Por Adriano Nicolau da Silva

Resumo
Neste artigo, vamos conversar sobre a ansiedade e a História Pública. A partir de uma pesquisa bibliográfica, percebi que a maioria das discussões sobre ansiedade se concentra no aspecto biológico, deixando de lado o quanto as crises sociais nos afetam. Minha ideia é mostrar que a ansiedade, que é uma emoção fundamental para nossa sobrevivência, tem sido intensificada por fatores modernos como crises econômicas, violência e a vida nas redes sociais. A História Pública entra aqui como uma forma de entender como as histórias que contamos e ouvimos sobre o passado moldam a maneira como vemos a ansiedade. O objetivo é propor uma abordagem mais humana e integrada que use a história e as emoções para promover o bem-estar mental, ressaltando a urgência de políticas públicas acessíveis e do combate ao preconceito.
Introdução
A ansiedade, aquela sensação de preocupação e medo que todos nós já sentimos, é uma parte da nossa história como seres humanos (Barlow, 1999). Mas quando a gente olha para a História Pública, a ansiedade ganha um novo significado. Ela nos ajuda a entender como o passado é interpretado, como as narrativas históricas são construídas e como nós, como público, nos relacionamos com o conhecimento da história. Minha intenção aqui é explorar como essa emoção se manifesta e como ela influencia nossa percepção do passado e o nosso presente.
A História Pública não tem uma definição única e fechada, o que, na verdade, é uma coisa boa. Essa flexibilidade, como aponta Santhiago (2016), nos permite explorar diferentes perspectivas. A beleza dessa área é que ela nos dá a chance de ir além dos muros da universidade e usar a história para falar sobre o que realmente importa, como a saúde mental (Almeida & Rovai, 2011). É sobre levar a história para mais gente, tornando-a útil e relevante para a sociedade.
Ao olhar para a História Pública, é essencial dar voz a quem sofre de ansiedade. A esfera pública, que Habermas (1962) descreve como um espaço de debate, é o lugar perfeito para que essas experiências sejam compartilhadas. Como Arendt (1983) sugere, a esfera pública é onde nossas histórias individuais se encontram e onde podemos nos unir para buscar o bem comum. Ao fazer isso, podemos juntos redefinir o que a ansiedade significa para nós.
A Ansiedade na Sociedade Líquida: Navegando em Marés de Incerteza
A ansiedade é uma das emoções mais presentes no dia a dia do brasileiro. Ela é moldada por tudo o que nos cerca: economia, política, tecnologia e cultura. Vivemos no que Zygmunt Bauman (2007) chamou de “sociedade líquida,” um mundo onde a única certeza é a incerteza. Não é surpresa que a ansiedade seja nossa resposta natural a essa instabilidade. No Brasil, essa sensação é ainda mais forte por causa das crises econômicas, da violência urbana e da instabilidade política que nos cercam.
Quando falamos abertamente sobre a ansiedade, nós democratizamos o conhecimento e fortalecemos nossa identidade como nação (Santhiago, 2016). Afinal, como Hannah Arendt (1983) nos lembra, a “pluralidade é a lei da Terra”. Isso significa que a história não pode ser contada por uma única voz. A História Pública abraça essa ideia, incluindo histórias e memórias que antes ficavam de fora. Essa abordagem mais plural e compartilhada é uma resposta à complexidade do mundo em que vivemos.
A História Pública como Antídoto para a Ansiedade Coletiva
A História Pública atua como uma ponte entre o passado e o presente, nos ajudando a entender as emoções e tendências sociais, como a ansiedade (Santhiago, 2016).
No mundo de hoje, a ansiedade se intensifica, e a culpa é em grande parte das redes sociais. A exposição constante a notícias ruins e a um ritmo de vida frenético nos deixa em um estado de alerta constante, o que alimenta a ansiedade social. A pandemia de COVID-19 tornou esse cenário ainda pior, aumentando drasticamente os níveis de ansiedade devido ao medo, à incerteza e ao isolamento (Lima & Souza, 2021).
Nesse cenário, a História Pública é essencial para construir narrativas sobre a ansiedade que possam mudar a forma como a sociedade e as instituições a enxergam. A negligência com a saúde mental por parte do poder público, a falta de políticas eficazes e o estigma social tornam tudo mais difícil. A História Pública, ao agir fora da academia, pode ser uma força para a mudança, defendendo o combate ao preconceito e a criação de espaços onde todos possam falar sobre suas experiências.
Histórias que Curam: A História Pública como Voz Coletiva
Ao atuar fora da universidade, a História Pública busca confrontar o poder e criar um espaço onde diferentes vozes possam se encontrar (Brah, 2006). A gente combate a ansiedade que vem da sensação de impotência quando incluímos as histórias de quem foi silenciado.
A ansiedade não é um sentimento isolado; ela está ligada às mesmas estruturas que decidem quem pode e quem não pode contar a história (Collins & Bilge, 2021). A História Pública, como uma “ferramenta crítica”, nos mostra que a história não é algo pronto e imutável, mas sim algo que é construído dentro de um contexto histórico e de relações de poder.
É urgente que a História Pública comece a dar mais atenção às nossas emoções. As narrativas sobre a ansiedade no Brasil precisam refletir a nossa realidade, com suas contradições e particularidades. A sociedade de hoje, com sua busca incessante por sucesso e validação, gera um aumento dos desafios de saúde mental (Dunker, 2019).
A História Pública pode ser um antídoto, nos oferecendo narrativas mais diversas e inclusivas. Ao dar voz a diferentes pessoas, ela nos ajuda a ressignificar o passado e nos lembra que podemos, sim, moldar nossa própria história, combatendo a ansiedade gerada pela sensação de impotência.
Considerações Finais
Este estudo me levou à conclusão de que a ansiedade no Brasil vai muito além do que sentimos individualmente; é um fenômeno social e emocional que está profundamente ligado às nossas dinâmicas sociopolíticas. A pesquisa mostrou que a gente precisa conectar a ansiedade aos estressores sociais, em vez de focar apenas no aspecto biológico. As crises financeiras, a violência, o uso das redes sociais e a pandemia de COVID19 intensificaram a ansiedade a ponto de gerar transtornos.
Nesse cenário, a forma como falamos sobre a ansiedade na esfera pública é crucial, pois isso influencia as políticas e as intervenções. Acredito que precisamos duma abordagem interdisciplinar que integre as emoções à pesquisa histórica.
Concluo que a História Pública é uma ferramenta essencial para combater a ansiedade social. Ela promove narrativas mais humanas e conscientes, cria um ambiente para o debate e a reflexão, e fortalece nossa capacidade de crítica social, nos ajudando a construir uma sociedade mais coesa e reflexiva.
Referências
ALMEIDA, J. D. S. de; ROVAI, M. J. História Pública: uma possível definição a partir de sua prática. Revista Eletrônica de História do Brasil, [S. l.], v. 1, n. 2, p. 113, 2011.
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Adriano Nicolau da Silva, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Uberaba, MG. Colunista do Factótum Cultural. E-mail: adrins@terra.com.br
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