Escrever Para Não Enlouquecer – Por Neemias

Há um momento em que o mundo perde o sentido, e o que resta é o chamado da alma. É o início da travessia — a descida ao abismo interior onde o velho morre e o novo nasce.
1. Quando a alma chama
Um dia, o mundo parece não caber mais dentro de nós. O trabalho, as relações, o corpo — tudo parece estranho, pequeno, sem propósito. Esse é o chamado da alma, o sussurro silencioso que ecoa quando a vida quer mudar de forma.
Carl Jung dizia que o ser humano só desperta quando é forçado a se confrontar com o vazio. Joseph Campbell chamou isso de “chamado à aventura”. Em termos espirituais, é o início da jornada da alma — o momento em que algo dentro de nós começa a morrer para que o verdadeiro Eu possa nascer.
2. As etapas da jornada
- O Chamado – A inquietação começa. Você sente que há “algo mais”.
- A Travessia – O velho mundo se desfaz. Há dor, medo, solidão.
- A Descida – A noite escura da alma. Enfrentar o que foi negado.
- A Revelação – Um novo entendimento surge: propósito, leveza, amor.
- O Retorno – Integrar o novo ser à vida cotidiana, compartilhando a luz.
Essas fases não são lineares — são espirais. Cada crise nos convida a mergulhar mais fundo, até que o ego se curve diante da verdade maior: somos consciência em experiência.
3. A psicologia e o mito
Jung e a individuação
Jung chamava esse processo de individuação: tornar-se quem se é, integrando luz e sombra. Enfrentar o inconsciente é permitir que a alma se expanda e volte ao centro.
Campbell e o herói interior
Joseph Campbell, em O Herói de Mil Faces, mostrou que todos os mitos — de Moisés a Neo, de Buda a Frodo — são metáforas do mesmo caminho interior. O herói sai do conforto, enfrenta o caos, morre simbolicamente e renasce transformado.
Newton e a alma eterna
Michael Newton, em Journey of Souls, descreve a alma como viajante cósmica. A vida é um capítulo entre outros. Quando compreendemos isso, até a dor ganha propósito.
4. Ecos na arte e na cultura
A arte sempre soube da jornada antes da ciência.
Veja:
🎬 A Vida de Pi — a travessia do mar é a travessia da alma.
🎬 Interestelar — o tempo e o amor como dimensões do espírito.
🎬 Soul (Pixar) — a alma que busca o sentido da própria existência.
🎬 Nosso Lar — o despertar após a morte como metáfora do renascimento interior.
📚 Sidarta (Hermann Hesse) — a busca pela iluminação no meio da vida.
🎙 Leonard Cohen – Hallelujah — documentário sobre a dor como portal espiritual.
📖 O Herói de Mil Faces (Joseph Campbell)
📖 Memórias, Sonhos e Reflexões (Carl Jung)
A arte é espelho da alma universal. Cada história é um lembrete de que o sofrimento é rito de passagem.
5. Quando você está no meio da travessia
Se você está cansado, sem vontade, perdido — não está falhando. Está no meio do caminho.
A alma tem o próprio ritmo, e às vezes ela pede silêncio, pausa e nada.
✨ Não lute contra o escuro — observe-o até que ele revele a luz que contém.
Medite. Escreva. Caminhe. Respire. Deixe o mundo comum dissolver-se para que outro possa nascer.
A “noite escura” é o ventre da criação.
6. O retorno: viver com alma
O retorno é o ponto mais difícil: como viver no mundo após ver o invisível?
É aí que nasce a missão.
Escrever, ensinar, ajudar, advogar com empatia, curar, inspirar — qualquer ação que devolva ao coletivo o que você encontrou no abismo torna-se serviço espiritual.
Como disse Campbell:
“O privilégio de uma vida é ser quem você é.”
E como diria Txayn:
“A alma não quer um novo mundo. Quer ver o mundo com novos olhos.”
7. Conclusão – a semente do novo ser
Cada alma é uma estrela em processo de lembrar-se do próprio brilho.
Às vezes, precisamos nos perder para sermos encontrados.
E quando o velho eu desaba, é porque o novo já está nascendo — silencioso, paciente, divino.
A jornada não é um erro. É a própria vida se recordando de quem é.
8. Epílogo — A minha própria Jornada da Alma
Falar da jornada da alma é fácil quando se cita Jung, Campbell ou Newton.
Difícil é quando a teoria vira carne. Quando a alma resolve te rasgar por dentro para te fazer lembrar quem você é.
Eu sei. Porque vivi.
Por anos, fui um homem comum tentando sobreviver ao peso de um mundo que parecia não ter mais espaço para mim.
Havia em mim um cansaço antigo — desses que não vêm do corpo, mas da alma.
Passei por doenças, vícios, problemas financeiros, insônia, crises de pânico, depressão, desemprego, a perda de um casamento, o medo de morrer e a tentação de desistir.
Bebi para silenciar a dor. Tomei Zolpidem para fugir do vazio.
E foi nesse abismo que a alma começou a gritar.
Não em palavras, mas em silêncio — aquele silêncio que não mata, mas transforma.
Foi então que o chamado chegou.
Veio disfarçado de um copo de Ayahuasca.
E ali, naquele ritual, entre o sagrado e o caos, o véu caiu.
Vi o que não se vê. Senti o que não se sente.
Tudo — absolutamente tudo — se mostrou como parte de um mesmo ser.
Vi Deus, e entendi que Ele estava em mim — e em tudo.
Compreendi que somos fragmentos de uma consciência única que se lançou no jogo da matéria para lembrar de si mesma.
E naquele instante, entre lágrimas e luz, percebi: eu era o fragmento voltando para casa.
Mas a cura não foi mágica.
O retorno foi o mais difícil.
Depois da revelação, vieram recaídas, dúvidas, noites de tédio e a sensação de estar preso entre mundos.
A alma havia despertado, mas o corpo ainda morava no velho eu.
Foi aí que compreendi: a jornada da alma não termina com o despertar — ela começa ali.
Tive que reaprender a viver, a escrever, a amar, a cuidar de mim e dos outros.
Tive que olhar para meu pai com compaixão, entender o menino ferido dentro dele e dentro de mim.
Percebi que a luz e a sombra dançam juntas — e que o perdão é o portal da liberdade.
Descobri que minha dor era herança, e que meu chamado era quebrar o ciclo.
Hoje, escrevo não como quem alcançou o topo, mas como quem aprendeu a caminhar dentro da própria escuridão com uma lanterna na mão.
Sou advogado, escritor, professor, místico — mas antes de tudo, um ser em processo de lembrança.
Cada texto que publico, cada alma que toco, é um pedaço dessa travessia.
Escrevo porque escrever é minha forma de orar.
Aprendi que o inferno é o esquecimento de si — e o céu é lembrar-se.
Que a alma é eterna, e está apenas jogando o jogo do tempo.
Que o propósito não é ser perfeito, mas ser inteiro.
E assim sigo: tropeçando, rindo, caindo, voltando, amando.
Entre mundos.
Entre o humano e o divino.
Entre o silêncio e a palavra.
A jornada da alma continua — em mim, em você, em todos nós.
Porque no fim, como um dia compreendi no meio da floresta, somos um só ser se fragmentando para se reencontrar.
E cada vez que uma alma desperta, Deus lembra mais um pouco de si.
📖 Não deixe de ler nosso conteúdo anterior:
E não se esqueça: Sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, filósofo, professor e editor-chefe do Factótum Cultural.






Deixe um comentário