por Adriano Nicolau da Silva

Ao abordar o tema “depressão” e interações humanas, vem à mente um livro que li há algum tempo, escrito por um professor de psicologia chamado Andrew Solomon, lançado em 2000, “O demônio do meio-dia” sendo uma referência em relação à depressão, tanto para os leigos quanto para os especialistas. O escritor descreve com clareza sua vivência com a depressão e empatia, esse tema que se espalha cada vez mais e retrata bem a experiência de pessoas que sofreram com a depressão e procura fundamentar a sua obra em pesquisadores sérios e competentes no assunto. Fica claro que, ao estabelecer vínculos humanos com afeto, a pessoa se sente reforçada diante das exigências da depressão. É conhecido que o autoextermínio se tornou uma realidade triste na sociedade e, em muitas situações, a depressão é a principal responsável. É crucial abordar o assunto e oferecer suporte social àqueles que enfrentam o problema. As relações humanas de quem sofre dessa doença tornam-se incapacitantes. A ausência, o rendimento no trabalho e a dificuldade em estabelecer relações humanas tornam-se um sacrifício. Doenças e risco de morte precoce associado ao suicídio são uma realidade (Abreu & Oliveira, 2008).
Ao pensar escrever esse texto, veio a minha mente o pensador Zygmunt Bauman, um sociólogo e filósofo que abordou a interação entre seres humanos numa sociedade extremamente complexa. De acordo com ele, as relações entre indivíduos tornaram-se fluidas. Essa fluidez pode estar relacionada à superficialidade nas interações humanas e à disparidade entre o pragmatismo e a construção do afeto. E mencionarei Freud, o fundador da psicanálise, que se sensibilizava com o sofrimento humano e costumava dizer que sempre precisou ter na sua vida um grande amigo e um adversário implacável. Às vezes, esses papéis eram desempenhados pela mesma pessoa (FREUD, apud PERESTRELLO, 1996, p. 14). Freud se dedicou ao estudo da subjetividade, procurando compreender a ação do homem através do inconsciente. Observava eventos com sensibilidade adquirida ao longo dos anos, frequentemente negligenciados pelas pessoas. É fascinante a sua obstinação para compreender o motivo de determinadas pessoas conduzirem as suas vidas pela virtuosidade ou de forma ignorada pelo prazer imediato e falta de sentido.
Recentemente, um estudo realizado em Harvard sobre a importância das relações humanas ganhou destaque mundial. Relacionamentos saudáveis podem contribuir para uma vida feliz e fisicamente equilibrada. Os resultados desse estudo estão presentes no livro “The Good Life: Lessons from the world’s longest scientific study of happiness“, escrito por Robert Waldinger, psiquiatra e pesquisador da Universidade de Harvard. Toda a pessoa tem, em qualquer situação, necessidades materiais, sociais e psicológicas que quer satisfazer e dirigem o seu comportamento para este ou aquele lado. As confusões surgem quando um obstáculo impede a satisfação de uma das necessidades. A falta de satisfação gera um sentimento de fracasso, de impotência e de baixa estima. Esses sentimentos, que surgem da frustração pela necessidade, são comuns nas nossas vidas quando alguma causa externa ou outra pessoa impede a satisfação de um desejo. Se um jovem deseja se juntar a um grupo de amigos e o seu pai nega autorização, sente-se frustrado. As pessoas reagem às frustrações de diversas maneiras, mas noto que em algumas situações, a vulnerabilidade psicológica é mais evidente, levando a pensamentos negativos. Pode surgir o comportamento infantilizado que ataca direta ou indiretamente quem está próximo. Como todos os desejos não podem ser satisfeitos, temos que lidar com as frustrações e os conflitos com frequência. Assim, a existência é um processo contínuo de adaptação e aprendizado. A frustração e o conflito provocam estados de ansiedade e inquietação, levando a pessoa a agir em busca do equilíbrio emocional. Algumas pessoas deprimidas, com a sensação de incapacidade, real ou imaginada, utilizam certos mecanismos de defesa para recompensá-la.
As características descritas são as seguintes:
. Impressionam-se com as críticas que recebem;
. A ausência de interação social ou isolamento;
. Muitos criticam excessivamente os outros;
. Têm vontade de ser adulados;
. Sentimentos de inferioridade geram emoções negativas;
Conhecendo a nós mesmos e aos outros podemos melhorar alguns aspectos do nosso relacionamento. Quando temos a oportunidade de nos questionar, compreendendo as nossas limitações e potencialidades, aceitamos melhor as nossas próprias limitações. Esse saber pode ser adquirido por meio dos grupos com os quais nos relacionamos, desde que seja de maneira clara, franca e verdadeira. As pessoas têm características bastante distintas umas das outras. Algumas são mais introvertidas, outras são mais extrovertidas, possuem aptidão para a música ou para a dança. É possível compreender que cada indivíduo apresenta características distintas, tais como, físicas, mentais, intelectuais, emocionais, sociais e comportamentais. Para facilitar a interação entre o “Eu e o Outro”, é imprescindível reconhecer e valorizar a individualidade que cada indivíduo possui e as suas próprias qualidades e defeitos. De maneira geral, identificamo nos melhor com aqueles que se assemelham a nós como sexo, idade, cultura, traços e comportamentos. A projeção ou a generalização do mundo do outro é chamada empatia. A empatia é um dos mais poderosos instrumentos de que dispomos para um bom relacionamento. Para alcançar a compreensão é necessário desenvolver e aprender a inteligência emocional. Gardner desenvolveu uma teoria chamada “Teoria das Inteligências Múltiplas” que descreve a existência de nove categorias de inteligência, são elas: lógico-Matemática; Musical; Corporal Cenestésica; Intrapessoal; Natural; Existencial; Interpessoal; Espacial e Linguística.
O aprimoramento dessas inteligências poderá estimular a pessoa a adquirir um repertório comportamental competente para o crescimento emocional e a autoestima, o que a fortalece ao lidar com outras pessoas e evita a depressão. Nos últimos anos, um número crescente de psicólogos chegou a conclusões semelhantes, concordando com Gardner de que os conceitos antigos de QI (quociente intelectual) podem direcionar a inteligência para uma perspectiva linear, em vez de uma visão abrangente de inteligência para a vida pessoal e emocional. As relações humanas devem ser consideradas relevantes para o crescimento pessoal e social, mantendo o equilíbrio interior e exterior. O diálogo, a reciprocidade e a empatia são meios para alcançar a integração profissional, familiar, identitária (self) e social. Assim, incentivar a reflexão pessoal e as interações interpessoais podem acrescentar significado à existência psicológica, biológica, social e à maneira como se relaciona com a profissão, a família e a própria identidade. Ser autêntico consigo mesmo e com os outros pode auxiliar na reconfiguração da mente, evitando o mal-estar da depressão. Acredito ser importante manter o equilíbrio, para evitar que as nossas ações aumentem para extremos, o que nos leva à falta de reflexão pessoal e à privação das oportunidades de crescimento global. Tentar evitar excessos e buscar sempre o meio-termo pode ser uma opção para atingir esse objetivo. Pensar sobre os estilos de vida requer atenção e questionar constantemente sobre o que, por que, pensa e sente dessa maneira. Vários obstáculos que enfrentamos foram criados por crenças pessoais ou ideias impostas por pessoas que, frequentemente nos cercam e exercem influência sobre nós, causando-nos insatisfação e desesperança. Isso pode ter um impacto direto nas interações interpessoais, afetando a nossa confiança em nós mesmos e nos outros e o equilíbrio pessoal. É imprescindível pensar em maneiras de promover mudanças mentais. A racionalidade aliada à emoção pode facilitar a consonância interpessoal que se manifesta na alegria do encontro.
O psicólogo Daniel Goleman trata do tema contatos humanos de forma enriquecedora. Segundo ele, a inteligência emocional é a capacidade de conduzir os seus sentimentos de maneira adequada e eficiente nos desafios diários. Assim sendo, a reflexão pessoal sobre a dinâmica autêntica, tolerante e solidária, onde as relações humanas se envolvem na interação dos obstáculos que a depressão impõe a cada indivíduo, pode ser uma maneira de evitar esse mal.
Na nossa sociedade, a globalização, a revolução tecnológica, a exigência pelo conhecimento e o trabalho qualificado exigem de cada a postura pessoal participativa, flexível, de liderança, de comunicação, de domínio de diferentes linguagens. Além disso, também é preciso ter capacidade para pensar de forma simbólica e saber trabalhar em grupo, tomando decisões no dia a dia, o que, em absoluto, não combina com a depressão.
Nesse sentido, acredito que, diante dessas novas demandas, o ser humano se sente constantemente ameaçado, com o pensamento voltado tanto para questões pessoais quanto coletivas. É necessário pensar num tratamento para a depressão que se baseie numa visão que não se limita apenas à inteligência racional, mas também à inteligência emocional. Essa atitude permitirá a entrada no mundo das interações interpessoais e intrapessoais com mais eficácia, fornecendo habilidades essenciais para compreender situações complexas e não estruturadas e solucioná-las de maneira eficiente, sem atrelar a mente ao sofrimento da doença depressão.
Referências
Abreu, N., & Oliveira, I. R. de. (2008). Terapia Cognitiva no Tratamento de Depressão. In Cordioli, A. V. Psicoterapias — Abordagens Atuais. 3.ª edição. Porto Alegre: Artmed.
PERESTRELLO, M. A formação cultural de Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Adriano Nicolau da Silva, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Uberaba, MG. Colunista do Factótum Cultural. E-mail: adrins@terra.com.br.
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