua própria sombra se revela.”
— Txayn

As pessoas adoram julgar os pecados alheios.
É mais fácil apontar o dedo do que encarar o espelho.
Julgam para não ver a própria sombra, condenam para não confessar o próprio medo.
Querem parecer boas, não ser boas — e o julgamento é o disfarce preferido da covardia espiritual.

Mas as pessoas não nasceram más.
Estão perdidas — e quanto mais perdidas, mais precisam se sentir certas.
Julgam o pecado alheio porque é mais fácil crucificar do que curar.
É mais confortável acreditar que o mal está no outro do que admitir que ele mora dentro de casa.

Dormem dentro dos próprios espelhos, apontando dedos para não verem o reflexo.
Julgar o pecado alheio é o passatempo preferido de quem ainda não suportou olhar o próprio abismo.
Quem julga o pecado alheio tenta fugir do próprio inferno.

Nietzsche já dizia:

Julgar e condenar moralmente é a vingança preferida das
almas limitadas
“.

É é isso.
Quem julga o outro, na verdade, está tentando fugir de si.
É o ego apavorado com a própria escuridão, projetando no mundo o que não suporta ver dentro.
Julgam porque têm medo – medo de olhar pra dentro e encontrar o mesmo pecado, o mesmo vício, a mesma sombra que condenam.

Quem nunca foi arrancado do próprio eixo pela dor, não entende o desespero que leva alguém ao erro.
Mas o mundo está cheio de juízes de almas — homens e mulheres que nunca encararam a própria podridão, mas vivem prontos para medir a dos outros.
Vestem-se de moral e chamam isso de virtude.
Falam de Deus, mas nunca o sentiram.
Porque quem realmente o sente, cala.
Quem o conhece, não aponta.

A moral virou teatro.
As pessoas se vestem de virtude e desfilam na passarela do ego, esperando aplausos por parecerem justas.
Mas a alma… a alma sabe.
Ela sussurra baixinho que ninguém é só o que mostra, e que o verdadeiro mal é o esquecimento de si.

O julgamento é a religião dos que têm medo do espelho.
Cada dedo estendido é uma confissão disfarçada:

Eu também carrego isso dentro de mim, mas não quero ver.

É curioso: quanto mais o ser humano grita “pecador!”,
mais tenta abafar o som da própria consciência.
O julgamento é um espelho invertido — nele, projetamos tudo que não suportamos em nós.

Por isso, os santos são raros: porque são os únicos que já se viram inteiros – luz e treva, e não precisaram mais de um culpado para se sentirem salvos.

No fundo, quem julga tenta se proteger.
Tenta garantir que o caos do outro não chegue perto.
Mas o que não percebem é que o inferno que apontam vive dentro delas mesmas.

E é assim que seguimos — um planeta inteiro de hipócritas feridos,
acusando o reflexo enquanto o sangue escorre do próprio peito.
A humanidade se tornou um tribunal sem amor,
onde todos são promotores e ninguém quer ser réu.

Mas o verdadeiro despertar acontece no silêncio da queda,
quando o ego perde o fôlego e a alma sussurra:

“Você é igual a todos que julgou.”

Nesse instante, algo muda.
A pedra cai da mão, o olhar amolece, o coração aprende a ajoelhar.
Porque a compaixão só nasce depois que morremos um pouco —
morrermos de vergonha, de culpa, de consciência.

A luz não julga: ilumina.
E iluminar é revelar o que estava escondido — inclusive em nós.
Quem compreende, não condena; acolhe.
Quem desperta, não acusa; entende.
Porque sabe que a alma humana é uma escola de erros,
e que o inferno que apontamos nos outros
é o mesmo fogo que um dia nos queimou por dentro.

Então, da próxima vez que alguém te chamar de pecador,
sorria.
É apenas um sonâmbulo tentando acordar.

Quem luta com monstros deve cuidar para não se tornar um deles.
E, se olhares por muito tempo para um abismo, o abismo também olha para ti
.”
— Friedrich Nietzsche

Toda vez que apontas o dedo para o inferno alheio, um demônio dentro de ti desperta para aplaudir.

Haux!


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Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, filósofo cômico, professor e editor-chefe do Factótum Cultural.

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