Escrever Para Não Enlouquecer – Por Neemias

Algumas bonecas são só bonecas. Outras são bússolas para quem já se perdeu de si mesmo.
Você já conheceu alguém que fez chá revelação de um bebê reborn? Pois é. R$ 9.500,00 numa boneca com cílios postiços, roupinha importada e até nome no cartório. Um bebê que não chora — a não ser quando chega a fatura do cartão. Tudo perfeito.
[Não deixe de ler o artigo anterior (com humor): Se for pra surtar, que seja com um bebê reborn no colo.]
Mas tem algo estranho nessa história.
Porque, se você olhar bem, quem empurra aquele carrinho de boneca talvez esteja empurrando mais do que um brinquedo. Talvez esteja tentando carregar de volta a criança interior que um dia foi deixada para trás. Ou quem sabe esteja tentando parir algo que nunca nasceu.
O Conto da Boneca Mágica
Em Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés resgata um antigo conto russo: “Vasalisa e a Boneca”. A história é mais ou menos assim:
Vasalisa é uma menina doce e obediente. Sua mãe, antes de morrer, lhe dá uma boneca e diz: “Sempre que precisar, alimente-a e siga o que ela disser.”
Depois da morte da mãe, Vasalisa vai morar com uma madrasta cruel e duas irmãs malvadas. Um dia, é enviada sozinha à floresta para buscar fogo com Baba Yaga, uma bruxa temida. Vasalisa entra num mundo sombrio. A bruxa faz exigências. Impõe tarefas impossíveis. Mas a boneca — aquela herança secreta da mãe — ajuda em tudo.
Ao final, Baba Yaga entrega a Vasalisa um crânio com fogo. Quando ela chega em casa, esse crânio queima a madrasta e as irmãs, revelando a verdade e pondo fim à opressão.
O Que Esse Conto Quer Dizer?
Tudo. Quer dizer tudo o que a alma precisa ouvir, especialmente em tempos de esgotamento emocional, burnout, depressão e noites embaladas a Zolpidem – e dias em que o ego, esse estagiário emocionado — insiste em manter o controle de um roteiro que não escreveu.
- A boneca mágica é a intuição, o saber silencioso que existe dentro de nós.
- A mãe morta é a perda da proteção, a entrada no mundo adulto, a travessia.
- A madrastra e as irmãs más são símbolos das vozes internas (ou externas) que bloqueiam o desenvolvimento da mulher verdadeira.
- A Baba Yaga é a vida bruta, o lado sombrio da vida e de si mesma , que exige coragem para ser enfrentada.
- E o crânio com fogo é a clareza, a visão espiritual, o discernimento que queima o que não é real.
Com efeito, esse conto é um ritual de iniciação simbólico para mulheres (e homens também, se lerem com atenção). Mostra que, ao perder o “colo materno”, é preciso despertar a sabedoria interior, enfrentar o mundo hostil e conquistar o poder da própria verdade.
E o Bebê Reborn?
Agora respira fundo. Porque talvez o bebê reborn, que parece apenas uma excentricidade, não seja tão diferente assim da boneca mágica de Vasalisa.
Talvez aquela mulher, aquele homem — às vezes até aquela senhora de 70 anos — esteja dizendo silenciosamente:
“Eu perdi minha mãe.”
“Eu não tive colo.”
“Eu nunca fui cuidada.”
“Eu ainda estou esperando alguém me amar.”
E como a dor não se resolve com palavras, o inconsciente cria um símbolo: uma boneca. Mas não qualquer boneca. Uma boneca com vida, com nome, com roupinha lavada na mão. Uma tentativa inconsciente de renascer por fora aquilo que ficou morto por dentro.
Sintoma ou Cura?
Depende.
Em alguns casos, pode ser apenas um escape, uma dissociação leve, um simulacro de maternidade. Em outros, pode ser uma ferramenta simbólica real de cura — como brincar de boneca foi, um dia, para tantas crianças abusadas, silenciadas, traumatizadas ou negligenciadas.
O que parece “ridículo” pode ser, na verdade, uma tentativa desesperada de reorganizar o mundo interno.
A saúde mental agradece quando permitimos que a alma expresse sua dor — ainda que por meio de uma boneca de R$ 9.500,00 com cílios de verdade.
Da Boneca ao Fogo
Mas há um ponto de virada.
Em algum momento, assim como Vasalisa, precisamos parar de alimentar a boneca e começar a alimentar a nós mesmos. O símbolo nos conduz, mas não pode nos substituir. O bebê reborn pode abrir uma janela. Mas é você quem tem que atravessar.
O crânio com fogo — a clareza, o despertar, o renascimento — não pode ser comprado. Ele vem quando enfrentamos a floresta, a Baba Yaga, a vida. Quando decidimos, de uma vez por todas, parar de repetir e começar a viver de verdade.
Quem empurra quem?
Talvez o bebê reborn não seja só uma boneca. Talvez ele seja você — esperando ser vista, acolhida, amada. Talvez você esteja pedindo socorro de um jeito que ninguém entende. Talvez o que precise, agora, seja alimentar a boneca interior. Aquela que te guia. Aquela que ainda sabe o caminho de volta.
E quando estiver pronto, queime o que é falso. Pegue o fogo. E renasça — mas por dentro.
Renascer… essa é a essência da palavra reborn, que vem do inglês e significa exatamente isso: “nascido de novo”. Um termo que carrega em si o convite à transformação psíquica, emocional e espiritual. O chamado para abandonar o que já não serve e permitir que algo mais verdadeiro ocupe seu lugar.
Renascer… a capacidade de transformar e transcender, de abandonar o antigo e dar lugar ao novo.
E talvez a próxima vez que você cruzar com alguém empurrando um boneco no shopping, não ria: abrace com o olhar. Aquela pessoa pode estar tentando encontrar sua Vasalisa. E se você estiver cansado de tudo, talvez esteja na hora de alimentar a boneca mágica que mora em você. Aquela que sabe o caminho de volta pra casa.
Seguimos girando na espiral da Vida!
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Todo sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.
Haux!

⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, filósofo, professor e editor-chefe do Factótum Cultural.çado de normalidade.





