Por Txayn

Certa vez, Txayn estava à beira de um lago que refletia o céu. O dia era tão quieto que parecia suspenso entre dois mundos. A superfície da água tremia como se respirasse, e então um coelho feito de luz saltou das profundezas. Tinha olhos de relógio e uma voz de criança antiga.
— O tempo está acabando, Txayn… ou talvez esteja apenas começando.
Curioso e um pouco cansado de si mesmo, Txayn mergulhou atrás dele. Mas não caiu para baixo — caiu para dentro. Caiu em si.
Quando abriu os olhos, estava em um lugar onde o chão era feito de perguntas e o céu, de lembranças. Árvores falavam em silêncio. Sombras tinham perfume. E bem no centro de tudo havia um espelho gigantesco, rachado em mil fragmentos, cada um pulsando como um coração.
Txayn se aproximou e tentou se ver, mas cada pedaço refletia uma versão diferente: o menino ferido que temia o mundo, o homem que lutava contra a própria sombra, o advogado exausto, o filósofo risonho, o místico sereno. Nenhum deles era o todo. Cada um era apenas uma faísca daquilo que ele chamava de “eu”.
Enquanto observava, uma lagarta dourada surgiu sobre um cogumelo feito de lembranças. Soprava anéis de fumaça que se transformavam em mandalas.
— Quem é você? — perguntou ela.
— Não sei mais — respondeu Txayn. — Acho que sou muitos.
— Então seja todos, mas não se perca daquele que observa. O que vê o jogo não precisa vencer — precisa acordar.
Txayn seguiu adiante e foi parar diante de um castelo feito de cartas embaralhadas, onde uma rainha gritava:
— Cortem-lhe a cabeça! Ele pensa demais!
No trono, ela usava uma coroa de espelhos e um sorriso falso. As cartas, com rostos de emoções humanas, julgavam-no em silêncio. Uma chorava, outra gargalhava, outra dormia. E todas exigiam que ele escolhesse qual delas queria ser.
Cansado, Txayn largou as armas invisíveis que carregava e disse apenas:
— Eu desisto de entender. Quero apenas sentir.
Nesse instante, a rainha arrancou a própria coroa. Por baixo dela, havia o rosto de uma criança — puro, luminoso e simples.
— Agora você entendeu — disse a criança, antes de desaparecer.
De repente, o castelo desmoronou em luz. O chão se abriu e Txayn voltou a cair. Mas desta vez, caiu para fora — de volta ao lago do início.
A água estava calma. O reflexo mostrava o espelho rachado dentro dele. Cada fragmento brilhava de forma diferente, mas juntos formavam um rosto só.
O coelho reapareceu à margem e sorriu:
— O País das Maravilhas não está embaixo da terra, Txayn. Está embaixo da tua pele.
Txayn sorriu de volta. E naquele sorriso, algo dentro dele despertou.
O lago deixou de ser apenas um espelho — tornou-se uma porta.
E o mundo, pela primeira vez, pareceu acordar junto com ele.
✨ Moral
Quem tenta entender o mistério se perde no reflexo.
Quem o sente, desperta — e percebe que o espelho sempre foi o próprio coração.

🧙♂️ Txayn
🌿 Originário, viajante entre mundos. Guardião de histórias e símbolos.
🌓 Caminho entre luz e sombra, onde tudo se mistura.
🌀 Sigo rastros invisíveis e deixo perguntas — nunca respostas.
🦎 Cada história é uma lanterna acesa no escuro.
Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.
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