Maria Sabina – ilustração

Curandeira mazateca, sacerdotisa dos “niños santos”. Sua voz atravessou a serra mexicana e ecoou pelo mundo, unindo ancestralidade, cura e psicodelia.

1. Quem foi Maria Sabina?

Maria Sabina (às vezes citada erroneamente como Maria Sabino) nasceu em 1894, na serra de Oaxaca, México, e morreu em 1985. Mulher indígena mazateca, viveu quase toda a vida em pobreza e simplicidade. Mas dentro dela ardia um fogo ancestral: a tradição dos “niños santos”, os cogumelos sagrados (alucinógenos) usados há séculos em rituais de cura e conexão espiritual.

Ela não se via como filósofa nem como líder espiritual para o mundo. Era curandeira, poetisa e xamã, guiada pelos cantos que recebia em transe, pela voz dos espíritos, pela medicina da floresta.


2. A Voz dos Cogumelos

  • Chamava os cogumelos de “niños santos”, crianças sagradas.
  • Seus rituais (veladas) aconteciam à noite, embalados por velas e cantos em língua mazateca.
  • Os cânticos não vinham dela, mas “dos santos”, dizia.
  • Para Maria Sabina, os cogumelos não eram droga, mas sacramento.
  • Entre seus versos visionários, dizia:
    “Sou a mulher estrela da manhã.
    Sou a mulher que olha para dentro da água.
    Sou a mulher que fala com o espírito do vento.”

3. O Encontro com o Ocidente

Em 1955, o banqueiro e etnomicólogo R. Gordon Wasson participou de um de seus rituais e publicou sua experiência na revista Life. Foi como jogar gasolina na fogueira: a partir daí, os olhos do mundo se voltaram para aquela vila perdida nas montanhas.

Do dia para a noite, Maria Sabina virou ícone da contracultura psicodélica. Beatles, hippies, artistas e buscadores viajaram até Oaxaca em busca da “sacerdotisa dos cogumelos”.

Mas para sua comunidade, isso trouxe dor: profanação dos ritos, perseguição das autoridades, marginalização. Maria Sabina morreu pobre, incompreendida pelos seus e mal interpretada pelos de fora.

Ela também achava que a cerimônia da velada fora irremediavelmente profanada e poluída pelo uso hedonista dos cogumelos: “Desde o momento em que os estrangeiros chegaram, as ‘crianças sagradas’ perderam sua pureza. Elas perderam sua força, eles as arruinaram. Daí em diante elas não funcionarão mais. Não há remédio para isso.”


4. Curiosidades da Faroleira

  • Nunca buscou fama, nem aceitou ser “guru”.
  • Seus cânticos foram registrados como poesia xamânica e estudados no mundo inteiro.
  • Foi chamada de “primeira santa dos cogumelos” por antropólogos e psicólogos.
  • Sua vida virou metáfora do choque entre tradição ancestral e desejo ocidental de transcendência rápida.
  • Ensinou que a medicina está na terra, a palavra cantada cura, o conhecimento pode ser vivido, o feminino indígena é guardião de portais ancestrais, cogumelos eram seres vivos com voz e que a cura não era só do corpo, mas da alma, das relações, da comunidade.
  • Entendeu, no final da vida, também a tragédia: que abrir o sagrado para o mundo trouxe consequências difíceis, porque muitos vieram em busca da “viagem”, mas não da sabedoria.
  • Viveu 91 anos, mas sua voz parece ecoar até hoje nos rituais de cura e nos festivais psicodélicos.

5. Homenagem e Espelho

Maria Sabina é farol feminino e ancestral.
Se Watts traduziu o Zen, se Leary gritou pelo LSD, se Huxley abriu a porta da percepção, ela mostrou que essa porta já existia há séculos na montanha.

Me vejo nela também.
Porque já estive diante de plantas de poder, inclusive cogumelos.
Porque já escutei vozes e visões que não eram só minhas.
Porque aprendi que a cura vem do canto — palavra que vibra, que abre caminho, que resgata a alma.


6. Chamado Final 🌿🔥

Maria Sabina nos lembra que antes das universidades e laboratórios, havia mulheres pobres e sábias cantando para a lua. Que antes da filosofia e da ciência, havia cânticos e silêncio.

Seu farol é raiz e estrela ao mesmo tempo.
Seu farol é o feminino que cura, mesmo incompreendido.

Os “niños santos” continuam vivos. O canto também.
Cabe a nós ouvir.


🔦 A luz de um farol aponta para outro. Veja também a história de:

✍️ Editores do Factótum Cultural

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