
por Adriano Nicolau da Silva
Depois de vários anos de experiência como psicólogo, ao entrevistar e observar diversas pessoas, noto que muitas vivem com incertezas sobre o propósito da vida. Hoje, percebo que o verdadeiro destaque não está nas riquezas materiais, mas sim na saúde mental. Aqueles que conseguem preservar o seu equilíbrio emocional em meio às dificuldades do mundo atual são os que realmente possuem o que há de mais valioso.
O mundo necessita de nós e nós necessitamos do mundo. Ocorre que estamos sobrecarregados com tantas exigências. Atender às demandas desse mundo tecnológico interconectado voltado para a produção em massa e com diversos papéis que precisamos desempenhar bem, nos afastam do contato com a natureza. O conflito político, a guerra em algumas partes do globo, a destruição da natureza e a busca incessante pelo poder sem ética e consideração estão impedindo o homem de viver de forma equilibrada e prudente.
Estamos enfrentando desafios mentais com diversos estímulos que nos cercam. As interpretações provocam um efeito neuroquímico, aprisionando os neurônios e causando pânico, o que resulta em problemas como depressão, ansiedade, burnout, déficit de atenção e hiperatividade. O custo de um certo conforto material nos causa problemas mentais e físicos que se espalham por todos. Como defesa psicológica, nos tornamos obsessivos em buscar alívio para as nossas dores por alimentos ultra processados saborosos e sem os nutrientes essenciais, mas que satisfazem a nossa fome rapidamente.
Dessa forma, ficamos mais doentes com a obesidade e as síndromes metabólicas, assim como o conjunto de situações que aumentam a incidência de doenças cardíacas, acidente cerebral e diabete. Estamos doentes e, infelizmente, queremos ostentar o que não faz sentido, por ideologias, crenças ou acúmulos de bens visíveis e não, para ficarmos impressionados ou chamar a atenção dos outros suprindo as mazelas existenciais.
Neste sentido, atraímos a pobreza de espírito o nosso adoecimento e de quem está próximo, distanciando a nossa essência do natural para acompanharmos obsessivamente as novidades de mercado ou sonhando em ser promovido e entrar para a prisão da produção sem limites. Cresce a solidão, a angústia e os sentimentos de vazio. A falta da conversa, do riso e das falas sem preocupação com a crítica não existe mais, apenas o solilóquio do sujeito com o seu Smartfone.
É imprescindível considerar uma subjetividade que se ajusta ao contexto, capaz de atender às mudanças sócio, históricas. Pensar e repensar uma postura capaz de ser crítico com a nossa saúde mental, apesar de todos os movimentos humanos contrários. Nós já comprovamos que o excesso de desempenho nos causa desconforto mental, nos aprisiona e nos aproxima dos distúrbios psicopatológicos descritos pela (APA, 2002, p. 362).
Quem consegue manter o equilíbrio no mundo atual e ter saúde mental? Saúde mental é muito mais relevante que a ausência de doenças mentais. Aqueles com saúde mental têm a habilidade de lidar com as mudanças de curto e longo prazo de maneira resiliente. Reconhecem os seus limites e conseguem enxergar a individualidade no grupo. Eles conseguem expressar as emoções e lidar com elas, sejam elas boas ou más, de reconhecer as mudanças internas, pensamentos e os sentimentos, bem como as externas, tais como as políticas, o mercado de trabalho e os movimentos sociais. Consegue reconhecer os seus problemas sem os projetar em outros, busca auxílio quando necessário e administra as suas angústias e desejos de maneira equilibrada. Assim, os que realmente se ostenta hoje são pessoas modestas e perseverantes em suas singularidades. Elas sabem aplicar seus valores essenciais em favor da vida, evitando a adoção de atitudes desenfreadas de consumismo e autodestruição, que estão presentes em um discurso social voltado para a produção em larga escala, prejudicando os recursos naturais.
Portanto, contemplar o nascer do sol, os pássaros cantarem, a chuva calma no telhado e observar as crianças brincando na inocência enquanto se divertem com o voo das borboletas no campo poderá fazer muito sentido. Nada pode nos tirar da paz no silêncio das profundas reflexões de uma constante mudança com adaptação e da espera pelo jantar, onde todos ao redor da mesa desfrutarão de uma excelente refeição, com conversas que abraçam o passado, inspiram o presente e fortalecem a esperança no que virá.
Referência Bibliográfica
ASSOCIAÇÃO PSIQUIÁTRICA AMERICANA (APA). (2002), manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-IV-TR). Porto Alegre, Artmed.

Adriano Nicolau da Silva, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Uberaba, MG. Colunista do Factótum Cultural. E-mail: adrins@terra.com.br.
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