Escrever Para Não Enlouquecer – Por Neemias

O rei Ezequias governou Judá há quase três mil anos. Era considerado um bom rei: fiel a Deus, justo, reformador. Derrubou altares pagãos, purificou o Templo e devolveu ao povo o culto verdadeiro.
Mas um dia, adoeceu gravemente. O profeta Isaías veio visitá-lo e entregou uma mensagem direta, sem rodeios:
“Assim diz o Senhor: Põe em ordem a tua casa, pois morrerás e não viverás.”
— 2 Reis 20:1
A ordem parecia estranha. Por que um homem que governava bem e buscava Deus precisava “pôr a casa em ordem”?
Porque há dois tipos de casa:
- A externa, que todos veem: bens, posição, imagem, relacionamentos, conquistas.
- E a interna, invisível: coração, mente, alma, aquilo que ninguém vê, mas que Deus conhece.
Quando a doença é o profeta
A enfermidade de Ezequias foi mais do que física. Ela foi o Isaías que bate à porta da alma para dizer:
“O tempo está passando. Há coisas que precisam ser alinhadas agora.”
Ezequias não ignorou. Virou o rosto para a parede, chorou e orou com sinceridade. Recebeu mais quinze anos de vida.
Não foi apenas curado do corpo — ganhou tempo para reorganizar o espírito.
O chamado nos sonhos
Essa história antiga se aproximou de mim de forma inesperada: por meio de sonhos que tive em julho.
No primeiro, eu lavava louça enquanto meus pais estavam sentados na área. De repente, olhei para meu pai e, com firmeza — quase tomado por uma força maior — falei sobre o rei Ezequias. Minha mãe entendeu, mas meu pai respondeu com sarcasmo, como quem diz: “Vindo de você, isso é engraçado.”
Acordei pensando que a mensagem era para ele. Mas, com o tempo, entendi que talvez fosse para mim também. E talvez para todos. Porque às vezes somos o mensageiro, mas também quem precisa ouvir a mensagem.
No segundo sonho, estava numa casa cheia de gente, e serviam bolo de ayahuasca. Uma moça me deu um pedaço, e eu me preparei para falar sobre o que vivi com a medicina. Acordei lembrando de como a ayahuasca foi importante para mim, especialmente na primeira vez, e como ela me ajudou a abrir cômodos internos que eu nem sabia que existiam.
O caminho da arrumação
Colocar a casa em ordem nem sempre é agradável. É abrir portas que evitamos, enfrentar lembranças que doem, reconhecer hábitos que nos afastam do que queremos ser.
Às vezes a vida coloca no nosso caminho ferramentas para isso. Para mim, a ayahuasca foi uma delas — um chamado para limpar, confrontar e reorganizar.
Mas, diferente das histórias que terminam com “felizes para sempre”, a vida real é feita de idas e vindas.
Entre avanços e recaídas, sigo tentando pôr a casa em ordem
Colocar a casa em ordem é uma luta. Comecei a abrir portas, limpar cantos e encarar cômodos que por muito tempo ficaram trancados — alguns porque eu não queria ver, outros porque nem sabia que existiam.
Tem dias em que avanço e penso que estou perto de algo novo. Mas, muitas vezes, volto para velhos hábitos, me perco de mim mesmo e a angústia retorna.
Não é uma linha reta, e talvez nunca seja. Ainda assim, sigo tentando.
E é aqui que entendo algo maior: às vezes sou Ezequias, precisando ouvir o chamado para arrumar a casa. Outras vezes sou Isaías, levando essa mensagem a alguém. E talvez, no fundo, sejamos sempre os dois — porque todos somos uma só consciência, e a palavra que cura o outro também cura a nós. Curador também precisa de cura.
Esse chamado para pôr a casa em ordem me lembra do que escrevi em Psicologia Ancestral, Xamanismo e Rituais de Cura: a importância de encarar padrões herdados e usar práticas ancestrais como caminho de transformação. Também se conecta com O Dia em Que Fui Iniciado, onde relatei como a ayahuasca abriu portas internas que eu nem sabia que existiam, iniciando um processo de cura que ainda está em andamento — e que talvez nunca tenha fim.
E não se esqueça: Todo sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.
E se, em algum momento da sua jornada, a escuridão apertar e você esquecer que existe saída, lembra: eu também já estive lá. Ainda estou arrumando a minha casa, entre avanços e recaídas. E se precisar, tô aqui. Haux!

⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, filósofo, professor e editor-chefe do Factótum Cultural.






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