Reflexões sobre o autoconhecimento, novas experiências e ritual de Ayahuasca

Todo fim de ano faço um ritual de despedida de alguns hábitos e crio as famosas metas de ano novo — um clássico. Para 2025, me deparei com uma lista enxuta de desejos e objetivos. Só tinha um tópico: “investir e me dedicar ao autoconhecimento”.
2024 foi como se eu tivesse voltado àquela fase da infância em que os “porquês” são infinitos. A diferença é que as respostas para tais questionamentos eu não encontraria no Google ou perguntando para os meu pais, elas estão dentro de mim, em algum lugar e, cada vez mais, sinto a necessidade de encontrá-las. Aí vem a segunda fase para que eu conclua com sucesso minha grande e única meta para este ano, como fazer isso? Por onde eu começo?
Conexão“Não há cura sem conexão”, diz o Dr. Gabor Maté em seu livro “Vício: o reino dos fantasmas famintos”. Então é isso, o primeiro passo é me conectar verdadeiramente comigo, buscar o amor por mim, o que não é muito diferente do que minha psicóloga insiste em fazer eu entender. “Você precisa colocar a máscara de oxigênio em você primeiro, só assim vai poder ajudar os outros”, ela me diz semana sim, semana também.

Claro que nessa busca pelo autoconhecimento a terapia vem me ajudando de forma inexplicável, mas a minha vontade é ir além. Foi então que lembrei de uma conversa que tive com um amigo e colega de profissão, um fotojornalista sensível e muito de bem com a vida. Ele me disse que vira e mexe ia até uma comunidade indígena no Acre e participava de rituais de Ayahuasca. Descreveu a sensação como algo mágico, disse que viveu experiências de conexão com ele e com a natureza impossíveis de reproduzir em palavras. Encontrou respostas. Será? Tive minhas dúvidas.

Até que me deparei com o filme “O Remédio Sagrado”,  disponível na Aquarius. Dei play  e nele, Taita Juanito, um xamã de uma das comunidades indígenas mais antigas da Amazônia colombiana, define logo no início do documentário o Ayahuasca de forma bem semelhante ao que meu amigo me contou. Ele diz que o chá resultante da junção do cipó-jagube com o arbusto-chacrona é um remédio que cura o que precisa ser curado. Limpa o espírito e permite que o indivíduo se conecte com ele mesmo e com o mundo espiritual, encontrando as respostas que precisa naquele momento.
As experiências individuais  É claro que isso chamou minha atenção dado o contexto que compartilhei com vocês, mesmo que eu ainda encarasse o tema com certo ceticismo. Continuei o filme e alerta de spoiler: minha opinião mudou completamente depois de assistir tudo. A proposta de “O Remédio Sagrado” não é defender cegamente os rituais, mas explicar tudo que o envolve, desde sua importância enquanto movimento cultural das comunidades indígenas  até como o chá é visto pela sociedade contemporânea. Remédio? Droga?

Para isso, eles vão até a comunidade de Taita Juanito e acompanham o xamã na preparação para um ritual, entrevistam cientistas e especialistas que estudam os efeitos do Ayahuasca no cérebro humano. Segundo o Dr. Jordi Riba, que pesquisa há 20 anos o assunto, o chá tem potencial para desenvolver novas células cerebrais, o que ajudaria no tratamento de doenças como Alzheimer, Parkinson e vícios em geral.
“Vimos que as regiões do cérebro envolvidas no processo emocional da memória se comunicam melhor com áreas do cérebro envolvidas no controle cognitivo e na cognição depois de uma experiência de Ayahuasca. Áreas que não deveriam se comunicar espontaneamente têm uma interação maior 24 horas após uma sessão de Ayahuasca”, diz o médico que atesta ainda a segurança da substância.
Incrível, mas para mim ainda faltava a tal comprovação de que o chá tem poder no autoconhecimento. O documentário levou dois personagens com questões internas a serem resolvidas para participar do ritual com Taita Juanito, um deles amou a experiência e voltou por conta própria outras vezes e a outra pessoa não gostou da sensação mas admitiu que notou mudanças internas e em sua vida depois da experiência. Anotei então ao lado da minha única meta que deveria pesquisar mais e guardar dinheiro para visitar Juanito.
A verdade é que a jornada pelo autoconhecimento é única, não linear e extremamente mutável já que nós estamos mudando o tempo inteiro. Fazer um passeio no catálogo da Aquarius é se deparar com essa realidade, “Heal”, “Eu” e tantos outros abordam a cura e o autoconhecimento de formas diferentes e válidas. Depois de “O Remédio Sagrado” abro a minha mente para entender que existem muitos caminhos.
Ainda não decidi se tenho coragem para tomar o chá, mas definitivamente criei coragem para mergulhar em mim.
Por do Sol
Neste texto e para ir além:
Livro: Vício — O Reino dos Fantasmas Famintos Filme: Eu, na Aquarius
Filme: Heal, na Aquarius
Livro: Vício — O Reino dos Fantasmas Famintos
Filme: Eu, na Aquarius
Filme: Heal, na Aquarius
Mari Teixeira

Mari Teixeira trabalha com comunicação e adora dar pitaco nas coisas com uma boa dose de cultura pop.

Aquarius. 17.1.2025.

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