Por Jocymar Sales

Introdução
A história da dinastia Romanov, que governou a Rússia por mais de três séculos, chegou ao seu fim trágico em meio ao caos da Primeira Guerra Mundial e da Revolução de 1917. Em “Nicolau e Alexandre”, Robert K. Massie não apenas relata os eventos históricos, mas desvenda as complexidades humanas por trás do colapso imperial. Através de uma narrativa rica em detalhes psicológicos e políticos, o autor revela como as escolhas pessoais de Nicolau II e Alexandra Feodorovna se entrelaçaram com as forças inexoráveis da história, criando um cenário perfeito para a revolução. Este livro nos convida a refletir sobre como o absolutismo, quando desconectado da realidade, carrega em si as sementes de sua própria destruição.
O Tsar Indeciso e a Imperatriz Intransigente
“A sociedade russa não compartilhava o fascínio de Nicolau por Alexandra.”
Robert K. Massie constrói um retrato devastador de Nicolau II como um governante tragicamente inadequado para seu tempo – um homem que, apesar de suas qualidades pessoais como marido e pai, falhou irremediavelmente como monarca. O tsar é apresentado como prisioneiro de uma visão anacrônica do poder: educado para acreditar na natureza divina da autocracia, ele se mostrava incapaz de perceber que o mundo à sua volta exigia reformas radicais. Sua indecisão crônica – oscilando entre concessões tardias e repressão brutal, como no Domingo Sangrento de 1905 – minava sistematicamente a autoridade imperial. Enquanto isso, sua devoção à família, especialmente ao herdeiro Alexei, tornava-o um governante ausente em momentos cruciais, mais preocupado com dramas domésticos do que com a crise nacional. Massie sugere que Nicolau não era estúpido, mas profundamente despreparado – um soberano que confundia obstinação com força, e piedade com liderança.
Já Alexandra Feodorovna emerge como o contraponto problemático do tsar – onde ele vacilava, ela era inflexível. Convertida ao extremismo místico e convencida da santidade do poder autocrático, a imperatriz via qualquer compromisso político como uma traição à dinastia. Massie mostra como seu isolamento voluntário na corte (agravado pelo desprezo da nobreza por sua origem alemã) alimentou uma paranóia que a levou a desconfiar até de aliados em potencial. Seu controle sobre Nicolau, especialmente durante a Primeira Guerra, quando o tsar partiu para o front, foi catastrófico: cartas revelam como ela pressionava o marido a governar com punho de ferro, ignorando conselheiros experientes em favor de figuras medíocres indicadas por Rasputin. Juntos, formavam um casal real disfuncional – ele sem coragem para governar, ela sem sabedoria para aconselhar -, cujas fraquezas complementares aceleraram a queda do regime que tanto juraram proteger.
Rasputin e a Crise da Monarquia: Entre a Hemofilia e os Escândalos
“Rasputin tomou o império fazendo cessar o sangramento do czarevich”
A doença do tsarevich Alexei, herdeiro do trono russo portador de hemofilia, tornou-se o ponto fraco que permitiu a ascensão de Grigori Rasputin na corte imperial. O místico siberiano, com sua habilidade inexplicável de aliviar as crises hemorrágicas do menino, conquistou a devoção da tsarina Alexandra, que passou a vê-lo como um enviado divino. No entanto, sua influência extrapolou o âmbito médico: Rasputin envolveu-se em escândalos sexuais e de corrupção, indicando ministros incompetentes em troca de favores, enquanto a imprensa o retratava como símbolo da decadência Romanov. Seu comportamento libertino e a interferência nos assuntos de Estado corroeram a já frágil legitimidade da monarquia, especialmente durante a Primeira Guerra Mundial, quando Nicolau II deixou o governo nas mãos de Alexandra – e, indiretamente, sob o controle do “monge louco”.
O assassinato de Rasputin em 1916 por nobres descontentes chegou tarde demais para salvar a imagem da dinastia. Sua relação com a família imperial havia se tornado um emblema da desconexão entre o trono e a realidade russa, misturando superstição, nepotismo e incompetência política. A hemofilia de Alexei, mantida em segredo, e os excessos de Rasputin alimentaram teorias conspiratórias que enfraqueceram ainda mais os Romanov. Mais do que um personagem excêntrico, Rasputin personificou a crise final de um regime que, ao priorizar suas obsessões privadas sobre as necessidades do país, acelerou seu próprio colapso. Sua história revela como o desespero de uma família real e a recusa em modernizar o sistema transformaram um curandeiro camponês no coveiro involuntário de um império.
1917: O Ano que Abalou o Mundo
“Para evitar uma catástrofe, o próprio czar tem que ser afastado, por métodos terroristas, se não houver outro jeito” (Kerensky)
A Revolução de Fevereiro não foi um evento isolado, mas o ponto culminante de anos de tensões acumuladas. Massie descreve com maestria como Nicolau, isolado no front de guerra, subestimou completamente a gravidade dos protestos em Petrogrado. Quando finalmente tentou agir, já era tarde demais – seus próprios generais o aconselharam a abdicar. A cena da renúncia, ocorrida em um vagão de trem, é um dos momentos mais pungentes do livro: um império secular terminando não com um estrondo, mas com o silêncio constrangido de uma assinatura. Nos meses seguintes, a família imperial transformou-se de governantes em prisioneiros, testemunhando impotente a ascensão dos bolcheviques.
Conclusão: O Preço da Desconexão
O massacre em Ekaterinburg em julho de 1918 marcou não apenas o fim dos Romanov, mas o término simbólico de uma era. Massie nos mostra que a tragédia não estava no destino violento da família imperial, mas na teimosia com que Nicolau e Alexandra se recusaram a adaptar-se aos novos tempos. Sua queda serve como alerta eterno sobre os perigos do poder absoluto – quando governantes deixam de ouvir seu povo, quando confundem tradição com imobilismo, quando substituem a política por misticismo, estão apenas cavando sua própria ruína. Os Romanov não foram vítimas passivas da história, mas participantes ativos de seu próprio declínio, provando que nenhum trono é alto o suficiente para escapar das mudanças que agitam as ruas e as almas de uma nação.
Nicolau e Alexandra, de Roberto K. Massie é uma obra imperdível para quem quer entender como os Romanov caíram, não apenas o porquê.
Massie não escreve História – ele a revive, com toda sua tragédia, ironia e drama humano. Se há um livro que faz você sentir pena de um tsar autocrata e ao mesmo tempo compreender a inevitabilidade da revolução, é este. A lição final é atemporal: nenhum poder é absoluto quando perde contato com a realidade.
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Jocymar Sales, Professor, Escritor e Txai.
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