Escrever Para Não Enlouquecer – Por Neemias

“Se Deus voltasse hoje, talvez usasse jeans e silêncio.
E, mais uma vez, ninguém perceberia.”
Era um dia comum.
Tão comum quanto os outros oito bilhões que passavam despercebidos na pressa das cidades.
Ninguém percebeu quando ele chegou.
Não veio nas nuvens, nem em carros de fogo,
nem cercado por trombetas ou profecias de última hora.
Veio a pé.
Vestia jeans, uma camisa branca simples, all star, e carregava uma mochila surrada.
Nenhum símbolo. Nenhum milagre.
Apenas o olhar mais humano e profundo que alguém poderia sustentar.
Sentou-se num banco de praça, abriu uma garrafa d’água e ficou observando.
Pessoas passando — correndo, gritando, falando ao celular,
postando selfies, pagando boletos, discutindo política…
esquecendo de respirar.
— “Eles ainda não entenderam…” — murmurou,
enquanto um cachorro de rua deitou-se ao seu lado, em paz.
Passou dias ali, sem que ninguém o notasse.
Alguns jogaram moedas, achando que era um mendigo.
Outros desviaram, incomodados com aquele olhar silencioso
que parecia ver o que ninguém queria mostrar.
Até que uma criança, de uns cinco anos, parou, olhou fundo nos seus olhos e perguntou:
— “Você é Deus?”
Ele sorriu:
— “Sou… e não sou.”
A mãe puxou a criança com força,
como quem teme a loucura (alheia) ou o desconforto
de quem ousa ser diferente.
Naquela noite, ele caminhou até um centro de atendimento à população em situação de rua e ajudou a servir sopa.
Depois, abraçou um homem em surto na rua,
segurou a mão de uma mulher prestes a saltar da ponte,
e ficou em silêncio ao lado de um velho que morria sozinho num hospital.
Não fez discursos.
Não fundou religiões.
Não prometeu paraísos.
Não pediu nada.
Dias depois, alguém o confrontou ao “descobrir” sua identidade:
— “Se você é mesmo Ele, por que não faz milagres?
Por que não prova?”
Ele respondeu, calmo:
— “O milagre já foi feito.
A vida. A Terra.
O amor que vocês aprenderam a ignorar.”
Outro gritou:
— “Mas o mundo está pior do que nunca!
E você desaparece por dois mil anos?”
Ele então, com um olhar triste e compassivo, disse:
— “Eu nunca fui embora.
Estou em cada mão que acolhe,
em cada lágrima que é enxugada,
em cada pessoa que escolhe amar em vez de odiar.
Não sou um espetáculo.
Sou um convite.”
E, com isso, levantou-se e foi embora.
Caminhou entre ruas sujas e barulhentas,
misturado à multidão que, mais uma vez, não viu nada.
Na praça, ficou apenas o cachorro.
O único que ainda olhava ao longe, como quem sabe
o que ninguém mais percebeu:
Ele já voltou.
Ele sempre esteve.
Só falta você voltar para si mesmo.
Se ele tivesse vindo com túnica, barba e milagres…
teria virado manchete, meme, e talvez até uma linha de produtos.
Religiões tentariam revendê-lo. Políticos tentariam usá-lo.
Espiritualistas o seguiriam até ele dizer algo que contrariasse seus egos.
E então o cancelariam. Outra vez.
Mas como veio em silêncio, de jeans, all star e mochila, ninguém reparou.
Porque a maioria não quer Deus — quer espetáculo.
Não quer verdade — quer milagre com prazo de validade.
Não quer despertar — quer distração com aparência de fé.
E se você ainda acha que Ele vem montado em nuvem e com harpa ao fundo, talvez valha reler nosso outro texto: “Zeus Criou o Mundo em Seis Dias, Descansou no Sétimo e Foi de Férias (e Nem Jesuz Quer Voltar)“.
E não se esqueça: Todo sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.
Haux!

⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, filósofo, professor e editor-chefe do Factótum Cultural.





