Escrever Para Não Enlouquecer – Por Neemias

Adultos desmamando do capitalismo com silicone e sarcasmo
🍼 Você acorda, abre o Instagram, e lá está: um homem barbado com uma chupeta azul.
Não é carnaval. Não é fetiche (ou é?).
É “tendência”.
“Depois de bebê reborn e morango do amor, a nova moda é o uso de chupeta entre adultos.”
— disse um portal que juro que não é o Sensacionalista.
E você, que até ontem pensava que já tinha visto de tudo depois do retorno do tamagotchi, do crocs com meia e do coach de respiração consciente… agora encara a seguinte realidade:
Estamos, coletivamente, tentando voltar pro útero. E sem pedir licença.
1. Crescer foi um erro coletivo
Ninguém avisou que ser adulto envolvia boletos que se multiplicam como Therians molhados, crises existenciais a cada segunda-feira, reuniões que poderiam ser eutanásia social e uma quantidade alarmante de “bom dia com gratidão” no WhatsApp da família.
A verdade?
A vida adulta está fadada ao fracasso estético e emocional.
Por isso, a chupeta surge como símbolo de um protesto silencioso, mas profundamente articulado:
“Chega. Cansei de fingir maturidade. Quero colo. Quero sumir. Ou, no mínimo, mamar numa coisa que não seja o sistema bancário.”
2. Freud explica. Mas TikTok viraliza.
Freud falava da fase oral, da pulsão de vida, da busca pelo prazer primitivo.
TikTok transforma isso em trend.
Hoje, temos adultos se vestindo de bebês gigantes, não para encenar trauma — mas porque é menos cansativo do que encenar um ser humano funcional.
E o mais louco: funciona.
Vídeos com adultos chupando chupeta recebem milhares de likes, milhões de views e, provavelmente, uma legião de seguidores dizendo:
“Eu entendo.”
3. O berçário da desesperança: onde tudo começou
Na real, essa onda não começou com uma chupeta. Começou com a solidão.
Depois veio o Zolpidem, a meditação de aplicativo, o coach, o ASMR, a dopamina artificial, o “cura em 3 passos” e, agora, o bico de silicone.
Tudo isso são sintomas de um mesmo mal:
a alma cansada de parecer bem.
Estamos todos exaustos.
Da performance. Da positividade tóxica. Da produtividade como identidade.
E a chupeta… talvez seja um símbolo de rendição.
Um grito abafado com gosto de morango e trauma não resolvido.
4. Não é fetiche. É desespero.
Claro, há quem reduza tudo a um fetiche excêntrico.
Mas talvez a chupeta seja um lembrete visual de que o mundo virou um hospício com plano de dados.
Quem usa chupeta aos 40 não quer sexo. Quer silêncio.
Quer voltar pra um tempo onde não precisava decidir entre Pix ou comida, entre ser bem-sucedido ou ter saúde mental, entre responder e-mails ou desaparecer da face da Terra.
5. Chupetas e filósofos
Se Platão vivesse hoje, provavelmente teria um podcast com Aristóteles e faria stories dizendo:
“A caverna era um útero e o mundo real… um delírio capitalista. Compre minha linha de chupetas filosóficas.”
Nietzsche?
Já teria chutado o balde e dito: “Deus está morto. E eu estou com refluxo. Onde está minha chupeta?”
6. Um símbolo de rebelião estética
No fim, a chupeta pode não ser só um mimo de criança grande.
Ela pode ser um símbolo. Um novo “não” à vida como ela é vendida:
- Seja adulto.
- Seja forte.
- Seja independente.
- Seja feliz.
- Seja produtivo.
- Seja magro.
- Seja sóbrio.
- Seja tudo isso… sorrindo.
Mas e se eu quiser ser só… alguém que não quer nada disso?
Talvez, nesse caso, a chupeta não seja regresso.
Seja revolução.
7. O desmame espiritual: um caminho possível?
Talvez essa moda esteja apontando pra algo muito mais profundo: o desmame da alma.
Desmamar do ego.
Desmamar da espiritualidade tóxica.
Desmamar da correria.
Desmamar das máscaras.
Desmamar do Zolpidem, do álcool, do “preciso ser alguém”.
E voltar, lentamente, ao estado de presença.
Ao silêncio que só uma respiração pode trazer.
Ao colo interno que você negou por décadas.
E, quem sabe…
ao riso.
Epílogo
“Quem usa chupeta na fase adulta não está voltando à infância. Está fugindo do inferno que a sociedade virou.”
– Txai, ex-usuário de Zolpidem, agora mamando só no sarcasmo
📌 Se esse artigo te fez rir, pensar ou querer comprar uma chupeta personalizada com seu signo: respira. Você não está sozinho.
Aqui, escrevemos para não enlouquecer.
Ou, pelo menos, para tornar a loucura mais suportável com estilo.
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E não se preocupe: aqui ninguém vai te julgar se você estiver lendo isso de fralda. 😉
Essa chupeta, aliás, talvez seja o novo totem da masculinidade em crise, como já exploramos em “Legendários: o culto da masculinidade em crise — entre uivos, bonés e boletos emocionais”. Só que agora, os guerreiros modernos não empunham espadas — eles sugam o silêncio com silicone azul. E se olharmos mais fundo, essa nova tendência não é moda, é sintoma da Sombra que ainda insiste em se manifestar, como dissemos em “Sombra: a parte de você que se recusa a ser esquecida”. Ela surge, não como monstro, mas como criança ferida — faminta por colo, por pausa, por sentido. Afinal, no fim das contas, talvez sejamos apenas adultos encenando bravura, enquanto tudo o que queremos… é dormir em paz sem precisar fingir.
E não se esqueça: Todo sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.
Haux!

⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, filósofo, professor e editor-chefe do Factótum Cultural. Se perdeu entre os livros, os filmes, os boletos e os rituais de Ayahuasca. Escreve para não enlouquecer — e às vezes enlouquece para escrever melhor.






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