Não se envergonhe das visitas que sua alma recebe. Cada emoção é um mensageiro do divino, batendo à porta com algo para revelar

Há dias em que a tristeza chega sem avisar.
Outros, a raiva senta-se à mesa e bate os talheres.
A solidão dorme no sofá. A culpa ronda a cozinha. A alegria até aparece, mas sai cedo, sem dizer nada.

E a gente se pergunta:
“Por que estou sentindo tudo isso? O que há de errado comigo?”

Rumi, o poeta persa do século XIII, respondeu isso há mais de 800 anos — com uma simplicidade que ainda hoje nos abraça como quem diz:

“Você não está quebrado. Você está vivo.”

A casa de hóspedes

Em seu poema “The Guest House” (A Casa de Hóspedes), Rumi nos convida a imaginar que o ser humano é como uma casa — e as emoções, hóspedes.
Alguns dias chegam visitas doces: paz, amor, clareza.
Noutros, chegam sem avisar: tristeza, raiva, arrependimento.

O que ele propõe é revolucionário, especialmente para tempos como os nossos:

“Receba todos com hospitalidade. Mesmo a tristeza. Mesmo a fúria. Mesmo a vergonha. Porque todos foram enviados como guias do além.”

Sentir é sinal de vida

Em vez de resistir, Rumi nos convida a abrir a porta, servir chá e escutar.
A raiva talvez esteja te protegendo.
A tristeza, limpando algo que você não teve tempo de chorar.
A culpa, apontando um valor que você abandonou.
A ansiedade, querendo te salvar do amanhã.

Cada hóspede vem com um recado.
E, como todo visitante, não veio pra ficar.

O que Rumi nos ensina

Talvez o maior ensinamento desse poema seja:
Você não precisa lutar contra o que sente.
Nem se envergonhar por estar mal.
Nem se culpar por sentir demais.

“Talvez estejam te esvaziando… para algo novo chegar.”

Simples assim.
Profundo assim.

Quando tudo parecer demais

Se você está passando por um tempo difícil, com hóspedes barulhentos e desconfortáveis dentro de si, não se apresse em expulsá-los.
Eles estão ali por um motivo.
E quando a alma estiver pronta, eles vão embora — e algo novo ocupará o espaço deixado.

Rumi nos lembra que sentir é um privilégio da alma viva.
E que por trás do caos emocional, há sempre um convite:
voltar para casa.

Um poema para ler com o coração:

Esta vida humana é uma casa de hóspedes.

Toda manhã, um novo visitante chega.

Uma alegria, uma tristeza, uma maldade,
uma breve consciência vem como um visitante inesperado.

Acolha todos com gratidão.
Mesmo que sejam dores,
que varram sua casa com violência,
e esvaziem seus móveis.

Ainda assim, trate cada hóspede com respeito.

Ele pode estar te limpando
para alguma nova alegria.

O pensamento escuro, a vergonha, a malícia,
receba todos à porta com um sorriso
e convide-os a entrar.

Seja grato por quem vier,
pois cada um foi enviado
como um guia do além.

Rumi

Para terminar

Se hoje a sua casa está bagunçada por dentro…
Respira. Abre a janela. Prepara o chá.
Talvez a alma esteja fazendo faxina.

E se precisar de alguém pra te lembrar disso no meio do furacão, tô aqui. De verdade.


Assim como no artigo O Buda de Ouro e o Tesouro Esquecido Dentro de Nós, em que falamos sobre redescobrir a luz que permanece intacta sob as camadas que a vida impôs, e também em Torne-se Quem Você É (Antes Que Seja Tarde), onde refletimos sobre o chamado urgente da alma para viver com verdade, Rumi nos lembra que as emoções difíceis não são falhas — são convites. São hóspedes que vêm bater à porta justamente para nos empurrar de volta ao centro, onde mora quem realmente somos. A dor, a alegria, a dúvida e até a raiva — tudo isso é parte do caminho de volta para casa.


E não se esqueça: Todo sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, filósofo, professor e editor-chefe do Factótum Cultural.

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