Escrever Para Não Enlouquecer – Por Neemias

“Para a psicanálise, nossa profissão não é uma escolha racional. É um sintoma.”
Essa frase pode parecer exagerada à primeira vista — ou até ofensiva para quem se orgulha da própria trajetória profissional. Mas basta escavar um pouco sob a superfície para perceber: algo em nós já estava empurrando essa escolha muito antes de a consciência decidir.
Quantas vezes ouvimos:
“Desde criança ele dizia que queria ser advogado, médico, policial…”
Mas o que será que havia por trás disso? Um desejo? Uma dor? Um trauma? Uma fantasia de reparação?
A profissão como sintoma
Na teoria psicanalítica, um sintoma é uma manifestação do inconsciente. Não é doença, necessariamente — é mensagem. É algo que o sujeito não consegue dizer com palavras, mas o corpo, o comportamento ou a escolha de vida dizem por ele.
Assim, escolher uma profissão pode ser uma forma de resolver, simbolicamente, algo que não foi resolvido na infância. Uma criança que cresceu vendo a mãe sofrer e se torna advogado. O filho do alcoólatra que decide estudar psiquiatria. O palhaço da casa que vira ator. O aluno invisível que vira professor. O que cresceu no caos e busca ordem vira policial. O que viu a dor de perto decide ser médico. O que nunca entendeu o mundo se torna filósofo. O que escutava tudo, mas nunca era escutado, se transforma em terapeuta. O menino que calava para sobreviver hoje escreve para viver de verdade.
O que parece vocação pode ser só um chamado antigo, de dentro, buscando redenção.
Trabalhar para não enlouquecer
Freud dizia que a vida saudável estava em duas coisas: amor e trabalho. Mas e quando o trabalho é o que impede o amor? E quando o trabalho é a única forma de escapar da dor? A profissão pode virar muleta. Ou esconderijo.
Muitos trabalham demais não por ambição, mas para fugir. Do vazio, da solidão, dos pais, da casa, do esposo (a), da memória.
E o mais cruel: quanto mais o sujeito se identifica com o papel profissional, mais ele se afasta de si. Ser apenas “advogado”, “médico”, “professor”, “psicólogo” — é esquecer-se de que isso é apenas um pedaço da história. É viver no palco o personagem que a ferida escreveu.
E quando a profissão adoece?
É nesse ponto que surge o burnout, a angústia existencial, a sensação de estar no lugar errado com a roupa errada — mesmo com sucesso, diploma, salário. A alma começa a gritar. Porque, talvez, a alma não queira só reconhecimento; ela queira verdade.
Há quem entre em colapso aos 40. Há quem mude tudo aos 50. E há quem continue até o fim da vida atuando o papel que os fantasmas escreveram — e nunca teve coragem de reescrever o roteiro.
Há cura? Há caminho.
A psicanálise não diz que precisamos largar tudo e viver no mato (embora… quem sabe?). Mas convida à escuta. Escutar o que o sintoma quer dizer. Olhar para a profissão com olhos novos. Questionar:
“Quem sou eu sem o meu crachá?”
“Para quem estou tentando provar algo?”
“Estou trabalhando para me realizar — ou para ser aceito?”
Quando o sujeito escuta, ele não precisa mais repetir. Ele pode transformar. Pode continuar na mesma profissão, mas com nova consciência. Pode, inclusive, usar o próprio sintoma como ferramenta de cura — para si e para os outros.
E você?
Talvez sua profissão seja sua máscara. Talvez seja sua armadura. Talvez seja sua forma de amar o mundo.
Mas talvez, só talvez, ela também seja a voz de uma ferida antiga tentando dizer: “me escuta, por favor”.
Então escute.
Porque, às vezes, o trabalho que escolhemos é a nossa alma pedindo ajuda.
E outras vezes… é ela oferecendo ajuda ao mundo.
O não fazer (ócio criativo) também é produtivo. É no vazio que o novo desejo pode surgir.
Qual sua profissão e por que você escolheu ela?
Para muitos homens, a profissão também é um disfarce do sofrimento. Um terno que cobre a alma ferida. Como discuto no artigo “Depressão masculina não é frescura nem falta de churrasco — é falta de alma (ou excesso de ego)“.
E se você leu o artigo “Na Caverna com os Kogi”, já sabe: o menino que viveu na escuridão não esquece a luz — apenas aprende a acendê-la nos outros. Às vezes como advogado, às vezes como professor, às vezes como terapeuta.
E, em alguns casos, como escritor.
Sugestão de Filmes e Leituras Recomendadas:
- “Tempos Modernos” – Charlie Chaplin (1936)
- “Clube da Luta” – David Fincher (1999)
- Christophe Dejours – A Loucura do Trabalho
- Byung-Chul Han – A Sociedade do Cansaço
- Freud – O Mal-Estar na Civilização
- Jung – O Indivíduo Moderno em Busca de uma Alma
Agradecimento
Este artigo nasceu de uma provocação enviada pelo meu querido txai Jocymar Sales. Foi ele quem, com a sensibilidade de quem escuta a vida com os ouvidos da alma, me enviou a frase que acendeu tudo isso. Gratidão, irmão, por soprar essa brasa. Ela virou fogo.
E não se esqueça: Todo sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.
Haux!

⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, filósofo, professor e editor-chefe do Factótum Cultural.





