Por Livros & Grimórios e Tela Mística

“Sabia que isso te torna parte do maior golpe da história? A sociedade é apenas uma grande fábrica que te usa para fazer dinheiro. Desde que você nasceu, a única coisa que te ensinam é a obedecer as regras e a trabalhar para manter o sistema farto de grana. Somos acorrentados a ele. E só nos deixam escolher o tipo da corrente. Para quem não aceita, eles inventam medicações. E os que concordam se contentam em se expor no Instagram.”
– Filme: June e John (2025)
A frase acima poderia estar no roteiro de um filme distópico. Está, aliás — June e John (2025). Mas poderia também abrir qualquer capítulo de A Loucura do Trabalho, clássico da psicodinâmica do trabalho escrito pelo psiquiatra e psicanalista Christophe Dejours. A diferença é que Dejours não escreve ficção. Ele descreve a realidade. E o que ele revela é incômodo: a forma como o trabalho é organizado no mundo contemporâneo é uma das principais causas de sofrimento psíquico e adoecimento mental.
E o mais grave: o sistema sabe disso — mas prefere medicar do que mudar.
1. A doença como engrenagem
Para Dejours, o sofrimento no trabalho não é um acidente ou exceção. É uma consequência direta do modo como o trabalho está estruturado: metas inatingíveis, controle excessivo, falta de sentido, desumanização das relações, apagamento da subjetividade.
As pessoas não adoecem “porque são frágeis”. Elas adoecem porque o sistema foi feito para moer gente em nome de produtividade.
“A organização do trabalho é um agente ativo na etiologia dos distúrbios mentais. Ela não apenas agrava quadros preexistentes — ela os produz.”
— Christophe Dejours
E quando esse sofrimento começa a emergir, a resposta não é acolher, escutar ou transformar. A resposta é: remédio, terapia rápida e volta para a máquina.
2. Mecanismos de defesa: o cinismo como anestesia
Dejours mostra que, para continuar “funcionando”, os trabalhadores desenvolvem mecanismos defensivos coletivos:
- Ironia constante para suportar o absurdo;
- Competição como estratégia de sobrevivência;
- Indiferença como blindagem emocional;
- Apego às regras como forma de manter o mínimo de controle.
Essas defesas não são “erros de caráter”. São respostas psíquicas a um ambiente violento, onde mostrar fraqueza é abrir mão da própria subsistência.
Com o tempo, o sujeito perde o contato com seus próprios afetos. Torna-se robô. Um avatar profissional que performa bem na reunião, mas trava sozinho no quarto à noite.
2.1 O que cada capítulo de A Loucura do Trabalho revela
A obra é dividida em seis capítulos principais, além de uma introdução histórica e um anexo metodológico. A seguir, um panorama crítico de cada parte:
Introdução
Apresenta a trajetória histórica do trabalho:
- Do século XIX à Primeira Guerra Mundial;
- O período de 1918 a 1968, com surgimento da ergonomia e da psicopatologia do trabalho;
- A era pós-1968, marcada pela intensificação dos controles invisíveis e pelo sofrimento psíquico institucionalizado.
Capítulo 1 – As estratégias defensivas
- Ideologias defensivas (ex: “sofrer faz parte”);
- Mecanismos de defesa psíquica individual diante da repetição e do vazio.
Capítulo 2 – Que sofrimento?
- Diferença entre sofrimento por insatisfação significativa (falta de sentido) e ergonômica (condições físicas);
- Mostra que ambos se somam, e o corpo sente o que a mente não aguenta mais esconder.
Capítulo 3 – Trabalho e medo
- O medo como elemento constante: de falhar, de ser demitido, de não dar conta;
- Como a ideologia do “mérito” mascara a angústia coletiva;
- Ansiedade como epidemia invisível nas relações laborais.
Capítulo 4 – Um contraexemplo: a aviação de caça
Dejours analisa o caso dos pilotos de caça: embora lidem com altíssimo risco, apresentam menos sofrimento psíquico por terem:
- Tarefas com alto sentido simbólico;
- Reconhecimento coletivo real;
- Ritualização e vínculo entre pares.
Ou seja: o problema não é o risco — é a desumanização.
Capítulo 5 – A exploração do sofrimento
- A frustração e a ansiedade como recursos explorados para controle e submissão;
- A ideologia empresarial que transforma angústia em “combustível de superação”.
Capítulo 6 – A organização do trabalho e a doença
- O sofrimento que não encontra espaço para expressão vira doença mental (burnout, depressão, ansiedade, pânico);
- Ou doença somática (dores crônicas, fadiga, gastrite, etc).
3. A verdade inconveniente: a doença é útil para o sistema
Assim como em June e John, Dejours mostra que o sofrimento do trabalhador é útil ao sistema — desde que seja contido e medicado.
A produtividade é o novo ópio.
E o Frontal, o novo crachá silencioso.
4. A advocacia como laboratório do adoecimento silencioso
Na advocacia, especialmente a criminal, o cenário é ainda mais complexo. A pressão por resultados, a violência institucional, o contato com o sofrimento humano, a solidão profissional e a expectativa de sucesso moldam um ambiente de exaustão emocional crônica.
Advogados muitas vezes adoecem em silêncio, por medo de parecerem fracos — mesmo quando estão funcionando por fora e morrendo por dentro.
5. Onde está a saída? O que propõe Dejours?
Dejours não oferece promessas fáceis. Mas aponta um caminho radical: reconhecer o sofrimento como legítimo e coletivo.
A cura começa quando o sofrimento:
- É nomeado;
- É escutado sem julgamento;
- É partilhado;
- É transformado em ação simbólica ou social.
6. O que June e John tem a ver com isso?
O filme é a metáfora perfeita para a sociedade que Dejours analisa. Desde cedo somos condicionados a obedecer, produzir e aceitar. A revolta é silenciada com diagnósticos. A fuga é estetizada nas redes. A docilidade é premiada com distrações.
A estética da alienação virou entretenimento.
O vazio virou status.
7. Conclusão: romper o silêncio, retomar a escuta
“A Loucura do Trabalho” é mais do que uma denúncia. É um espelho. Um chamado à lucidez. Um grito no meio do silêncio das salas climatizadas onde corpos presentes escondem mentes adoecidas.
Enquanto tratarmos a dor como fraqueza individual, a doença continuará sendo produzida em escala industrial.
O primeiro passo é escutar. Escutar de verdade.
Epílogo – A dor que virou caminho
Falo com conhecimento de causa. Durante anos, adoeci em silêncio. Burnout, ansiedade, depressão, álcool, drogas-z (zolfest, zolpidem), insônia, vazio, crise existencial… Meu corpo pediu exoneração antes de mim.
Quando conheci a obra de Dejours, senti que ele havia escrito minha história. Vi na escrita uma forma de cura. Vi no silêncio uma linguagem. Hoje, continuo advogado — mas também sou escritor. Transformei minha dor em palavra. E nela, encontrei sentido.
Talvez você também possa.
Enquanto tratarmos a saúde mental como um problema individual, seguiremos apagando incêndios em corpos e mentes, sem tocar no incêndio real — que arde todos os dias nos escritórios, hospitais, fóruns, escolas, repartições e fábricas.
Que este texto sirva de espelho, desabafo ou sinal de alerta. E que ninguém precise adoecer para, enfim, escutar a própria alma.
🔚 Gostou da leitura?
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…mas a insistência em fingir que tudo está normal.
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🎬 O filme não acabou — há sempre uma cena pós-créditos. Descubra-a em Spotlight e os Abusos Sexuais na Igreja Católica
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