(sem túnica branca, sem monge barbudo — só eu, ayahuasca e uma fogueira espiritual que não se apaga nem com zolpidem)

No fundo, eu achava que minha iniciação espiritual seria cinematográfica.

Imaginava um ser de luz descendo do céu, talvez com asas, talvez com luzes piscando tipo nave mãe — algo entre Buda, um arcanjo e o Gandalf.

Esse ser olharia nos meus olhos com compaixão cósmica e diria:

Neemias, a partir de hoje, você está curado.
Iluminado.
Livre do ego.
E o Pix caiu
.”

Mas não.
A minha iniciação aconteceu numa kitnet abafada em Maringá, com cheiro de vape, ressaca existencial e boletos espalhados pela mesa.
O único ser de luz presente era a lâmpada tremeluzente da cozinha.
E o que desceu do alto não foi um anjo — foi a consciência do quanto eu estava no fundo.


Filho dormindo no quarto ao lado.
Ansiedade fazendo hora extra. Depressão revezando no plantão da madrugada. Saúde mental um caco.
Zolpidem na cabeceira e uma pergunta silenciosa no ar:

“Vai continuar fugindo ou vai afundar de vez?”

Tentei resistir com os clássicos: álcool, relacionamentos fugazes, viagens malucas, baladas em botecos, frases de Instagram e comida de aplicativo.
Nada funcionava.

A alma, quando quer te iniciar, tira suas muletas e te joga no escuro.
Não pra te castigar — mas porque lá, no escuro, você vai parar de atuar.

Era uma terça-feira.
Ou uma quarta. Ou domingo. Sei lá.
Quando a vida vira lama, o calendário evapora.
Tudo o que eu sabia era que o Zolpidem estava perdendo a guerra contra meus demônios internos.
E o álcool? Já não anestesiava — só acusava.


Foi aí que a Ayahuasca apareceu no meu feed com cara de entidade digital.
Como quem diz:

“Vem, filho. Tu já caiu tanto. Vamos cair com propósito agora.”

Eu fui.
20 de junho de 2023.
Cheguei no ritual com medo, cansaço e uma botina (porque eu ainda achava que precisava de proteção pra andar, sem saber que o caminho era pra dentro).

Tomei o chá. O gosto? Uma mistura de terra molhada com karma mal resolvido.
Fui achando que ia ver elfos e sair curado.
Saí vomitado, chorando, desmontado e, de alguma forma… inteiro.


Durante aquela noite, vi minha infância, minha sombra, meus pais, minha raiva, meus erros, minha vergonha e um insight que parecia patrocinado por Jung, Jesus, Nietzsche e Bukowski ao mesmo tempo.
Vomitei tudo: minha alma, meus traumas, meu (des)emprego, minha ex, minha arrogância, e talvez até meu CPF.

E ali, no meio do caos, entendi:
O ego se despede.
Tchau, querido. Agora você serve café pro Self.


Depois disso, ninguém te avisa:
você volta pra casa… e a vida continua igual.
Mas você não é mais o mesmo.

A fase Nigredo — também conhecida como “caguei pra tudo” — segue com estilo:
boletos, recaídas, cervejas, Zolpidem de vez em quando, e pensamentos como:

“Será que foi real ou só mais um colapso bonitinho?”


Vieram dois anos de reconstrução.

Li mais livros do que em toda a faculdade.
Assisti palestras, cursos, retiros, vídeos, workshops, reels, TED Talks, rituais e aulas com nomes que eu nem sabia pronunciar. Usei cogumelos, lucy, bala, canabidiol, rapé e sananga.
Meditei tanto que cheguei a duvidar se existia mesmo ou era só uma bolha flutuante.

Caí de novo.
Me perdi de novo.
Me reencontrei cansado, mas consciente.
Chorei em silêncio.
Ri no meio de uma prática séria.
Descobri que autoconhecimento/espiritualidade não é só sobre virar luz — é sobre parar de fugir da própria sombra.

Eu sei como é: nesses momentos de escuridão profunda, ninguém aparece. Os amigos somem. Você não tem nada pra oferecer — e o mundo só quer o que sobra. Fica só você… e você mesmo. No meu caso, só meus pais e meu filho ficaram por perto. E foi assim, sem plateia, sem aplauso, sem certeza, que eu comecei a renascer.

  • Dormir (de vez em quando).
  • Parar de xingar no trânsito (quase).
  • Chorar com vídeo de passarinho.
  • Falar “não sei” com dignidade.
  • Comer melhor (menos veneno no prato, mais gratidão no garfo).
  • Me exercitar (tipo: caminhar até a geladeira só quando for fome de alma mesmo).

E foi então que caiu a ficha:
a iniciação verdadeira não vem com certificado nem mantra secreto.
Ela vem com perda, silêncio, crise, colapso, rendição e confiança.
É quando você para de fingir que está bem e começa a buscar o que realmente é.


Resultado?
Não virei guru.
Nem pretendo.

Nem iluminação plena.
Nem conta bancária resolvida.
Mas tenho algo que nunca tive:
consciência do meu processo.
E uma lanterna acesa na mão — mesmo que tremendo.

Tipo o Eremita do Tarô: meio cansado, meio torto, mas seguindo em frente com a única luz que carrega — a que vem de dentro.


Comecei a:

E, veja só, o universo começou a responder.
Vieram pequenos milagres disfarçados de boletos pagos:
um Pix inesperado,
um honorário que eu nem lembrava,
um prêmio da loteria (modesto, mas simbólico),
um cliente que apareceu do nada dizendo “sonhei com seu nome”.

Começaram a surgir livros certos nas horas erradas,
pessoas estranhas dizendo coisas que eu precisava ouvir,
e situações absurdamente sincronizadas que pareciam roteiro mal escrito, mas carregado de sentido.

Não era mágica.
Era sintonia fina com o que importa.
Ou talvez fosse mágica mesmo — mas daquelas discretas, que não usam capa nem varinha, só intuição e paciência.


✍️ Moral da história?

A iniciação aconteceu.
Sem túnica.
Sem incenso.
Sem manual.

Só a vida gritando:

“Ou você morre de vez, ou morre um pouco e nasce outra coisa.”

E eu, como bom caboclo, dei um jeitinho:
Morri meio torto.
Voltei meio iluminado.
Mas sempre com bom humor.

Se você tá aí, achando que vai enlouquecer — parabéns.
Talvez esteja só começando a despertar.

Se doer, escreve.
Se sufocar, respira.
Se perder, aceita.
E se chorar, chora no chão mesmo — de alma limpa e cara suja.

Porque às vezes, viver com consciência é a única iniciação que nos resta.
E isso, meu caro, já é um milagre silencioso.

E o mais curioso é que, depois de dois anos nessa jornada intensa — feita de quedas, curas, visões, vômitos sagrados, silêncios desconfortáveis e alguns surtos místicos disfarçados de insight — eu achei que estava quase lá. Quase iluminado. Quase pronto pra escrever um livro chamado “Como Chegar à Iluminação em 24 Passos (e Recaídas)”. Mas foi justamente nesse último ritual, no dia 17 de maio, que ele apareceu. O mestre. De capuz. Em pé. Real. Sem dizer nada, disse tudo. “Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece.” E ali eu entendi: não era o fim da jornada. Era o início de outra. Mais sutil, mais silenciosa, mais funda — e, claro, com menos certezas e mais mistério. Porque quando a gente acha que entendeu tudo, é exatamente quando o verdadeiro ensinamento começa.


Se você ainda espera que a iluminação venha num pacote celestial com barba, túnica e milagre, talvez esteja procurando a coisa certa no endereço errado. Até Jesus, se aparecesse hoje, seria ignorado no feed, confundido com coach ou processado por curandeirismo. Falo mais sobre isso — com a devida reverência (e irreverência) — no artigo Se Ele voltasse hoje, você perceberia?. Porque às vezes, o que a gente chama de “volta” é só lembrança de algo que sempre esteve aqui — dentro.


E não se esqueça: Todo sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

….

Se em algum momento da sua jornada a escuridão apertar e você esquecer que tem saída, lembra: eu também já estive lá. E se precisar, tô aqui. De verdade.

Haux!

⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, filósofo, professor e editor-chefe do Factótum Cultural. Se perdeu entre os livros, os filmes, os boletos e os rituais de Ayahuasca. Escreve para não enlouquecer — e às vezes enlouquece para escrever melhor.

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