Por Adriano Nicolau da Silva

Resumo
Este texto visa apresentar o tema da ansiedade e sua influência na atualidade, discutindo seu impacto no comportamento humano. A ansiedade, enquanto fenômeno psicológico e social, tem sido tema de pesquisa ao longo da história, espelhando as mudanças culturais, econômicas e tecnológicas da atualidade. A partir da literatura, o estudo propõe entender o manejo da ansiedade e sua manifestação na atualidade, ressaltando os autores, conceitos e discussões que influenciaram o assunto.
Palavras-chave: Ansiedade; Tempo Presente; Sintomas de Ansiedade.
1.1. A Evolução do Conceito de Ansiedade
Desde os primórdios da civilização, o ser humano já observava o fenômeno da ansiedade e a conduta humana. Na história da ansiedade, as pessoas acreditavam que a enfermidade era uma possessão demoníaca ou até mesmo uma iluminação mental, invasão de espíritos ou azar. Eram realizados rituais terapêuticos visando expulsar a doença do indivíduo que a apoderou. Foi uma das primeiras ideias mundiais a apresentar afirmações e pesquisas pertinentes ao seu tempo sobre doenças e agravos, além de mencionar outras condições de saúde, como as parasitárias e infecciosas.
Assim, eles acreditavam que a doença era um desequilíbrio na natureza do indivíduo, que se manifestava por meio dessas percepções. Essas substâncias, conhecidas como os quatro humores corporais, estão associadas ao coração, baço, fígado e fleuma, respectivamente. Assim, acreditava-se que a natureza conseguia influenciar tais aspectos e causar enfermidades. (Canguilhem, 2009).
A compreensão da ansiedade atravessou várias etapas, desde a psicanálise até a psicologia cognitivo comportamental. Freud (1926) foi pioneiro na associação entre ansiedade e conflitos inconscientes, enquanto autores como Selye (1936) introduziram a ideia de estresse como uma reação fisiológica ao perigo percebido. No contexto do século XXI, escritores como LeDoux (2015) ressaltam as raízes neurobiológicas da ansiedade, demonstrando a sua complexidade.
Destacar os problemas físicos e psicológicos que a ansiedade excessiva causa no indivíduo é crucial. Certos indivíduos canalizam a ansiedade para o corpo físico, enquanto outros percebem as consequências na mente. Podem ser ressaltados sintomas como taquicardia, boca seca, dilatação das pupilas, elevação dos batimentos cardíacos, dores nas pernas, falta de concentração, medo, terror, insônia, irritabilidade, esquecimento, entre outros. Algumas pessoas experimentam um sofrimento exagerado, não podendo trabalhar e estudar adequadamente.
2. A Ansiedade na Sociedade Contemporânea
Com a chegada do século XXI, a ansiedade emergiu como um fenômeno social de destaque. Conforme Bauman (2007), na sociedade líquida, caracterizada pela rapidez e instabilidade, a ansiedade tornou-se uma reação habitual às incertezas do mundo contemporâneo.
Greenberger e Padesky (2015) associam o crescimento da ansiedade ao ritmo de vida acelerado, às pressões sociais e às mudanças tecnológicas.
A ansiedade é um tema recorrente de pesquisas científicas em áreas da saúde e entender seu efeito no indivíduo, sua organização e funcionamento são questões importantes que estão se tornando cada vez mais urgentes de serem esclarecidas.
É evidente que a ansiedade está presente em quase todos os ambientes, as pessoas estão excessivamente preocupadas com sua família, saúde, trabalho, política e com essa sociedade totalmente desorientada. Os estímulos mentais perturbam os indivíduos, causando-lhes pensamentos acelerados e o temor do desconhecido. E alguns buscam equilíbrio por meio da oração, psicoterapia ou até mesmo do uso de medicamentos como ansiolíticos e antidepressivos.
Segundo Sabongi:
Nossa mente é diariamente bombardeada com centenas de informações que acabam se avolumando e criando uma teia de assuntos que exigem mais conexões neurais do que podemos suportar. Procure imaginar uma estrada com muitas mãos e vias, todas congestionadas. Existe fluência de tráfego? A resposta é absolutamente não. Imagine agora os nossos neurônios congestionados com milhares de assuntos diariamente, disparando sinais entre si e tentando nos fazer compreender o que é prioritário e o que não é. (SABONGI, 2019, p.346).
Nos anos recentes, a ciência tem se concentrado na ansiedade e seus impactos na vida em comunidade. Aspectos como a dependência de redes sociais, álcool, tabagismo, drogas ilícitas, medicamentos e a alimentação industrializada, como o açúcar em excesso, provocando inflamação, ansiedade e depressão, merecem nossa atenção.
Por exemplo, Twenge e colaboradores (2017) fornecem informações que apontam para um crescimento nos transtornos de ansiedade entre os jovens, associando-os ao uso excessivo de aparelhos digitais. O tempo presente, caracterizado por rápidas mudanças e incertezas, reforça a sensação de ansiedade.
Na última década, as redes sociais causaram mudanças profundas na forma como as pessoas se comunicam e interagem. No entanto, não está claro se algumas dessas mudanças podem afetar certos aspectos do comportamento humano e causar ansiedade.
Estudos recentes, como os de Kessler et al. (2012), apontam que fatores como crise econômica, pandemia de COVID-19 e mudanças climáticas agravam o quadro de ansiedade global.
A bibliografia também discute a influência das redes sociais na amplificação de sentimento de insegurança e medo, como demonstrado por Pantic (2014).
A ansiedade é um transtorno psicológico que tem se tornado cada vez mais prevalente na sociedade brasileira contemporânea, refletindo as complexidades e os desafios do contexto atual.
Segundo dados do Ministério da Saúde (2021), a ansiedade impacta uma grande parte da população, principalmente entre os jovens e adultos, contribuindo para o crescimento da procura por serviços de saúde mental no país. O aumento dos níveis de ansiedade está ligado a vários fatores, incluindo a crise econômica, formação pessoal (biopsicossocial), a violência nas cidades, a instabilidade política e a aceleração do estilo de vida, traços característicos do Brasil atualmente.
De acordo com Silva et al. (2022), “A ansiedade tem se tornado uma resposta comum às pressões sociais e econômicas enfrentadas pelos brasileiros, muitas vezes agravadas pela pandemia de COVID-19, que intensificou sentimento de insegurança e vulnerabilidade” (p. 45). A pandemia, em particular, desempenhou papel central na exacerbação dos transtornos de ansiedade, como evidenciado por estudos nacionais, que apontam um aumento de até 40% nos diagnósticos em comparação ao período anterior à crise sanitária (Lima & Souza, 2021).
A ansiedade, além do efeito pessoal, tem um impacto na “História Pública” do país, seja na cultura, política, lazer, arte, economia, educação, trabalho e nas relações familiares. Nota-se a escassez de profissionais qualificados na área da saúde, o acesso restrito a serviços de saúde mental, o estigma ligado aos problemas psicológicos e a ausência de políticas públicas efetivas que complicam a abordagem do problema no Brasil.
Como afirma Carvalho (2020), “a negligência na atenção à saúde mental reflete uma ausência de prioridade governamental, deixando grande parte da população vulnerável às consequências da ansiedade não tratada” (p. 78).
Assim, entender a ansiedade na sociedade brasileira atual requer o reconhecimento de suas diversas causas e efeitos, além da exigência de estratégias unificadas de prevenção, tratamento e conscientização social. É fundamental expandir o acesso a serviços de psicologia, neurologia e psiquiatria, dar ênfase ao cuidado preventivo e implementar políticas públicas inclusivas para atenuar os impactos desse desafio na sociedade brasileira atual.
3. Conclusão
Optou-se pelo tema em debate devido à grande incidência de indivíduos que lidam com os sintomas da ansiedade. Percebo a relevância de estudar mais profundamente o tema, debater e considerar sobre opções de tratamento que aliviem o sofrimento mental da população. Entender a história da ansiedade no presente, destacando a sua complexidade e a exigência de estratégias multidisciplinares para lidar com seus obstáculos. A literatura atual reflete um cenário de preocupação social e científica em ascensão, enfatizando a necessidade de pesquisas constantes para fomentar o bem-estar psicológico na sociedade atual. Assim, escritores como Hofmann e colaboradores (2012) ressaltam a efetividade de terapias fundamentadas em evidências, como a terapia cognitivo-comportamental, no manejo da ansiedade.
4. Referências
1. Carvalho, M. F. (2020). Saúde mental e políticas públicas no Brasil: uma análise crítica. Ciência & Saúde Coletiva, 25(1), 75-84.
2. Bauman, Z. (2007). Liquid Modernity. Polity Press.
3. Canguilhem, G. (2009). O normal e o patológico (6ªed.). Rio de Janeiro: Forense Universitária. Freud, S. (1926) Inhibition, Symptoms and Anxiety. Standard Edition.
4. Greenberger, D., & Padesky, C. A. (2015). Mind Over Mood: Change How You Feel by Changing the Way You Think. Guilford Publications.
5. Lima, J. R., & Souza, P. H. (2021). Impacto da pandemia de COVID-19 na saúde mental dos brasileiros. Psicologia & Saúde, 13(2), 112-130.
6. Hofmann, S. G., Asnaani, A., Vonk, I. J., et al. (2012). The Efficacy of Cognitive Behavioral Therapy: A Review of Meta-analyses. Cognitive Therapy and Research, 36(5), 427–440.
7. Ministério da Saúde. (2021). Boletim de Saúde Mental no Brasil. Brasília: MS.
8. Silva, R. A., Oliveira, M. T., & Pereira, L. S. (2022). Ansiedade na sociedade brasileira contemporânea: causas e desafios. Revista Brasileira de Psicologia, 78(1), 44-59.
9. Kessler, R. C., et al. (2012). The Global Burden of Anxiety Disorders. Psychological medicine, 42(4), 723– 736.
10. LeDoux, J. (2015). Anxious: Using the Brain to Understand and Treat Fear and Anxiety. Viking. Pantic, I. (2014). Online Social Networking and Mental Health. Cyberpsychology, Behavior, and Social Networking, 17(10), 652–657.
11. SABONGI, J. Disciplina da Mente: Seja seu diretor interior de autogerenciamento. São Paulo: Editora Viseu, 2019.
12. Selye, H. (1936). A Syndrome Produced by Diverse Nocuous Agents. Nature, 138(3479), 32.
13. Twenge, J. M., et al. (2017). Increases in Depression and Anxiety Among U.S. Adolescents During the COVID 19 Pandemic. Journal of Abnormal Psychology, 130(4), 330–341.

Adriano Nicolau da Silva, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Uberaba, MG. Colunista do Factótum Cultural. E-mail: adrins@terra.com.br.





