No palco, homens se curvam. Outros sobem sobre suas costas. No final, todos uivam. E dizem que isso é sobre fé, masculinidade e Deus. Parece sketch do ‘Porta dos Fundos’, mas é só o Brasil em 2025.”

No vasto mercado de espiritualidade de boutique, onde o sofrimento virou assinatura premium, um movimento tem chamado a atenção pela mistura exótica de testosterona, choro coletivo e marketing: os Legendários.

Importado da Guatemala em 2017, com roupagem cristã carismática, o movimento aterrissou no Brasil com a promessa de reconectar o homem moderno à sua essência, restaurar famílias, curar traumas e resgatar a tal da “masculinidade perdida”.

O homem contemporâneo, sufocado entre boletos, pornografia e a expectativa de ser “provedor espiritual”, mergulha no desespero existencial.

Mas o que entregam mesmo é um mix de rave gospel, reality show de redenção e performance de crise existencial com trilha sonora de uivo tribal.

COMO SURGIU ESSA MONTANHA DE MÁSCULOS EMOCIONALMENTE DESNORTEADOS?

A origem é o pastor guatemalteco Chepe Putzu, que resolveu reunir homens para trilhas espirituais intensas com jargões como “o primeiro legendário foi Jesus“.

No Brasil, o modelo ganhou adaptação com ajuda de influencers, celebridades cristãs, e um empurrãozinho do vácuo emocional coletivo. O modelo é simples e eficaz: um fim de semana no mato, de tanga, jejum, introspecção forçada, liderança autoritária, gritos coordenados, e claro, pagamento antecipado.

É o capitalismo vendendo redenção em 12x no cartão. Um combo onde espiritualidade, coach e militarismo masculino se encontram.

A trilha se chama TOP (Track Outdoor de Potencial). Mas o que se vê mesmo é TOC: Transtorno Obsessivo de Catarse.

O ROTEIRO DA CURA: DOR, UM BONÉ E UM APELIDO

O homem chega como anônimo, recebe um número e um boné laranja. Depois, começa o jogo: escalar montanha em silêncio, encarar traumas passados, ser exposto em rodas emocionais, ajoelhar-se em fila, permitir ser pisado por outros machos alfa enquanto líderes sussurram palavras de “quebra do orgulho”. Ao fim, todos uivam. Literalmente. O ritual tem estética de culto pagão disfarçado de encontro evangélico com storytelling de coach.

Mas o cardápio não para por aí:

  • Banho coletivo com “jato” de água gelada, com direito a gritaria e batismo testosterônico;
  • Subid da montanha, onde o homem é levado ao extremo do desgaste físico e emocional;
  • Rituais de identidade, onde cada um se apresenta com um novo nome (quase sempre algo como “Leão”, “Rocha” ou “Falcão”) para apagar o passado e se tornar… um perfil motivacional ambulante.

UM PARQUE TEMÁTICO DA MASCULINIDADE FERIDA

Nietzsche já dizia: “Quem com monstros luta deve cuidar para não se tornar um deles”. Aqui, o monstro é o vazio emocional masculino. E a luta é performática: em vez de enfrentar o medo da vulnerabilidade com honestidade, os homens vestem a fantasia de “guardião da família” e gritam para o céu numa espécie de musical interior.

Freud, com seu charuto, provavelmente comentaria: “Talvez, no fundo, todos esses senhores estejam apenas tentando compensar a ausência de afeto paterno com um rito de passagem onde a figura paterna é representada por um coach carismático que grita com eles”.

Jung observaria a encenação do arquétipo do Guerreiro ferido sendo ativado em massa: todos fingindo ser fortes enquanto imploram por amor no fundo dos olhos.

Se Platão visse, pedia o antidoto da caverna.

O problema não é sobre gênero, orientação sexual ou “virilidade” no sentido tosco do termo, mas sim sobre uma masculinidade carente de essência, maturidade emocional e identidade interna sólida. O que está em crise — e que movimentos como o Legendários tentam (sem muito sucesso) resolver — é a imaturidade existencial do homem contemporâneo.

Homens perdidos na própria dureza emocional, sem saber onde chorar, como se expressar, como ser pai, como ser amigo de outro homem sem parecer fraco.

A PSICANÁLISE TENTA ENTRAR, MAS NÃO TEM PULSEIRA

Esse movimento não é terapia. Não é igreja. Não é retiro. É uma gincana psicoespiritual onde o sofrimento precisa de plateia e a redenção vem com hashtag. Uma versão remixada dos velhos cultos pentecostais dos anos 2000 com pegada militarizada e embalagem de Netflix: você assiste ao próprio trauma como protagonista do documentário da sua dor. Só faltou a música do Hans Zimmer e o patrocínio do CrossFit.

EU JÁ FUI UM DESSES

Nos anos 2000, participei do movimento G12. Chorava em roda, gritava no altar, jejuava buscando o “novo homem de Deus” dentro de mim. A diferença é que lá não me cobraram R$ 2.000 nem me deram um boné personalizado. Mas a sensação era a mesma: catarse coletiva, comoção sem elaboração, emoção sem reflexão. Um vazio decorado de glória.

Hoje vejo o Legendários como um G12 2.0 com filtro laranja, copywriting moderno e a mesma fome ancestral: de pai, de reconhecimento, de acolhimento. Mas em vez de curar, criam dependência. Em vez de elaborar, embalam. Em vez de ensinar a sentir, ensaiam como gritar.

A PIADA SE ESCREVE SOZINHA

Na internet, o meme é inevitável:

  • “Retiro dos machos reprimidos com pacote grito incluso.”
  • “Macho que é macho chora em público e volta de boné.”
  • “Saudades quando o Legendários era com o Mion.”
  • “Sessão de Spartanos enrustidos.”

É engraçado, sim. Mas é triste também. Porque esses homens realmente estão em crise — e estão sendo explorados.

Explorados por líderes espirituais-empresários que transformaram o sagrado em selfie, e a cura em cronograma com taxa de inscrição.

Eles tentam restaurar a masculinidade. Mas acabam criando um personagem: o Homem Legendário, aquele que voltou do mato dizendo que agora é um leão, mas ainda não aprendeu a perdoar o pai.

CONCLUSÃO: O MACHO EM CENA

O homem moderno não quer mais ser o provedor insensível. Mas também tem medo de ser vulnerável sem ritual. Então ele busca a permissão para sentir. E encontra nos Legendários um palco. Grita, uiva, se ajoelha, chora, é batizado com jato gelado. Sai de lá dizendo que é novo. Mas no fundo, segue carente do que nunca recebeu: escuta, presença, amor.

Quer ser homem de verdade? Não precisa subir montanha, gritar em coro, nem ser numerado como gado emocional. Basta sentar. Sentir. Falar. Pedir perdão. Amar sem roteiro. Chorar sem aplausos.

Ou, se preferir o pacote, só não esquece de levar toalha. O banho gelado é coletivo.

PÓS-CRÉDITOS: PARA SANGRAR

Esse artigo não é sobre religião.
É sobre homens feridos, buscando cura em lugares que vendem performance no lugar de verdade.

É sobre o risco de confundir emoção com conversão.
Espetáculo com transformação.
Dor com identidade.
Grito com presença.

Cuidado. Nem tudo que uiva é lobo.


Se este artigo te deixou com a pulga atrás da orelha — ou o lobo uivando dentro do peito — talvez valha a pena mergulhar também em dois outros delírios contemporâneos que analisei recentemente: no artigo Therians: Animais presos em gente, ou almas que se esqueceram de ser?”, exploro o fenômeno de pessoas que acreditam ser lobos, gatos ou répteis presos em corpos humanos. E em “A Loucura do Trabalho: quando adoecer é parte do sistema” — um espelho sem floreios sobre a doença organizada que chamamos de produtividade. Três rituais, três performances — um mesmo vazio espiritual sendo preenchido com fantasia, desejo ou humilhação coletiva. Clique, leia e prepare-se para mais risos, espantos e cutucões no ego.


E não se esqueça: Todo sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

Haux!

⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, filósofo, professor e editor-chefe do Factótum Cultural. Se perdeu entre os livros, os filmes, os boletos e os rituais de Ayahuasca. Escreve para não enlouquecer — e às vezes enlouquece para escrever melhor.

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