Por Txayn

A floresta virou vitrine, o sagrado virou produto — e o ego, empresário. Mas a Ayahuasca não se vende. Ela te mostra.
Dizem que o Txayn uma vez foi a um ritual de Ayahuasca.
Não porque queria ver Deus — mas porque Deus andava calado demais.
Chegou descalço, coração aberto e ego meio disfarçado de humildade, como quem leva flores para o próprio velório.
A fogueira ardia, o tambor chamava, e o Txayn — ah, o Txayn — bebeu.
Na primeira dose, chorou.
Na segunda, abraçou o Universo.
Na terceira, já se via criando o próprio.
“Sou a luz!”, gritou para dentro de si.
Mas, como toda luz nova, ofuscou-se com o próprio brilho.
Nos dias seguintes, decidiu abrir um perfil no Instagram chamado “Despertar com Txayn”.
Fundou um grupo no WhatsApp: “Despertos da Nova Era – Amor, Luz e Pix.”
Logo o Txayn virou estrela.
Vendia cursos de iluminação, atendimentos com hora marcada e até kits de “cura quântica amazônica” com brinde de rapé artesanal.
Fez parcerias com marcas de incenso e lançou o Txayn Blend Experience — “Ayahuasca sem dor de cabeça”.
Deus, se visse aquilo, pediria reembolso.
O mercado espiritual aplaudiu.
A floresta, não. Sábia e paciente, apenas observava.
Porque enquanto uns vendiam “pacotes de expansão de consciência”, os velhos pajés morriam no silêncio, esquecidos nas beiras do rio.
Enquanto o mundo se iluminava em stories, a mata escurecia — de tanto ser explorada.
Mas a Ayahuasca não se deixa domesticar. Ela não julga, ela espera o momento em que o ego inflado se desinfla sozinho.
Um dia, o Txayn voltou para outro ritual, dessa vez sem câmeras, sem seguidores, sem Pix. Não para ver mais visões, mas para ver a si mesmo.
E a bebida o pegou de jeito.
Mostrou-lhe o próprio reflexo: o curandeiro de mentira, o guru de aluguel, o profeta de algoritmo.
Vomitou tudo. Inclusive as máscaras.
E no vômito veio a verdade:
“A cura não se vende. A floresta não é palco. E a luz que se vende em potes apaga rápido.”
Saiu do ritual sem vontade de ensinar ninguém.
Parou de prometer cura, começou a praticar presença.
Descobriu que ser luz é carregar o próprio escuro com dignidade.
Desde então, o Txayn anda meio calado.
Não conduz ninguém, não promete nada.
Não fala sobre iluminação — acende o lampião e ajuda quem tropeça no caminho.
E às vezes, quando alguém lhe pergunta se a Ayahuasca mudou sua vida, ele sorri e responde:
“Não. Eu é que parei de tentar mudar o mundo antes de aprender a varrer a minha alma.”
Porque quem bebe Ayahuasca para lucrar, vende a alma com juros.
E quem bebe para lembrar, paga com lágrimas, não com dinheiro.

🧙♂️ Txayn
🌿 Originário, viajante entre mundos. Guardião de histórias e símbolos.
🌓 Caminho entre luz e sombra, onde tudo se mistura.
🌀 Sigo rastros invisíveis e deixo perguntas — nunca respostas.
🦎 Cada história é uma lanterna acesa no escuro.
Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.
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