Por Adriano Nicolau da Silva

Como profissional da ciência da psicologia clínica há 30 anos, percebo uma inquietação que assola os críticos de uma psicologia baseada no contato humano. Muitas perguntas surgem de pessoas ao nosso redor, como: a inteligência artificial (IA), atuando como um “avatar”, irá substituir a função do psicoterapeuta na sociedade contemporânea? Admito que não possuo uma solução pronta para oferecer. A partir da minha experiência clínica, considero desafiador entender a empatia, o calor humano, a ética, as reações corporais diante da expressão de uma emoção, além de reconhecer a inquietação ou o desamparo no olhar do paciente e os gestos de solidariedade e gratidão.
Segundo os pesquisadores Baron-Cohen e Wheelwright (2004), Edward Bradford Titchener, em 1909, foi o pioneiro na utilização do termo “empatia” como tradução de “Einfühlung”, um termo de origem alemã que representa a ideia de projetar-se em algo que é observado de fora. Esses autores afirmam que, mesmo sendo de grande importância, definir empatia ainda não é uma tarefa fácil. Na minha perspectiva, a empatia engloba diversos elementos, tais como aspectos cognitivos, atenção, recordações, tomada de decisões, bem como emoções ligadas às relações afetivas e às atitudes nos mais diversos contextos do paciente, podendo ser compreendidos por comportamentos verbais e não verbais. Esse elemento desempenha um papel crucial para o indivíduo perceber que está sendo efetivamente entendido. Compreendo que a psicologia clínica procura entender comportamentos ocultos (privados) ou visíveis (perceptíveis), que abrangem sentimentos, pensamentos, emoções e outros. Nesse sentido, acredito que esses elementos não possam ser codificados por algoritmos. A incorporação crescente da inteligência artificial (IA) em vários campos da saúde tem gerado discussões sobre sua capacidade de substituir profissionais humanos, particularmente na psicologia clínica. Percebo que, apesar do progresso tecnológico, existem evidências sólidas de que a inteligência artificial, até o momento, não substituirá o papel do psicoterapeuta, devido às complexidades humanas, éticas e contextuais envolvidas. Com base nessa declaração, há algumas questões que necessitam da atenção do psicoterapeuta.
Conforme Horvath e Luborsky (1993) afirmam, há uma série de variáveis do paciente que também influenciam o processo terapêutico:
1) habilidades interpessoais (qualidade dos relacionamentos, relações familiares e índice de eventos estressantes na vida); 2) dinâmica intrapessoal (motivação, qualidade das relações objetais e atitudes); e 3) características diagnósticas (severidade dos sintomas no início da psicoterapia e prognóstico). Essas variáveis são apontadas como determinantes mais influentes na terapia (Horvath e Luborsky, 1993, p. 567).
Klein (1930) defende que o processo terapêutico, particularmente em métodos como a psicanálise, envolve uma interpretação que transcende a lógica algorítmica. Ela ressalta que o entendimento terapêutico frequentemente se baseia na habilidade de interpretar símbolos, metáforas e emoções, que são subjetivos, ambíguos e frequentemente complexos de quantificar ou simplificar a uma sequência lógica formal. Essas expressões simbólicas espelham aspectos profundos do universo interno da pessoa, abrangendo desejos, conflitos e vivências traumáticas, que não podem ser entendidos por meio de uma análise puramente racional ou mecanicista. Portanto, Klein destaca a relevância do entendimento intuitivo e da sensibilidade clínica na prática terapêutica, percebendo que algumas facetas da experiência humana transcendem a lógica estrita e requerem uma interpretação que valorize o sentido subjetivo e a complexidade emocional. A experiência subjetiva, a individualidade e suas histórias pessoais constituem obstáculos para a Inteligência Artificial. Ainda para Klein (1930), a terapia implica na interpretação de símbolos, metáforas e sentimentos que frequentemente não se ajustam à lógica algorítmica.
Embora a inteligência artificial possa identificar padrões de comportamento ou reações emocionais, ela não tem um entendimento intuitivo ou cultural que possibilite uma intervenção sensível às sutilezas da experiência humana. A confidencialidade e o sigilo são fundamentos cruciais na prática clínica, implicando julgamentos morais e um entendimento ético (Crawford & Paglen, 2019).
A credibilidade no profissional humano, que também serve como protetor de princípios éticos, não pode ser completamente transferida para sistemas automatizados. Em geral, a decisão clínica é construída em intuições, percepções e julgamentos que surgem de uma experiência acumulada e de um entendimento detalhado do paciente. A partir de Rogers (1961), o terapeuta precisa estar atento às alterações discretas na comunicação e no comportamento do paciente, uma competência que continua sendo um desafio para os sistemas de inteligência artificial, que funcionam com base em dados e padrões determinados. Assim, vale ressaltar que estudos realizados por teóricos associados à Associação Americana de Psicologia (APA) evidenciam a importância da relação, da experiência e da vivência dos indivíduos envolvidos no processo terapêutico como os principais fatores para o êxito psicoterapêutico (APA, 2006). Fatores como empatia, consistência, pensamento positivo e as atitudes do terapeuta, historicamente apreciados por teóricos humanistas, estão sendo continuamente valorizados nas pesquisas e orientações da APA (Wampold, 2015).
Conclusão:
Apesar de a inteligência artificial poder auxiliar na coleta de dados, análise de padrões e automatização de tarefas administrativas, ela não substitui a relação empática, a compreensão contextual e a subjetividade intrínsecas à prática clínica. Assim, a psicologia continuará sendo uma profissão focada no ser humano, cuja essência está na ligação interpessoal, na sensibilidade emocional e na ética, componentes que destacam a relevância da psicoterapia, contribuindo de maneira positiva para aqueles que desejam explorar esse universo fascinante no caminho do autoconhecimento.
Acredito ser crucial incluir esse tipo de debate em estudos que possam refletir sobre as relações humanas, especialmente no que diz respeito às questões éticas, dado que esse assunto será amplamente discutido na vida atual e futura de pacientes e psicoterapeutas. Minha proposta é que novos pesquisadores se dediquem à análise da conexão entre inteligência artificial e psicoterapia, visando aprimorar os serviços prestados.
Referências:
1 – ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSICOLOGIA. Prática baseada em evidências em psicologia: força-tarefa presidencial da APA sobre prática baseada em evidências. American Psychologist, v. 61, n. 4, p. 271–285, 2006.
2 – BARON-COHEN, S.; WHEELWRIGHT, S. The empathy quotient: an investigation of adults with Asperger syndrome or high functioning autism, and normal sex differences. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 34, n. 2, p. 163–175, 2004.
3 – CRAWFORD, K.; PAGLEN, T. Atlas of AI: Power, Politics, and the Planetary Costs of Artificial Intelligence. New Haven: Yale University Press, 2019.
4 – HORVATH, A. O.; LUBORSKY, L. The role of the therapeutic alliance in psychotherapy. Journal of Consulting and Clinical Psychology, v. 61, n. 4, p. 561–573, 1993.
5 – KLEIN, M. The limits of artificial intelligence in understanding human emotion. Journal of Clinical Psychology, v. 73, n. 4, p. 456– 462, 2017.
6 – KLEIN, M. A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego. In: KLEIN, M. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921–1945). (A. Cardoso, trad.). Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Trabalho original publicado em 1930).
7 – ROGERS, C. R. On Becoming a Person: A Therapist’s View of Psychotherapy. Boston: Houghton Mifflin, 1961.
8 – WAMPOLD, B. E. How important are the common factors in psychotherapy? An update. World Psychiatry, v. 14, n. 3, p. 270–277, 2015.





