A imagem de um homem indeciso na beira da rua, paralisado pela dúvida sobre qual caminho seguir, capturada em um domingo a caminho de uma ação comunitária com minha esposa, ecoa como uma metáfora da vida moderna. Imersos em um oceano de opções, paradoxalmente, nos vemos imobilizados.

Embora a multiplicidade de escolhas sempre tenha me parecido sinônimo de liberdade e potencial para o sucesso, a prática clínica e a experiência na docência universitária revelam uma realidade diferente: o excesso de opções frequentemente desemboca em angústia e ansiedade, comprometendo o bem-estar. Estaríamos, então, testemunhando a manifestação do paradoxo da escolha, um fenômeno que impacta nossa capacidade de encontrar harmonia e sentido?

Vivemos em uma era de abundância, desde a infinidade de sabores de sorvete até os milhares de cursos, carreiras e aplicativos de relacionamento. O mundo digital e interconectado nos oferece um vasto acesso à informação e ao conhecimento, mas, paradoxalmente, nos deixa com pouca sabedoria para discernir e escolher conscientemente. Em teoria, essa abundância deveria nos levar à felicidade, permitindo moldar a vida conforme nossos desejos.

No entanto, o psicólogo Barry Schwartz, em seu livro O Paradoxo da Escolha, demonstra que essa lógica é falha. Segundo ele, “o excesso de opções na sociedade moderna,  na verdade, leva à paralisia da decisão e à insatisfação crônica” (Schwartz, 2004, p. 1). Essa afirmação resume a problemática central: o que deveria ser libertador transforma-se em um fardo mental, impedindo-nos de alcançar um estado de equilíbrio interno.

Para compreender o impacto desse fenômeno, é fundamental analisar o que ocorre em nossos processos cognitivos. A memória, definida por Ulric Neisser como o processo de transformar, reduzir, elaborar, armazenar, recuperar e usar a informação (Neisser, 1967), é um sistema central afetado pela sobrecarga de opções. Essa sobrecarga se manifesta de diversas formas. Primeiramente, avaliar cinquenta opções demanda um esforço cerebral muito maior do que avaliar somente cinco. Esse esforço, necessário para o mecanismo de comparação e avaliação, consome a memória de trabalho, resultando em exaustão e sobrecarga cognitiva (Schwartz, 2004). A amplitude desse esforço pode levar à paralisia da análise, onde se opta por não escolher nada, como ilustra a imagem do homem hesitante na rua, incapaz de dar o primeiro passo diante de tantos caminhos. Em segundo lugar, a sobrecarga de escolhas gera um aumento irreal das expectativas: a abundância de opções, inconscientemente, leva-nos a acreditar que devemos encontrar a opção perfeita. Como postulado na tese do Paradoxo da Escolha, essa abundância eleva as expectativas a um patamar inatingível. A busca incessante pela opção perfeita torna-se uma corrida sem linha de chegada, pois a realidade raramente corresponde à fantasia da melhor de todas as opções, minando a satisfação.

Além disso, mesmo após a escolha, o arrependimento e os custos de oportunidade podem persistir, pois o excesso de opções facilita a imaginação do que perdemos. Schwartz (2004) ressalta que o excesso de escolhas aumenta o potencial de arrependimento. As vantagens das opções descartadas surgem em nossa mente, diminuindo o prazer com a escolha realizada e gerando uma memória emocional negativa do evento.

Assim, a culpa e o arrependimento agravam a situação. Antigamente, um defeito em um único modelo de celular disponível era atribuído ao fabricante. Hoje, com centenas de modelos, o arrependimento pela escolha é frequentemente interpretado como uma responsabilidade puramente pessoal, prejudicando a satisfação e o bem-estar. Essa tendência à ansiedade, associada à dimensão do neuroticismo na teoria da personalidade de Hans Eysenck (Eysenck, 1967), é intensificada pelo ambiente de escolhas ilimitadas, onde a falha na decisão é vista como falha de caráter.

Ao longo de minha experiência profissional, observei estudantes universitários buscando entender por que alguns se sentem felizes com poucas escolhas e adotam um estilo de vida mais simples. Nesses momentos, procurei desafiar suas estruturas cognitivas com uma pergunta simples: o que lhe satisfaz? Uma resposta, proferida por um aluno que, dentro de seu propósito, afirmou ter mais do que precisa para viver bem, revelou a essência do que buscávamos. Essa resposta aponta o caminho para o bem-estar psicológico em um mundo sobrecarregado.

O livro, Paradoxo da Escolha, ensina uma lição importante sobre como as pessoas se comportam, dividindo-as em dois grupos: maximizadores e satisfeitos. Os maximizadores procuram incansavelmente a melhor opção de todas, vivendo sempre preocupados com a pergunta: E se existir algo superior?. Embora possam conseguir resultados melhores em algumas situações (Schwartz, 2004), eles geralmente se sentem menos felizes e se arrependem mais das escolhas que fizeram. Já os satisfeitos buscam apenas o que é bom o suficiente. Eles definem critérios claros e param de procurar assim que encontram algo que os agrada. Por isso, os satisfeitos tendem a ser mais felizes e menos ansiosos (Schwartz, 2004).

A partir da observação clínica e da reflexão filosófica, entendo que a solução para a ansiedade e a busca por sentido não reside em ter mais, mas em aprender a querer menos, em aceitar o que é bom, em vez de almejar apenas o melhor do mundo. Adotei, assim, uma perspectiva minimalista, buscando desacelerar os pensamentos, priorizar as boas relações humanas (mesmo que em menor número), descartar objetos que consomem meu tempo e evitar as armadilhas das redes sociais que, com seu turbilhão de recompensas mentais, perpetuam o comportamento de busca incessante.

Assim, a procura por um estilo de vida mais genuíno e tranquilo envolve, inevitavelmente, a alteração de padrões. Precisamos rejeitar a falsa ideia de que a segurança está na abundância, uma convicção que se mostra um mecanismo de restrição ao nosso potencial total. A rota para recuperar a tranquilidade e a harmonia está na descoberta do que é realmente importante e na ligação intensa com a natureza. A genuína satisfação e a saúde mental não podem ser compradas, mas sim cultivadas: ao restringirmos nossas decisões de maneira consciente, estamos superando nossas limitações.

Referências

EYSENCK, H. J. The Biological Basis of Personality. Springfield: Charles C. Thomas Publisher, 1967.

NEISSER, U. Cognitive Psychology. New York: Appleton-Century-Crofts, 1967.

SCHWARTZ, B. O Paradoxo da Escolha: Por Que Mais É Menos. São Paulo: Cultrix, 2004.

Adriano Nicolau da Silva, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Uberaba, MG. Colunista do Factótum Cultural. E-mail: adrins@terra.com.br

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