Por Adriano Nicolau da Silva

Ao longo da história da humanidade, observa-se um fascínio constante pela compreensão da mente humana. Desde os tempos da graduação em Psicologia, uma questão formulada por um professor no início do curso tem-me acompanhado a minha trajetória acadêmica e profissional: por que alguns comportamentos se mantêm ao longo do tempo enquanto outros não? Essa indagação reflete uma das grandes questões da psicologia, que possui múltiplos caminhos teóricos, entre eles a psicologia do inconsciente de Freud (1915), a terapia cognitivo-comportamental de Aaron Beck (1967), as perspectivas da psicologia analítica de Carl Gustav Jung e o psicodrama de Jacob Levy Moreno (Jung, 1961. Moreno, 1946), além de muitas outras.
No cenário contemporâneo, a busca por compreender o comportamento humano é alimentada por um interesse crescente de indivíduos que admiram e se encantam pela ciência do comportamento. Nesse contexto, questiona-se se vale a pena cursar uma graduação em Psicologia. A resposta a essa questão envolve uma análise de fatores como a demanda do mercado de trabalho, a relevância social da profissão, as possibilidades de crescimento profissional e a realização pessoal oferecida pela carreira (Araújo & Costa, 2020).
O universo das abordagens filosóficas, teóricas, conceituais e práticas da Psicologia é vasto, abrangendo desde teorias clássicas até as mais modernas abordagens cognitivas e neurocientíficas. A crescente valorização da saúde mental na sociedade reforça o potencial de atuação do psicólogo em múltiplos contextos, incluindo clínicas, instituições de ensino, empresas e órgãos públicos (World Health Organization, 2022). Além disso, eventos globais recentes, como a pandemia de COVID-19, evidenciaram a importância de promover cuidados psicológicos e aumentaram a procura por serviços de Psicologia, refletindo uma maior conscientização acerca da saúde mental como componente essencial do bem-estar humano (Souza et al., 2021).
Diante desse cenário, pode-se afirmar que cursar Psicologia na contemporaneidade configura-se como uma decisão profissional promissora, fundamentada na crescente demanda por profissionais capacitados e na relevância social de promover a saúde mental. Assim, a formação em Psicologia não “apenas” oferece possibilidades de crescimento individual, mas também possibilita contribuir significativamente para a melhora da qualidade de vida das pessoas na sociedade (Araújo & Costa, 2020; 2022).
A compreensão do escopo e da diversidade da psicologia no Brasil contemporâneo revela a sua importância em múltiplas áreas de atuação, refletindo a sua abrangência e relevância social. No âmbito acadêmico, o estudante tem a oportunidade de explorar diferentes abordagens teóricas e práticas, como a psicologia clínica, a psicologia do esporte, a psicologia hospitalar, escolar, institucional e jurídica, entre outras. Essas áreas demonstram a versatilidade do campo psicológico, que se adapta às demandas de uma sociedade em constante transformação. A psicologia clínica, por exemplo, constitui uma das modalidades mais tradicionais e reconhecidas no Brasil, com profissionais atuando em consultórios, hospitais e centros de atenção psicossocial, contribuindo para o tratamento de transtornos mentais e promovendo o bem-estar psicológico (Santos & Oliveira, 2022). Já a psicologia do esporte tem ganhado destaque, especialmente diante do aumento do interesse pelo desempenho físico e saúde mental de atletas, sendo reconhecida pelo Conselho Regional de Psicologia (CRP, 2023) como área de atuação especializada.
A psicologia hospitalar e escolar também desempenha papel fundamental na promoção da saúde e do desenvolvimento humano, contribuindo para melhorias na qualidade de vida e no processo de aprendizagem. No âmbito institucional e jurídico, a psicologia atua na avaliação, perícia e elaboração de políticas públicas, reforçando o seu compromisso com a justiça social e os direitos humanos (Silva & Pereira, 2021). Além disso, os avanços em neurociência têm permitido compreender os processos cerebrais envolvidos na clínica e na aprendizagem, fortalecendo a interface entre psicologia e outras ciências biomédicas, enriquecendo a prática profissional e a pesquisa na área (Lima & Santos, 2020). A aplicação da psicologia em áreas como nutrição, enfermagem e a medicina evidencia sua atuação multidisciplinar, contribuindo para o cuidado integral à saúde.
Nesse sentido, o psicólogo atua em equipes multiprofissionais, promovendo intervenções que consideram o aspecto psicológico do paciente, fator essencial para o sucesso do tratamento e a melhora da qualidade de vida (Fernandes et al., 2021).
No cenário atual, é importante destacar que, apesar dos avanços tecnológicos e do desenvolvimento de inteligências artificiais, a essência da psicologia permanece insubstituível. A complexidade da mente humana, seus mistérios e nuances, demandam uma compreensão profunda, empática e ética, características intrínsecas à atuação do psicólogo.
Como afirma Nardi (2020), “a inteligência artificial pode auxiliar na coleta e análise de dados, mas não possui a capacidade de compreender o sujeito na sua totalidade, tampouco estabelecer a relação de confiança e empatia fundamental na prática clínica”.
Assim, a formação acadêmica sólida, aliada ao desenvolvimento de habilidades humanas e éticas, garante que o psicólogo continue um profissional indispensável na promoção do bem-estar psicológico e na construção de uma sociedade mais justa e saudável.
Finalizando, a pergunta daquele determinado professor durante o período da graduação permanece, mesmo com o avanço contínuo da ciência da psicologia: por que alguns comportamentosse mantêm e outros não? Essa questão intrigante continuará a desafiar os novos estudiosos da psicologia, que buscarão compreender as complexidades da mente humana e os fatores que influenciam a permanência ou a mudança dos nossos comportamentos.
Referências:
1. Araújo, M. R.; Costa, L. S. Perspetivas de atuação e mercado de trabalho na Psicologia. Revista Brasileira de Psicologia, v. 35, n. 2, p. 45–60, 2020.
2. Fernandes, M., et al. Psicologia na saúde: integração multidisciplinar. Revista Brasileira de Psicologia da Saúde, v. 13, n. 2, p. 45–60, 2021.
3. Jung, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Vozes, 1961.
4. Lima, R.; Santos, A. Neurociência e psicologia: avanços e aplicações clínicas. Revista Neurociência em Foco, v. 7, n. 1, p. 15–23, 2020.
5. Moreno, J. L. Psychodrama: Volume I: Foundations of psychodrama, role theory, and sociodrama. Beacon House, 1946.
6. Nardi, H. C. Inteligência artificial e o futuro da psicologia. Psicologia & Sociedade, v. 32, e0123, 2020.
7. Santos, M.; Oliveira, P. Psicologia clínica no Brasil: desafios atuais. Psicologia em Estudo, v. 27, n. 3, p. 400– 415, 2022.
8. Silva, T.; Pereira, L. Psicologia jurídica e justiça social. Revista de Direito e Psicologia, v. 9, n. 2, p. 89–105, 2021.
9. Souza, P. R.; Almeida, T. M.; Silva, J. L. Crescimento na demanda por serviços de Psicologia na era da pandemia de COVID-19. Revista de Saúde Pública, v. 55, p. 101–110, 2021.
10. World Health Organization. Mental health and COVID – WHO Publications, 2022.

Adriano Nicolau da Silva, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Uberaba, MG. Colunista do Factótum Cultural. E-mail: adrins@terra.com.br.





