Como profissional da ciência da psicologia clínica  há 30 anos, percebo uma inquietação que assola os críticos  de uma psicologia baseada no contato humano. Muitas  perguntas surgem de pessoas ao nosso redor, como: a  inteligência artificial (IA), atuando como um “avatar”, irá  substituir a função do psicoterapeuta na sociedade  contemporânea? Admito que não possuo uma solução  pronta para oferecer. A partir da minha experiência clínica,  considero desafiador entender a empatia, o calor humano,  a ética, as reações corporais diante da expressão de uma  emoção, além de reconhecer a inquietação ou o desamparo  no olhar do paciente e os gestos de solidariedade e  gratidão.  

Segundo os pesquisadores Baron-Cohen e  Wheelwright (2004), Edward Bradford Titchener, em  1909, foi o pioneiro na utilização do termo “empatia” como tradução de “Einfühlung”, um termo de origem alemã que  representa a ideia de projetar-se em algo que é observado  de fora. Esses autores afirmam que, mesmo sendo de  grande importância, definir empatia ainda não é uma tarefa  fácil. Na minha perspectiva, a empatia engloba diversos  elementos, tais como aspectos cognitivos, atenção,  recordações, tomada de decisões, bem como emoções  ligadas às relações afetivas e às atitudes nos mais diversos  contextos do paciente, podendo ser compreendidos por  comportamentos verbais e não verbais. Esse elemento  desempenha um papel crucial para o indivíduo perceber  que está sendo efetivamente entendido. Compreendo que a  psicologia clínica procura entender comportamentos  ocultos (privados) ou visíveis (perceptíveis), que  abrangem sentimentos, pensamentos, emoções e outros.  Nesse sentido, acredito que esses elementos não possam  ser codificados por algoritmos. A incorporação crescente  da inteligência artificial (IA) em vários campos da saúde  tem gerado discussões sobre sua capacidade de substituir  profissionais humanos, particularmente na psicologia clínica. Percebo que, apesar do progresso tecnológico,  existem evidências sólidas de que a inteligência artificial,  até o momento, não substituirá o papel do psicoterapeuta,  devido às complexidades humanas, éticas e contextuais  envolvidas. Com base nessa declaração, há algumas  questões que necessitam da atenção do psicoterapeuta. 

Conforme Horvath e Luborsky (1993) afirmam,  há uma série de variáveis do paciente que também  influenciam o processo terapêutico: 

1) habilidades interpessoais (qualidade dos relacionamentos, relações familiares e índice de eventos estressantes na vida); 2) dinâmica intrapessoal (motivação, qualidade das relações  objetais e atitudes); e 3) características diagnósticas (severidade dos sintomas no início  da psicoterapia e prognóstico). Essas variáveis  são apontadas como determinantes mais  influentes na terapia (Horvath e Luborsky, 1993,  p. 567). 

Klein (1930) defende que o processo terapêutico,  particularmente em métodos como a psicanálise, envolve  uma interpretação que transcende a lógica algorítmica. Ela  ressalta que o entendimento terapêutico frequentemente se  baseia na habilidade de interpretar símbolos, metáforas e emoções, que são subjetivos, ambíguos e frequentemente  complexos de quantificar ou simplificar a uma sequência  lógica formal. Essas expressões simbólicas espelham  aspectos profundos do universo interno da pessoa,  abrangendo desejos, conflitos e vivências traumáticas, que  não podem ser entendidos por meio de uma análise  puramente racional ou mecanicista. Portanto, Klein  destaca a relevância do entendimento intuitivo e da  sensibilidade clínica na prática terapêutica, percebendo  que algumas facetas da experiência humana transcendem a  lógica estrita e requerem uma interpretação que valorize o  sentido subjetivo e a complexidade emocional. A  experiência subjetiva, a individualidade e suas histórias  pessoais constituem obstáculos para a Inteligência  Artificial. Ainda para Klein (1930), a terapia implica na  interpretação de símbolos, metáforas e sentimentos que  frequentemente não se ajustam à lógica algorítmica. 

Embora a inteligência artificial possa identificar  padrões de comportamento ou reações emocionais, ela não  tem um entendimento intuitivo ou cultural que possibilite uma intervenção sensível às sutilezas da experiência  humana. A confidencialidade e o sigilo são fundamentos  cruciais na prática clínica, implicando julgamentos morais  e um entendimento ético (Crawford & Paglen, 2019). 

A credibilidade no profissional humano, que  também serve como protetor de princípios éticos, não pode  ser completamente transferida para sistemas  automatizados. Em geral, a decisão clínica é construída em  intuições, percepções e julgamentos que surgem de uma  experiência acumulada e de um entendimento detalhado do  paciente. A partir de Rogers (1961), o terapeuta precisa  estar atento às alterações discretas na comunicação e no  comportamento do paciente, uma competência que  continua sendo um desafio para os sistemas de inteligência  artificial, que funcionam com base em dados e padrões  determinados. Assim, vale ressaltar que estudos realizados  por teóricos associados à Associação Americana de  Psicologia (APA) evidenciam a importância da relação, da  experiência e da vivência dos indivíduos envolvidos no  processo terapêutico como os principais fatores para o êxito psicoterapêutico (APA, 2006). Fatores como  empatia, consistência, pensamento positivo e as atitudes do  terapeuta, historicamente apreciados por teóricos  humanistas, estão sendo continuamente valorizados nas  pesquisas e orientações da APA (Wampold, 2015). 

Conclusão:  

Apesar de a inteligência artificial poder auxiliar na  coleta de dados, análise de padrões e automatização de  tarefas administrativas, ela não substitui a relação  empática, a compreensão contextual e a subjetividade  intrínsecas à prática clínica. Assim, a psicologia continuará  sendo uma profissão focada no ser humano, cuja essência  está na ligação interpessoal, na sensibilidade emocional e  na ética, componentes que destacam a relevância da  psicoterapia, contribuindo de maneira positiva para  aqueles que desejam explorar esse universo fascinante no  caminho do autoconhecimento. 

Acredito ser crucial incluir esse tipo de debate em  estudos que possam refletir sobre as relações humanas, especialmente no que diz respeito às questões éticas, dado  que esse assunto será amplamente discutido na vida atual e futura de pacientes e psicoterapeutas. Minha proposta é  que novos pesquisadores se dediquem à análise da conexão  entre inteligência artificial e psicoterapia, visando  aprimorar os serviços prestados. 

Referências

1 – ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSICOLOGIA. Prática  baseada em evidências em psicologia: força-tarefa presidencial da  APA sobre prática baseada em evidências. American Psychologist, v.  61, n. 4, p. 271–285, 2006. 

2 – BARON-COHEN, S.; WHEELWRIGHT, S. The empathy  quotient: an investigation of adults with Asperger syndrome or high  functioning autism, and normal sex differences. Journal of Autism and  Developmental Disorders, v. 34, n. 2, p. 163–175, 2004. 

3 – CRAWFORD, K.; PAGLEN, T. Atlas of AI: Power, Politics, and  the Planetary Costs of Artificial Intelligence. New Haven: Yale  University Press, 2019. 

4 – HORVATH, A. O.; LUBORSKY, L. The role of the therapeutic  alliance in psychotherapy. Journal of Consulting and Clinical  Psychology, v. 61, n. 4, p. 561–573, 1993. 

5 – KLEIN, M. The limits of artificial intelligence in understanding  human emotion. Journal of Clinical Psychology, v. 73, n. 4, p. 456– 462, 2017. 

6 – KLEIN, M. A importância da formação de símbolos no  desenvolvimento do ego. In: KLEIN, M. Amor, culpa e reparação e  outros trabalhos (1921–1945). (A. Cardoso, trad.). Rio de Janeiro:  Imago, 1996. (Trabalho original publicado em 1930). 

7 – ROGERS, C. R. On Becoming a Person: A Therapist’s View of  Psychotherapy. Boston: Houghton Mifflin, 1961. 

8 – WAMPOLD, B. E. How important are the common factors in  psychotherapy? An update. World Psychiatry, v. 14, n. 3, p. 270–277,  2015.

Tendência