Por Adriano Nicolau da Silva

Noto um isolamento das pessoas em sociedade nas minhas observações. Quando estamos numa instituição pública ou até mesmo num supermercado, observamos indivíduos imersos na solidão, ou no olhar indiferente de tudo e de todos. Como especialista em saúde mental há vários anos, noto uma enorme complexidade nesse cenário. Estou convencido de que existe um risco ao identificar as origens da solidão alguns elementos desencadeantes, tais como o avanço tecnológico, as redes sociais, a era industrial focada na inteligência artificial ou até mesmo a competição de mercado para acumular bens de consumo.
O diálogo presencial nas famílias, com amigos, colegas de trabalho ou professores, transformou-se num desafio existencial. O mais preocupante é que os analfabetos digitais podem se tornar ainda mais solitários neste mundo contemporâneo. Todo esse fenômeno social focado na solidão pode fornecer uma explicação etiológica para a elevada prevalência de ansiedade e depressão atualmente?
Ao analisar a história da psicologia, é possível notar a presença do termo desamparo nos textos de Freud publicados em 1895. Neste texto, Freud (1886-1889/1996) descreve a necessidade de assistência externa para estimular a ação específica indispensável para a sobrevivência. Dessa forma, é possível notar a dor da solidão num grupo enorme de pessoas, independentemente da idade, isoladas, solicitando a atenção dos outros para suprirem as suas carências afetivas.
Segundo Bauman (2001-2005), o indivíduo atual enfrenta situações descartáveis, efêmeras e fragmentadas, distanciando-se de instituições que outrora ofereciam estabilidade. Na sociedade pós-moderna, a solidão, a falta de interação com a família, o trabalho, a escola e outras instituições podem ser vistas como a falta de laços significativos, distanciando a pessoa de sua natureza, a socialização.
É necessário compreender que a realidade social mudou, demandando de cada um de nós uma atitude distinta. E, considerando que o ser humano é um animal habituado, percebemos o pavor do desconhecido e a veneração pela nostalgia. O resultado adverso desse comportamento é a dificuldade em progredir na carreira e a perda de oportunidades nas relações interpessoais.
Ao invés de nos isolarmos, é crucial aprender a gerir as mudanças para o nosso crescimento emocional e a preservação do nosso bem-estar. As minhas recomendações incluem:
- Programas psicossociais que promovam o envolvimento comunitário, reunindo jovens, adultos e idosos para atividades conjuntas que encorajem a amizade e a solidariedade;
- Experiências compartilhadas;
- Fortalecimento das conexões, incentivando o voluntariado para aumentar o sentimento de pertencimento;
- Participação de um esporte que possa ser praticado em conjunto para promover a saúde física, mental;
- Investimento no processo psicoterapêutico.
O tratamento psicoterapêutico pode auxiliar a entender os desencadeadores da solidão, tais como pensamentos baseados em crenças irracionais, auxiliando-o a substituí los por pensamentos proativos, além de estabelecer novas ligações com a comunicação assertiva, facilitando as interações interpessoais de maneira gratificante.
Portanto, vejo como uma oportunidade para atenuar a solidão, levando em conta as diversas opções para superar o isolamento social e acreditando na transformação de um indivíduo rumo ao seu desenvolvimento integral. Através da interação nas redes sociais, tanto presenciais quanto virtuais, atendendo à sua necessidade de afeto e à sensação de integração, observaremos um homem em constante evolução. Você tem a tendência de se sentir isolado?
Referências:
Bauman, Z. (2001) Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar. ______. Identidade. (2005). Rio de Janeiro: Zahar.
Freud, S. (1996 a). Publicações pré-psicanalíticas e esboços inéditos. In: ______. Obras completas (v. I p. 335-396). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1886-1889).

Adriano Nicolau da Silva, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Uberaba, MG. Colunista do Factótum Cultural. E-mail: adrins@terra.com.br.
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