Postar foto na delegacia é fácil. Difícil é sustentar o personagem depois que o boleto vence e o Pix não cai

Se você entrar hoje no Instagram e digitar “advogado criminalista”, prepare-se: você não vai encontrar operadores do Direito. Você vai encontrar estrelas de cinema. É beca engomada, BMW estrategicamente posicionada, cara de sofrimento jurídico com o pôr do sol ao fundo, legenda de superação (“Ninguém vê as noites sem dormir…”) e a famosa pastinha vazia que ninguém larga por nada, como se nela estivessem guardados os grandes segredos da Justiça — ou, mais provavelmente, três currículos impressos e um boleto da OAB vencido.

O novo advogado criminal de Instagram não precisa advogar. Precisa performar. Audiência? Só se for audiência no Reels. Júri? Só no TikTok, com filtro de advogado internacional. Plantão? Só se for plantão de stories, para mostrar que está “na linha de frente pela liberdade”. E se não tiver cliente? Sem crise. É só pagar um amigo para simular uma audiência fake: a pessoa finge ser réu, o advogado finge estar sustentando, e o que era para ser um flagrante vira material de marketing para os próximos seis meses.

Porque na internet brasileira de 2025, a lógica é simples: quem advoga mesmo, passa fome; quem finge que advoga, passa no feed.

Escritórios suntuosos são montados em coworkings alugados por hora, com mesas de vidro, uma plantinha murcha, duas cadeiras rangendo e uma placa de acrílico com o nome “Advocacia Estratégica e Inteligente” colado com fita dupla face. No feed, claro, isso vira “nossa sede administrativa em expansão internacional”. Expansão que, diga-se, inclui a viagem parcelada em 36 vezes para Espanha, com direito a foto na frente da Universidade de Salamanca e legenda: “Investindo em conhecimento jurídico global”.

E se o sucesso não vier depois da viagem? Relaxa. Sempre tem a terceira via: criar um curso. Mentoria, imersão, jornada, treinamento intensivo de audiências criminais para estudantes de direito que nunca pisaram num Fórum. Com direito a bônus: um PDF colorido com frases de superação e um cupom para aluguel de pastinha executiva.

E para completar o kit “advogado de sucesso instantâneo”, nada como um pacote de seguidores importados. Em poucos cliques e por módicos R$ 49,90, o jovem criminalista passa de 312 seguidores orgânicos (sendo 7 tios e 3 primos) para um exército de 10 mil perfis de Bangladesh, que comentam “Great content, bro!” em posts sobre sustentação oral. No feed, a ilusão é perfeita: sucesso, fama, prosperidade vibracional. Na prática, o telefone continua mudo e a fatura do coworking chega com a pontualidade de um Habeas Corpus indeferido.

Cliente de verdade, aquele que aparece chorando às três da manhã dizendo “doutor, minha liberdade tá nas suas mãos”, esse não aparece fácil. O telefone toca mais para cobrança da Vivo do que para agendamento de reunião. E captar cliente, na prática, é um esporte de resistência: você corre, corre, corre… e no final ainda leva processo de ex-cliente que queria “uma defesa mais agressiva” e confundiu advogado com matador de aluguel.

Claro que há exceções. Sempre existe aquele colega que consegue deslizar na carreira, fecha causas grandes, monta escritório bacana de verdade e não precisa alugar sorriso para parecer feliz. Mas esses são poucos, discretos, e não postam café expresso com legenda “gratidão, Deus” toda segunda-feira.

A maioria da advocacia criminal real é feita de madrugada, debaixo de cheiro de mofo de cadeia pública, sem luz natural para selfies, sem roupa passada, sem discurso de coach. É feita na base do improviso, do prazo apertado, do cliente sem dinheiro e do desespero administrado com café frio.

Enquanto isso, no Instagram, o teatro continua:
Viagens internacionais compradas com dinheiro que não existe, escritórios que fecham antes de dar 18h porque acaba o horário do coworking, mentorias de como ser advogado de sucesso dadas por quem mal conseguiu se inscrever na OAB.

Porque no feed, todo advogado é premiado.
Todo advogado está mudando o mundo.
Todo advogado acorda às 5h, corre 10km, lê 3 livros de processo penal antes do café e ainda encontra tempo para postar uma selfie espontânea com a frase “Sem dor, sem vitória”.

E o cliente? E o processo?
Ah, isso resolve depois. Primeiro, o algoritmo.

No mundo real, a advocacia criminal continua difícil, ingrata, linda e desgraçada do jeito que sempre foi.
Construída devagar, na raça, sem atalho vibracional, sem storytelling comprado.
Cada cliente fechado é uma guerra. Cada audiência cumprida é uma vitória oculta. Cada prazo respeitado é um pequeno triunfo secreto que não vai ganhar curtida, mas vai salvar reputações.

Quem planta personagem, colhe esquecimento.
Quem planta história, colhe respeito.
Quem planta feed, colhe boleto.

No fim do dia, a beca engomada desbota, a BMW volta para a locadora, o Instagram inventa uma nova trend…
E quem fica é você.
Com seus processos reais.
Com suas cicatrizes invisíveis.
E, com sorte, com uma história que vale muito mais do que qualquer foto bonita de escritório alugado.

E para quem acha que ainda falta um empurrãozinho cósmico para o sucesso bater à porta, sempre há a velha solução: alinhar a energia dos processos com a frequência vibracional do otimismo forçado. Já explicamos direitinho essa evolução mística no nosso manual de sobrevivência para tempos difíceis: “Advocacia Quântica: entre o Habeas Corpus e o Reiki”. Porque se o cliente não fecha contrato, talvez seja só falta de alinhamento dos chakras jurídicos.

Se você já está rindo (ou chorando) com a advocacia criminal real, imagina o que te espera em “Criminologia com Humor”. Spoiler: é pior do que parece — mas mais divertido também.


Sobre o autor

⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, filósofo, professor e editor-chefe do Factótum Cultural. Se perdeu entre os livros, os filmes, os boletos e os rituais de Ayahuasca. Escreve para não enlouquecer — e às vezes enlouquece para escrever melhor.

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