Por Livros & Grimórios

O Kitáb-i-Íqán — “O Livro da Certeza” — é uma das obras centrais da Fé Bahá’í. Foi escrito por Bahá’u’lláh (1817–1892), fundador da Fé Bahá’í, ainda antes de declarar publicamente sua missão. Nascido em Teerã, de origem nobre, Bahá’u’lláh renunciou aos privilégios materiais para dedicar-se à causa espiritual que lhe foi confiada. Após sofrer prisão, tortura e exílio por sua ligação com o movimento do Báb, escreveu esse livro em Bagdá, em 1857-1858, como resposta às perguntas de um erudito muçulmano sobre a legitimidade da revelação do Báb — o precursor da Fé Bahá’í.
O livro é mais do que uma defesa de um Mensageiro. É um tratado teológico e espiritual que explica, com lógica e clareza, a continuidade das religiões, o significado simbólico das Escrituras, o papel dos Profetas e as condições necessárias para reconhecer a verdade. Não há capítulos nomeados, mas sua organização interna conduz o leitor da dúvida à certeza — como sugere o próprio título.
A Revelação Progressiva
Bahá’u’lláh afirma que Deus sempre guiou a humanidade através de uma sequência de Manifestantes: Adão, Noé, Abraão, Moisés, Jesus, Maomé, o Báb e outros. Cada um apareceu em uma época diferente, com uma missão específica, adaptada à capacidade espiritual da humanidade naquele tempo. Apesar das diferenças exteriores (nome, idioma, leis), todos refletem uma única realidade espiritual. São como espelhos perfeitos refletindo a luz do mesmo Sol — Deus.
Essa sucessão é chamada de Revelação Progressiva. Não há ruptura entre as religiões. O que há é um ciclo contínuo de orientação. Cada religião é uma etapa na educação espiritual da humanidade. A rejeição de um novo Mensageiro ocorre, quase sempre, porque os fiéis esperam que ele venha conforme suas próprias interpretações das Escrituras anteriores.
O Erro do Literalismo
Grande parte do Kitáb-i-Íqán é dedicada a esclarecer que muitas passagens das Escrituras Sagradas são simbólicas. Quando textos falam de “anjos descendo”, “estrelas caindo”, “mortos ressuscitando”, “o céu se abrindo” — não estão descrevendo eventos físicos, mas realidades espirituais.
As “estrelas” são os líderes religiosos da era anterior, que perdem seu brilho diante da nova luz. Os “mortos” são os que estão espiritualmente adormecidos. A “ressurreição” é o despertar da alma para uma nova verdade. As “nuvens” que ocultam Deus simbolizam os preconceitos, a tradição cega e os testes espirituais que impedem o reconhecimento do novo Mensageiro.
Assim, Bahá’u’lláh ensina que a leitura literal das Escrituras tem sido a principal causa da rejeição dos Profetas — Jesus, Maomé, o Báb — por parte daqueles que, ironicamente, mais conheciam as próprias Escrituras.
O Retorno dos Profetas
Outro ponto esclarecido por Bahá’u’lláh é o conceito de “retorno”. Não se trata da volta física do mesmo corpo, mas do retorno espiritual das mesmas qualidades divinas. Assim como João Batista era o retorno de Elias — conforme Jesus afirmou —, o Báb representa o retorno do Prometido do Islã, e Bahá’u’lláh, o cumprimento da promessa do “Espírito da Verdade”.
O retorno, portanto, deve ser entendido como a vinda de um novo Mensageiro que carrega a mesma missão, o mesmo espírito e a mesma luz — mas com novo nome, nova forma e nova revelação.
A Causa da Rejeição
Bahá’u’lláh apresenta com firmeza os principais motivos pelos quais os Profetas sempre foram rejeitados:
- Apego à tradição: a crença de que a religião atual é a última e perfeita.
- Orgulho espiritual: a confiança excessiva no próprio conhecimento religioso.
- Interpretação literal das Escrituras.
- Poder e influência dos líderes religiosos, que temem perder seu prestígio diante do novo.
Esses fatores formam véus espirituais que cegam o coração e impedem a visão da verdade.
A Natureza dos Manifestantes
Bahá’u’lláh explica que os Manifestantes de Deus possuem duas naturezas: uma humana, sujeita à dor e limitação; e outra espiritual, pela qual manifestam a vontade de Deus de forma perfeita. Eles não aprendem como os homens comuns — sua sabedoria provém diretamente da Fonte Divina.
Por isso, suas palavras têm um poder transformador: fazem surgir novas religiões, inspiram culturas, reformam sociedades e renovam os corações. A verdadeira prova da autenticidade de um Mensageiro não está em milagres, mas nos frutos de sua revelação.
O Caminho da Certeza
Por fim, Bahá’u’lláh descreve as qualidades do verdadeiro buscador da verdade:
- Desapego do mundo e das paixões.
- Humildade diante do desconhecido.
- Pureza de coração e abandono do ego.
- Busca sincera com olhos livres e mente aberta.
A certeza não nasce do fanatismo nem da quantidade de seguidores, mas da transformação interior que a Palavra de Deus provoca em quem a escuta com sinceridade.
Conclusão
O Kitáb-i-Íqán é uma obra de ruptura e continuidade: rompe com a rigidez das leituras tradicionais e oferece uma chave de unidade entre todas as religiões. Mais do que um tratado religioso, é um guia espiritual para quem busca sentido em meio à fragmentação.
Ao conduzir o leitor da dúvida ao reconhecimento, da letra morta à luz do espírito, Bahá’u’lláh mostra que a verdadeira fé não é apego à forma, mas abertura à essência — e que a certeza é, antes de tudo, um estado interior conquistado por quem caminha, com verdade, em direção a Deus.
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